segunda-feira, 25 de julho de 2005

Telemóveis

Agora que já sou um Confirmado vejo o mundo de uma maneira diferente.

Porquê?

Porque é que de há uns anos pra cá, temos sentido a necessidade de transportar nos nossos bolsos, malas, ou onde quer que seja, estes instrumentos que, a cada dia que passa, ficam mais minúsculos, e mais próximos de virem equipados com um forno microondas?

Não sei. Aliás, ninguém sabe. A ideia até pareceu boa: Na eventualidade de nos perdemos no meio de uma cidade, no campo, ou até mesmo no deserto (apesar de aí não haver rede), podemos sempre pegar nessa caixinha multicolor e ligar ao Papá para saber como ficou o Sporting CP. Ou até mesmo apreciar o nosso gato a romper o forro dos sofás, enquanto a Mãe nos liga com o seu i9, para vermos a eterna piada da situação. E tudo isto, quando apenas queria ir à padaria mas o GPS mandou-me para Banguecoque.

Ora digam-me lá, como era a vossa vida antes do vosso primeiro telemóvel? Acham que se tornou mais prática e útil? Ou apenas viram as vossas carteiras a emagrecer mais rápido que o prometido nos planos de dieta Becel?

Acho que não hesitariam em dizer que a segunda hipótese é a mais acertada. Pode até mesmo surgir-vos a seguinte questão: Que é que queres ó marmanjo? Vais-me dizer que também não tens um?

Pois, para meu desgosto, também tenho um. Gastei duzentos e cinquenta euros nele, e nem sequer tem Bluetooth. No entanto, para além de ter aprendido umas expressões novas, como "Bluetooth", "WAP", "SMS", "MMS", e milhares de abreviaturas que muitas vezes não passam da mesma palavra só que em vez dos "S" usa-se "X", achei a utilidade desta caixinha azul, completamente inútil. Para além do gozo de ver as gralhas de certos colegas meus em testes de Português B, pouco de bom veio do uso desta "coisa".

Mas tenham calma, também tem os seus pontos positivos. Quantas foram as vezes em que me perdi nalgum sítio e usei-o para me orientar? Inúmeras. E quantas vezes enviei mensagens a perguntar sinónimos de palavras em testes de Português B ao meu pai? Umas cinco ou seis.

Por isso, até valeu a pena. Além de que o mundo do engate nunca mais foi o mesmo. O único grande problema é quando ela não é da minha rede. Aí a coisa complica, pois entramos num conflito entre a carteira e… Bem, digamos o “dito cujo”.

Estas coisas vieram para ficar e já se tornaram num bem essencial, ou não fossemos nós o país onde há mais telemóveis do que habitantes.

Publicado em 12 de Junho de 2013

sábado, 23 de julho de 2005

V

Waiting for my real life to begin / A Espera (título original)

A qualquer hora chegará o meu navio.

Não vale a pena continuares a chorar esse leite que derramas.
Não vale a pena parares para olhar o horizonte,
E ficares pelo sítio onde começaste.
Não vale a pena continuares a cair sem som.

Estás à espera que a tua verdadeira vida comece.

Não consegues ver?
Já tens um plano.
Não consegues ver?
Estás à espera.
À espera de chegar a casa.
À espera de caíres,
De caíres sem som.
À espera, que a tua verdadeira vida comece.

E de repente não estás só.
Estás a chegar a casa,
E fazes algo bonito.
E vais amar-te até ao fim dos tempos.

E num dia limpo,
Consegues Ver.
Ver, um longo caminho.

Vais continuar a olhar o horizonte.
 
Publicado em 11 de Junho de 2013

sábado, 16 de julho de 2005

Exausto

Querido Diário,

Estou completamente exausto. Passei a última semana a estudar para três exames de equivalência à frequência (e ainda critico o Armindo...). Mas não é este estudo que me põe assim. 

Podia pôr as culpas no facto de me deitar às duas da manhã, e de me levantar às oito e meia. Por não ter uma alimentação adequada, ou até mesmo por ver demasiada televisão, e por passar demasiado tempo no PC. 

Mas a verdade é que a minha exaustão não é meramente física. Como podes tu discernir, ó guardador de segredos que de segredo não têm nada!

Não me sinto a afundar, nem tão pouco a voar, nem a cair, nem qualquer coisa deprimente que possas estar para aí a pensar, e que já estás mais do que farto de ouvir.

Eu apenas sinto "huh", isto é, nada, não sinto nada. Dor, cansaço, raiva, inconformação, desprezo, tristeza ou alegria momentânea. Talvez sinta isso de vez em quando, mas é mais certo dizer que sou um ser desprovido de sentimento. Cada dia que passa sinto-me sem mais motivos para viver. Mas não te preocupes, não me vou suicidar. 

Para quê? O meu último grito de ajuda será pedido de outra maneira. Mas espero não chegar a esse ponto. Com esta frase, acabei de tornar tudo isto num texto deprimente. 

A verdade é que nunca irás ser capaz de me compreender. Não passas de um caderno vazio com umas linhas riscadas por uma cor negra de tinta sem valor. 

Aliás, nem caderno és, és um conjunto de zeros e uns, escondidos num código binário por trás desta rede de computadores, que talvez possam um dia aceder a este blogue e decifrá-lo. 

Por isso, não és um diário. És uma página pública que de público não tens nada.
Mas já chega de falar sobre ti. Afinal, eu sou a personagem principal da história que se escreve em ti. Sem mim, estarias numa prateleira ou simplesmente não existirias. 

Eu não sinto nada, só exaustão a arrasar o desespero. 

Porquê? A resposta a isto pode parecer um cliché, mas um simples beijo seria o suficiente para me curar. 

Eu sei, eu sei. Haverá coisa mais lamechas? Mas o que queres? Indirectamente, é isso que causa esta minha exaustão, e todo e qualquer transtorno que daí advenha. 

Mas então, porque é que esse "desejo" não se concretiza? Perguntas bem, mas não te sei responder. Talvez porque não é um desejo. É algo mais. Algo que para o qual não existem palavras que o possam descrever. E aí tens a tua resposta. 

Comigo tudo se complica, tudo e mais alguma coisa. Porque sempre terá que haver alguma coisa. Porquê? Ó Son Goku diz-me porquê! 

Nem ele me sabe responder... Estou exausto, pois estou farto de ler nas entrelinhas. Quero voltar a ter aquela esperança que em tempos tive, ou não fosse eu sportinguista.

Estou exausto de tudo. De interpretar, de filosofar, de pensar, de dormir, de amar sem sentido. Estou farto disso tudo. Só queria curar a minha exaustão, terminar os exames e continuar à procura desse "sonho". 

Sim, tudo me está a afectar, a minha avó, o rio que está sujo, tudo e mais alguma coisa... E tu, ó diário? Não dizes nada? Não me respondes? Ficas calado como Deus, o Son Goku e o Littlefoot ficaram? Não me dás a resposta? Quem me dera ter uma lareira onde te queimar. 

Como dizia naquela parte do Reading no CAE, a nostalgia nem sempre pode ser boa. Por isso, talvez não hesite no momento de te atirar para as chamas. O problema é que sentiria que estaria a atirar-me a mim próprio. 

Vou sobreviver a mais uma semana. Muito vou escrever. Espero que a caneta não fique sem tinta. 

Quando tudo isto terminar, vou descansar, tal como dizem que Deus fez. E depois, tal como Ele, terei que arranjar uma solução para que o meu "sonho" se concretize.
 
Até qualquer dia, e não te esqueças de escrever.

Se pelo menos me pudesses responder...
Publicado em 10 de Junho de 2013

quarta-feira, 29 de junho de 2005

IV

A Noite (título original)

Ao me deitar,
Iluminas com o teu saber.
Seduzes com o teu prazer,
Mas nada deixas alcançar.

Ofuscaste, longe
Prometes o imprometível,
Crias o incredível,
Elevando para outro lugar.

Fazes sonhar,
Fazes dormir,
Fazes amar,
Mas não te fazes concretizar.

Escondes-te no teu breu,
Refugias-te de todo o brio.
Pelo dia aguardas
Hora maldita, o amanhecer.

No teu leito te deitas,
Enquanto eu me levanto.
O sonho, já esvanecido
E o prometido, retirado.

Nada disto faz sentido.
Mas agora é que o teu prazer começa,
Sentindo todos a despertarem
Nesta realidade adversa.

E agora te deitas.
Também tu, te submetendo
A brincadeiras milenares
Que por mera sede de vingança
Todos nós temos que pagar,
Por esse teu desejo de criança. 


Publicado em 9 de Junho de 2013

sábado, 25 de junho de 2005

Porque ninguém me compreende?

Deparei-me com um dilema quando comecei a pensar sobre que início dar a este artigo. Optei, enfim, por começar com uma explicação: Não se preocupem, este não é mais um daqueles gritos lamechas que tantas vezes já ouviram, e que provavelmente estão fartos de ouvir.

Eu não falo para ninguém. Quem é ninguém, além daquele único bravo que o Rei deixa entrar no seu palácio?

Eu, assim como todos, quando me exprimo, tento atingir alguém. Nada mais me faz sentir uma profunda sensação de maravilha do que fazer com que esse "infeliz" me ouça, e saber que ele me compreendeu.

Estamos sempre sujeitos à crítica, e sabe-se lá ao que mais. Mas isso sempre é melhor do que nos depararmos com um rosto impávido de completa pasmaceira. Como se tivéssemos acabado de citar um versículo da Bíblia em aramaico.

De qualquer forma, a minha maneira de viver, ou de aguentar esta coisa que alguém chama de vida, faz com que me depare com situações destas todos os dias. Às vezes porque falei baixo demais. Outras por usar estrangeirismos, ou até mesmo por falar outra língua que não a nativa da pessoa a quem me dirijo. E isso simplesmente irrita-me!

Eu não quero ter que repetir o que digo. Eu não quero ter que explicar o que digo. Quero que percebam bem isto. Não me interpretem mal e, por favor, não façam falsas suposições, pois isso só me faz ter que explicar!

E agora sim, talvez tenha acabado de tornar este artigo num texto lamechas. Porque raios não são capazes de me deixar em paz, se não são capazes de me responder da maneira que eu espero, ou de uma maneira melhor? Se o assunto não vos interessa digam-me para parar. O simples acto de abrir a minha boca já é desesperadamente desgastante e insuportável – isto está a ir de mal a pior.

Eu sinto-me farto, completamente farto, destas situações. Odeio tanto isto, como odeio quando tenho que rastejar nos sonhos. Quando, por alguma razão, as minhas pernas não funcionam e fica tudo em slow motion, excepto aquele ser cujo único motivo de viver é saborear a minha derrota – graças a Deus que estou a aprender a fazer o Kame-ah-me. Obrigado Son Goku!

Nas várias tentativas de expressar a minha inadequabilidade, já me chamei de fénix que não renasce das cinzas. Já liderei uma revolução de coelhos amarelos, e já voei para longe nas azas de uma pomba azul.

Mas de que serve tudo isto? Porque continuo a atirar-me do precipício vezes sem conta, deixando-a ali a chorar? Porque tenho que ser eu a empurrar-me a mim próprio? Que desejo mórbido é este de a matar?

Acabei de fugir 180 graus à esquerda do assunto inicial. Sim, porque a esquerda é que é o bom caminho.

Sinceramente, não percebo porque acabo sempre por me queixar. Nem porque acabo por escrever textos lamechas que, quantas mais vezes os leio, mais me envergonha tê-los aqui publicados.

Na verdade, não estou mesmo para aí virado. Muitas cartas foram escritas. Muitas letras também. Pedindo salvação, muitos rezaram. Ninguém lhes respondeu.

Às vezes só peço para deixar de perder. Já lá vão os tempos em que uma Rainha e uma Torre bateram aquele grande exemplo. Para mais nada, isto serve.

Porque ninguém me compreende? Pois ninguém é eu. Eu sou eu e, para me compreenderem, talvez tenha que dar de caras com aquela sombra enublada. Talvez me compreendam quando vir essa luz ao fundo do túnel. Túnel que nunca verei, pois sou mais um tipo de pontes.

Aquilo que eu sei, sei-o eu. Aquilo que eu sou, sou eu. Eu sou eu, são capazes de compreender? Não? Nem com um texto destes me fiz parecer claro?

Eu não tenho clareza. Eu não me quero explicar. Não há ninguém que seja eu, e só por isso ninguém me compreenderá. Compreendem?
 

Publicado em 6 de Junho de 2013