quarta-feira, 24 de agosto de 2005

Tesouro Perdido na Areia

Estava na praia da Torreira quando, aos pés da minha toalha, encontro uma folha de papel quadriculado, meio enterrada na areia. 

Não vi nada de especial nela, mas algo em mim estranhava o facto de uma folha de caderno se encontrar ali. Peguei nela, lá estava escrito um estranho poema, já muito apagado. Decidi passa-lo a limpo, e aqui traduzo aquilo que sou capaz de perceber, daquelas linhas de rabisco, vítimas do desgaste do tempo.

Não sou inútil,
Sou alguém,
Ou talvez ninguém
Quem? Anda à procura de algo
Ou que talvez encontrou algo
Algo como o amor
O amor de alguém
Ou de ninguém
Porque esse alguém não é alguém é,
Sonho? Apenas que é
o Idolatrado?

Autor: Anónimo

Publicado em 18 de Junho de 2013

domingo, 7 de agosto de 2005

O Êxtase de Santa Teresa

Êxtase de Santa Teresa de Bernini
Passavam algumas horas desde que Teresa assistiu ao pôr-do-sol, no topo da torre oeste do convento de S. Euclides na Áustria. Teresa repetia este ritual todos os dias. Todos os dias, fugia às constantes chamadas da Madre que anunciava a hora do jantar. 

Todos os dias, Teresa encantava-se com o maravilhoso espectáculo de cores proporcionado pela perfeita junção da grandiosa esfera celeste, com os longos prados de flores, que rodeavam o convento. 

Os campos brilhavam em sintonia com uma miríade de cores que, aos olhos dela, só podia ser atribuído a um acto divino. Contudo, Teresa sentia que lhe faltava algo. Há já algum tempo que se sentia estranha. Um desconhecido vazio atormentava o seu coração. 

Apesar de rodeada por toda aquela beleza, algo na sua escolha de servir o Senhor, e de dedicar todo o resto da sua vida mortal a Ele, purificando-se para ser a sua esposa perfeita, não a estava a agradar. O vazio crescia a cada dia que passava, mas, naquele dia, algo estava diferente. Este desconhecido vazio fazia-se acompanhar por um estranho prenúncio do que lhe estava prestes a acontecer.

Teresa estava no seu quarto. Tinha terminado as suas preces, quando decidiu ir um pouco à janela pedir inspiração para os seus sonhos, às estrelas que iluminavam o céu nocturno. Não à Lua, pois essa tinha desaparecido. Há dias que vinha a ser engolida pelo vazio da escuridão. Mas, apesar de tudo, Teresa sabia que a Lua apenas estava noutro local, e que hoje era dia de Lua Nova. O dia de um novo começo. 

O vazio tinha atingido o seu limite. Estava na hora de o preencher. E, com este pensamento, Teresa deitou-se. Cerrou os olhos, continuando a pressentir que algo estava prestes a acontecer.

Para um mero viajante, ver um convento daqueles no meio de um prado tão longínquo era algo estranho. No entanto, devido à sua fama era rapidamente ignorado. Não por ter má fama, mas por simplesmente ser um dado garantido. A menos que precisasse de um sítio para passar a noite, nenhum viajante lhe daria grande importância. Mas tudo isso ia mudar depois desta noite.

Passava pouco das três da manhã. Todo o convento estava silencioso. Todos dormiam. Até Teresa estava profundamente emergida num sonho onde via um mundo estranho governado por cavalos de metal com rodas, e cheio de gigantes cubos de vidro. No meio daquilo tudo, sentiu uma forte vontade de acordar. 

Ao abrir os olhos, viu que todo o seu quarto estava iluminado, como se fosse dia. Ignorou essa primeira impressão, até que a ideia lhe atingiu o mais profundo do seu subconsciente. Levantou-se da cama. À sua frente, a imagem que mudou toda a sua vida, e com ela, a História do convento de S. Euclides.

“Teresa”, disse a voz do ser iluminado que apareceu diante dela.

“Chegou a minha hora, Senhor?”

“Não, venho aqui para preencher o teu vazio. Já o sentes há algum tempo. Deus ouviu as tuas preces e enviou-me para te ajudar.”

Teresa, um pouco incrédula com a situação, esfregou os olhos para tentar acordar. Aquilo só podia ser um sonho, pensou. Mas nada aconteceu, o ser iluminado ainda se encontrava no seu quarto.

“E como pensas preencher o meu vazio?”

“Deus entregou-me esta lança para que possa satisfazer o teu mais íntimo desejo.”

Teresa não sabia o que pensar. Só quis fechar os olhos, rezar, e entregar-se à sua morte. O Anjo apontou para o seu ventre, e lançou a lança. Contudo, Teresa não sentiu o seu ventre a ser trespassado, mas sim a sua zona sagrada que reservara toda a sua vida para servir Deus, quando o momento fosse certo. 

O seu primeiro pensamento foi que a sua santidade e pureza estavam a ser violadas. Não. Violadas não. Abençoadas, por um servo do seu Senhor. A seu pedido, tal como ele lhe tinha dito, para satisfazer os seus desejos mais íntimos. E, quando finalmente se apercebeu, reparou que esses desejos estavam a ser mesmo realizados. 

O acto durou algum tempo. No fim, Teresa sentiu-se como que rejuvenescida. O seu vazio tinha sido preenchido, e logo por um ser iluminado. Um Anjo, um servo do seu Deus. 

Teresa levantou-se para o agradecer, mas já ele tinha partido. Voltou a deitar-se, e deixou-se adormecer.

Na manhã seguinte, Teresa contou o seu encontro à Madre. Duvidando do seu testemunho, a Madre decidiu viajar com Teresa até ao Vaticano para confidenciar o "milagre" a alguém capaz de o compreender. 

O êxtase de Santa Teresa, tornou-se um dos contos obscuros escondidos pela Igreja. Bernini revelou-o numa escultura, aquela que acompanha este conto, e que eu agora vos revelo. Embora com muitos dados alterados para o bem da ficção, esta história conta na sua mais pura semelhança, o encontro de Santa Teresa com o Anjo que mudou a sua vida, e que preencheu o seu vazio.

Publicado em 17 de Junho de 2013

quarta-feira, 3 de agosto de 2005

A Resposta

Sim, eu tenho a resposta à pergunta que atormentou a Humanidade durante milénios. Quem apareceu primeiro, a galinha ou o ovo? Se usarmos a mais pequena parte do nosso cérebro, vemos que a resposta é mesmo óbvia: O Ovo!

Os leigos poderão argumentar que isto tudo é muito ambíguo. Apesar de a galinha nascer do ovo, é preciso uma galinha para pôr o ovo. Ora, é aqui onde todos se enganam, e onde eu, como Voz da Razão, vos passo agora a explicar o porquê de ser o Ovo o primeiro.

A resposta encontra-se numa pequena coisa a que eu gosto de chamar evolução. De facto, a galinha nasce do ovo e põe ovos de onde nascem galinhas, mas, a primeira galinha a aparecer não pode ter nascido de um ovo posto por outra galinha. Nasceu sim de um ovo posto por outro tipo de ave, muito semelhante a uma galinha.

Devido a uma estranha combinação genética dos progenitores, ou por causa de alguma mutação que simplesmente aconteceu por acção do meio – não sou capaz de responder ao certo – o embrião que se formou dentro desse ovo, transformou-se numa galinha.

A verdade é que o primeiro ovo, de onde nasceu a primeira galinha, foi posto por outra ave qualquer. Daí, quem surgiu primeiro foi o Ovo.

Publicado em 16 de Junho de 2013

segunda-feira, 1 de agosto de 2005

Um ano

Não, não é o meu aniversário, nem algo do género. Aliás, o dia 1 de Agosto do ano passado não deve ter sido muito diferente do dia 1 de Agosto deste ano. Mas a verdade é que já passou um ano, e tenho a certeza que hoje, o meu estado de espírito é diferente. 

Há pouco mais de um ano atrás, em pleno Verão, entrei num Outono que, por enquanto, ainda não se decidiu transformar em Primavera. Não sei se já é Inverno, ou se voltou a transformar-se em Verão, mas isso também é o menos importante. 

Ainda há pouco menos de cinco minutos, li um artigo num blogue que encontrei na página principal dos blogues do Sapo (já agora, foi este: A Felina Romantika). O que encontrei lá escrito, não posso negar, é algo que muito queria poder ter escrito em vários momentos da minha vida. Contudo, não o escrevi. Não por falta de tinta, vontade, papel, ou blogue, mas porque simplesmente não posso escrever, pois nada daquilo me aconteceu. 


Não por me afastar, pois o sentimento de não desistir é realmente algo que me persegue, e do qual eu me apercebo. Muitas vezes descrito como mais um defeito do que outra coisa, é algo que me é inato e imutável: Sou um Romântico e não posso fazer nada acerca disso, nem o quero fazer. 

Se, talvez, tivesse tentado a aproximação em alguns casos que, ultimamente me atormentam, não só em sonhos, mas também surgindo escondidos no meio das multidões, talvez tivesse conseguido o mesmo que a autora desse blogue. Apesar de tudo em mim me dizer o contrário, e de eu acreditar "neles". Aliás, até posso dizer que consegui uma aproximação semelhante com um dos casos mais recentes – eu tenho cá um jeito para tornar isto o mais sintético e técnico possível, não tenho? Faz parte da minha natureza formal. A culpa é do Inglês. 

Continuo ainda com esse receio, agora alimentado por uma incerteza, e uma sensação extrema de que, simplesmente, não vale a pena. Aquilo que penso que sinto, não é realmente o que sinto. Mas será isto assim ou será apenas uma barreira, falta de coragem, ou simples preguiça de fazer aquilo que já devia ter feito, há muito tempo? Pois, não sei. Só sei que tenho tentado ganhar toda a coragem possível. No entanto, acabo sempre por desistir, pois, apesar de tudo, continuo sem compreender nada, e sem saber o que fazer. 

Não sei ler os sinais, não sei ver se eles existem ou não. Só sei que me vejo assolado por uma vontade extrema de não tomar iniciativa, por vezes chegando mesmo a procurar outra saída, mais segura, mas que talvez não me dê aquilo que quero. Mas o que quero eu? Isto? Aquilo? Ela? Mas, porquê? Não sei. Apenas queria que ela me desse uma hipótese de o descobrir. 

Tudo em mim me diz que ela não ma dará. Mais vale, então, dispensar o embaraço e ficar "na minha" como se costuma dizer. Claro, depois terei que sofrer e aguentar com os "e se", e acreditem, já ando a aguentar com estes "e se" há tempo demais. Falta-me coragem para dizer aquela frase. 

Para quem tem medo de morrer, viver é ainda muito mais assustador.

Com isto tudo, não me quero queixar, nem soar lamechas, mas a verdade é que as coisas não são assim tão simples, apesar de o poderem ser. Já tenho demasiados fantasmas no armário. Mais vale arranjar essa coragem, que de corajosa não tem nada, pois as probabilidades indicam que o fracasso e a humilhação são o pão das apostas. 

Tentarei arranjar essa coragem sem me deixar cair em ilusões, aliás, já estou demasiado ferido e assustado para que mais uma coisa destas me doa. 

Retomando o assunto, apesar de tudo, ainda não saí do Outono em que me puseram há um ano atrás. Mas também não posso dizer que é mau de todo. A cor das folhas serve de adereço aos muitos sonhos, e o calor das casas, e das pessoas, é sempre um abrigo bem desejado. 

Com mais um daqueles artigos de possível melancolia sentimental vos deixo. Espero que não se fartem deles.

Publicado em 13 de Junho de 2013

sexta-feira, 29 de julho de 2005

Coisas de Estudante

(Esta história é um mero teste, e por isso está disposta a sujeitar-se a qualquer tipo de crítica, especialmente às más)

Durante um exame conjunto de Filosofia e Inglês:

Na carteira mais distante da porta, mesmo junto à janela, o Miguel - o nosso herói - estava concentrado no seu exame de Filosofia. Na carteira a seguir à dele, estava o Paulo que tentava desesperadamente ultrapassar aquele muro que era o exame de Inglês. Apesar do ambiente de exame, há sempre uma oportunidade para copiar quando a stôra Gertrudes tira uma dúvida ou vai para a porta olhar-se ao espelho a tentar compreender o porquê de ter envelhecido tão depressa. Ora, esta história começa exactamente nesse momento.

Enquanto a Gertrudes atendia a uma questão posta por uma aluna lá no fundo da sala o Paulo decidiu arriscar:

- Hey, hey! Ó Migas ouve!

- ‘Pera. Deixa-me acabar esta frase...

-Acaba lá depressa que a "Giberlina" não demora muito!

- Ok, ok. Diz lá!

-Diz-me aí o verbo “to be”, esqueci-me pá!

Neste momento, o nosso herói desiste de escrever, vira-se rapidamente para trás e chama a stôra.

- Ó stôra! Isto assim NÃO DÁ! Tire já o exame a este menino, que não vale mesmo a pena! Quer dizer, ando eu aqui há... 6, não 7... sim 7 anos! A ensinar esta cambada de ignorantes tudo aquilo que sei de Inglês, e este Gervásio, nem sequer sabe o verbo to be! Acabou! Nunca mais!

Com isto, rasga o seu exame e sai da sala. A caminho de casa o Miguel lembra-se subitamente que o seu exame era de Filosofia e que acabou de rasgar a única oportunidade de subir a sua nota. Quanto ao Paulo, ficou com o exame de inglês anulado e ficou contente por não ter tirado nega de propósito. The rest is history, ou como diria o Paulo, o resto ser isto!

(As personagens e os acontecimentos são completamente fictícios, qualquer semelhança com personagens ou situações reais é pura coincidência!)

Publicado em 14 de Maio de 2013