sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Infinito

“Estou muito perto de casa, mas tão longe de ti”. Faltava pouco para o anoitecer, apenas o suave e contínuo ressoar das ondas do mar perturbava o silêncio daquela tarde. O cinzento das nuvens ameaçava chover e, apesar do tardar da hora, o sol não tinha ainda iniciado a sua descida até ao mais profundo dos horizontes. Miguel fitava o infinito, a sua face coberta por um vazio de expressão. Na sua mão um papel, branco, acariciado por uma ligeira brisa que teimosamente o tentava libertar do gentil aperto que ali o mantinha.

“Um simples papel é inútil até que alguém escreva nele”, pensava. Miguel procurou no bolso do seu casaco, lá aguardava uma caneta que há muito ansiava por usar. “Qualquer amor é inútil se ambos não estiverem dispostos a arriscar”, escreveu.

“Ontem estivemos próximos um do outro, podia sentir-te e sabia que estavas ali, mas não conseguia ver-te. Embora os nossos olhos nunca se tenham cruzado, hoje sei que também me sentiste. Pode apenas um dia, um simples momento, uma mera palavra, definir a nossa história?” Miguel escrevia, procurava nas suas palavras uma resposta a algo que não lhe cabia perguntar. Enquanto os seus dedos guiavam a caneta ao longo do papel, na sua mente permanecia apenas uma recordação.

“É tarde, não devo estar aqui”, dizia Sara, dirigindo-se mais para si própria do que para ele. Era uma noite como qualquer outra, após um longo dia juntos, encontravam-se agora sentados nas escadas do apartamento de Miguel. Falavam há horas sem nada dizer.

“Nem sempre o que devemos fazer é aquilo que temos de fazer”, respondeu ele. Sara esboçou um ligeiro sorriso enquanto os seus olhos calmamente se desviavam à procura dos de Miguel. Ele respondeu de igual forma, mas o seu sorriso rapidamente deu lugar a uma face de preocupação, na expectativa da conversa que se iria seguir.

“Porque não pode isto ser mais simples?”, perguntou.

“Por mais que eu queira… Por mais que queiramos que seja, simplesmente, não o é”, respondeu Sara sem um mero sinal de hesitação.

“Eu quero dizer-to, e ouvir-te a dizê-lo”.

“Eu também.”

“Parece-me bastante simples”, por um momento a voz de Miguel ameaçou falhar, enquanto os seus olhos se fixavam nos dela.

Aproximaram os seus lábios em antecipação do momento que ambos desejavam. Horas podiam ter passado enquanto os dois se deixavam afundar na ilusão de um amor impossível.

De regresso à fria realidade daquela noite, Miguel e Sara trocavam olhares como se estivessem envoltos numa longa conversa sem palavras. Para alguém que por ali passasse seria tão fácil identificar o diálogo inexistente entre estes dois, que não estranharia a falta de qualquer tipo de som.

Mas por mais que algumas coisas sejam, desde logo, entendidas por ambos, é necessário dizê-las com algo mais que um olhar.

“Não podemos continuar assim”, disse Sara quebrando o silêncio.

“Qualquer outra alternativa… É algo que eu não quero”, respondeu Miguel.

“Mas não estaremos os dois a enganar-nos com promessas vãs de algo que não pode acontecer?”

“Porque não pode acontecer?”

Sara suspirou, desviando o olhar para as suas mãos em busca das palavras que podiam tornar aquele momento menos doloroso. Não as encontrou.

“Porque apenas vivemos de momentos. Dias, horas, meros instantes que ocupam uma percentagem ínfima das nossas vidas”.

“Isso não é uma resposta, muito menos uma razão.”

“Amanhã não estaremos juntos, regressamos às nossas vidas, a realidades onde não existimos”.

“Tu existes na minha realidade, e eu na tua. Estamos juntos, aqui e agora, e amanhã podemos voltar a estar. De que vale deixarmo-nos definir por barreiras auto-impostas que apenas nos impedem de viver aquilo que mais desejamos?”

“Mas isto é tudo tão irreal… Tão platónico”, ela soluçou, reduzindo a sua voz a um mero suspiro.

“Como pode algo tão intenso ser apenas platónico? Como pode algo tão real não passar de uma mera ilusão?”

“Não sei, simplesmente, é”.

Sara continuava concentrada nas suas mãos, como se nelas guardasse a resposta. Embora algo dormente pela frieza das últimas palavras, Miguel prosseguiu com a discussão.

“Sara…”, dizer o nome dela sempre foi tarefa difícil, pois cada sílaba, cada letra, formava mais do que uma mera palavra, dizer o seu nome, dizê-lo ali, era, para Miguel, quase como dizer “amo-te” pela primeira vez. “Nós somos tão reais como tu, como eu, como estes degraus, como a noite que nos envolve, e por mais ilusórios que sejam os nossos desejos, são parte daquilo que nós somos”.

Suavemente colocou a sua mão sobre a dela, e encostou-a ao seu peito.

Cada batida do coração de Miguel era como um impulso que puxava para fora as palavras, a verdade que há muito reservava no interior do seu próprio coração.

Antes que Sara o pudesse dizer, antes que deixasse escapar aquilo que outras promessas a impediam de proferir, Miguel beijou-a.

Unidos, inseparáveis pelo mais intenso dos abraços, eram agora um só, partes iguais de um todo que não mais queriam ver desfeito.

Por mais perfeito que um momento seja, por mais que o desejo de ambos o prolongue, tudo tem o seu fim.

Sara agarrou com força o casaco de Miguel, e encostou a sua face ao seu peito. Embaraçada por esta falha para com as suas obrigações, deixou-se envolver por uma raiva incontrolável, largou-o e levantou-se, virando-lhe as costas.

Miguel já esperava esta reacção. Aguardou um pouco antes de a tentar acalmar.

“Não podemos continuar assim. Não posso continuar a fazer isto, não posso”, disse ela.

Sem hesitação, ele repostou: “Sim, amanhã tens que regressar à ilusão que preferes, em vez desta realidade”.

“Dizes isso com tamanha facilidade, falas em ligações, em destinos, em verdade. A verdade é que não me conheces, nem eu a ti”, respondeu Sara.

“Eu conheço-te, e tu a mim.”

“Dizes conhecer-me, mas não sabes as coisas mais simples sobre mim”, ripostou em tom de desafio.

“Posso não saber qual a tua bebida preferida, como tomas o teu café, posso não saber o nome do teu perfume, mas conheço-te de uma forma bem mais profunda. Sei que há dois lados em ti e que são ambos excelentes. O teu lado selvagem que usas como máscara para o resto do mundo, onde guardas os teus desejos, a tua vontade por uma vida intensa sob a égide do carpe diem, e o teu lado moderado que reserva uma rapariga doce e ao mesmo tempo pragmática, que acredita no amor mas com medo de se entregar a sério a alguém. Sei do teu passado, do lado escuro onde temes um dia regressar. Em verdade, és para mim um livro que tanto encontro aberto como fechado, guardas em ti os teus, os nossos segredos, e partilhas cada um sem o mínimo arrependimento.”

“Conheço-te Sara, e amo cada pormenor que faz de ti a mulher que hoje vejo à minha frente.”

Abalada pela sinceridade de Miguel, Sara teve que recorrer ao máximo das suas forças para conter o desejo de correr para os seus braços.

“Disseste-o”, finalmente, disse.

Ainda a recuperar o fôlego após esta confissão, Miguel respondeu simplesmente: “Sim.”

Nem ele podia adivinhar o que ia acontecer a seguir.

Sara fixou o seu olhar no dele, por uma última vez. Naquele momento, cientes do que tinham para dizer, falaram sem uma única palavra. Sara voltou-se, e desapareceu na escuridão da noite.

Miguel ainda demorou alguns minutos até se aperceber que estava agora sozinho em frente ao seu apartamento. Os degraus onde ainda há pouco ambos se tinham sentado a partilhar os pormenores mais íntimos dos seus corações, estavam agora tão vazios como aquela gélida noite primaveril.

A folha em que Miguel escrevia não era suficiente para tudo aquilo que ele tinha para dizer, mas por agora teria que servir.

Letra após letra, palavra após palavra, Miguel depressa chegou à última linha do papel que guardava entre os dedos. Embora para ele todo aquele processo tivesse demorado apenas breves instantes, foram na verdade horas que separaram a primeira da última palavra daquele texto tão precocemente criado.

Leu-o uma, duas, vezes suficientes até lhes perder a conta. O sol ainda se punha no horizonte, a noite timidamente relutante em tomar conta dos céus, quando Miguel guardou o papel e a caneta no bolso do casaco. Ali se manteve por mais alguns minutos, quieto, vazio de pensamento, a fitar o infinito.

Ao levantar-se para regressar a casa, reparou numa ténue figura ao longe na entrada da praia. Estaria ali a fitá-lo há horas, pensou. Talvez tivesse apenas agora chegado e com a curiosidade típica de qualquer um, estranhado a presença de alguém tão afastado do resto do mundo, numa hora como esta.

Miguel começou a andar. A figura mantinha-se estática como que presa aos seus movimentos. Quando finalmente a alcançou, fitou-a de igual modo, e não a reconheceu, passou ao lado, determinado a partir quando a voz daquela figura o deteve.

“Ontem não te vi, mas sabia que estavas lá.”

Ele permaneceu parado. Ambos de costas um para o outro com o olhar fixo no horizonte.

“Na outra noite, estava errada, pois tu conheces-me, e eu a ti.”

Miguel serrou as mãos impedindo-se, a custo, de revelar qualquer emoção.

“Tu também tens dois lados, que ambos adoro. O teu lado desinteressado que vê a vida como uma contínua rotina de coisas desnecessárias, animada por esporádicos momentos como aqueles que partilhamos. O lado que não tem medo de arriscar tudo por aquilo que acreditas como sendo verdade. E o teu lado emocional, que se reserva por detrás de um receio de te entregares e saíres magoado, mas que ao mesmo tempo alimenta uma forte crença no amor, num amor capaz de destroçar qualquer barreira por mais irracional que tal tarefa aparente ser. Ambos partilhamos o lado escuro, com origens diferentes, é certo, mas onde a luz igualmente não brilha. Temes cair nesse poço tanto ou mais como eu. Somos diferentes e ao mesmo tempo iguais. Conheço-te Miguel, e é por tudo isto, por ti, por nós, que eu também te amo.”

Sem saberem ao certo como ali chegaram, tão depressa estavam separados como agora se encontravam unidos em mais um abraço profundo. Enquanto lágrimas de alegria escorrem pelos olhos de ambos, Miguel e Sara trocam um sorriso que dá por terminada a longa tempestade que os assombrou nos últimos tempos.

Como que à espera deste encontro, o Sol surge finalmente por entre as nuvens, pintando de laranja o céu tardio.

Abençoados por esta surpresa divina, perdem um momento a contemplar o reluzir do mar sob a luz do final de tarde. Miguel limpa as lágrimas da face de Sara e beija-a. O primeiro beijo do resto das suas vidas.

E o texto que Miguel guardava no bolso do casaco? Larga-o agora, livre na brisa vespertina. Palavras soltas ao vento, com destino incerto, para sempre ilustradas no eterno amor que ambos agora partilham.

Publicado em 29 de Agosto de 2013

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