quinta-feira, 25 de novembro de 2010

XX

Imagem apagada, de um caminho deserto,
Ancestrais pegadas, perdidas no vento.
Espaços vazios. Nada.

Realidade imaginária, nunca questionada,
Sopros de silêncio, pela noite abafados.
Viagens por partir. Nada.

Cidades escuras, de idiomas ausentes,
Carentes ruínas, ainda por escrever.
Tempos perdidos. Nada.

Sonetos antigos, sem palavras, nem verbo,
Desenhos gastos, por livros encobertos.
Sonhos esquecidos. Nada.

Mortes insípidas, vazias de dor,
Vidas corridas, cegas por amor.
Histórias em branco. Nada.

Nomes deixados, algures no horizonte,
Passados vencidos, derrotas sem sabor.
Saberes desleixados. Nada.

Cansaço eterno, por saúdes prometidas,
Mentes adormecidas, sem onda, nem valor.
Projectos parados. Nada.

Esperança contínua, sem sentido de razão,
Preces ouvidas, sem pedido, ou decisão.
Águas retraídas. Nada.

Tudo, em um todo, apenas,
Paradoxos eloquentes, de parágrafos roubados.
Poemas iletrados. Nada.

Certezas antes vistas, no incerto do destino,
Runas indecisas, por um fado caótico.
Letras encobertas. Nada.

Sentimentos guardados, na ânsia do porvir,
Futuros inesperados, no limite de desistir.
Corações partidos. Nada.

Doces Novembros, há muito vividos,
Nunca esquecidos, hoje partilhados.
Amor por viver. Dias por receber.
Nada, é tão simples.
Nada, que tudo é. Tudo.

Publicado em 9 de Setembro de 2013

sábado, 10 de dezembro de 2005

Nada

A verdade crua e fria, ou fria e crua, ou somente fria, (nunca cheguei a saber como é que se diz esta expressão correctamente) é que não tenha nada para dizer.

O que é o nada se não algo? Já disse muitas vezes que estava a fazer nada quando estava a fazer algo. O próprio acto de abrir a boca para dizer a palavra, ou de mexer os dedos para a dactilografar, é algo. E antes mesmo de fazer isso, estava a olhar, a pensar, a respirar. Mesmo estando parado, estou a fazer algo. Até um vegetal faz algo quando parece fazer nada.

Agora o nada, o que é o nada? O vácuo? Mas o vácuo não é nada, é algo, é o vácuo. É a ausência de qualquer coisa, não é o nada. A própria palavra “nada” é algo já de si, é uma palavra, é uma forma do verbo nadar. Até aí já é qualquer coisa para além do nada.

Para muitos, o nada é aquilo que surge depois de morrermos, mas isso também não é nada, é algo, é a morte.

Será o nada mais um mito urbano? Talvez, se pensarmos bem, as coisas que consideramos como sendo nada, o branco, o vazio, a morte, a paragem e a inoperação de alguma ocorrência. Tudo isto, não é nada, é algo, algo que está definido. Então o nada é o metafísico, é algo que desconhecemos. Também o que desconhecemos é algo. Irá ser descoberto mais cedo ou mais tarde. Isso também não é o nada.

Raios, afinal o que é nada? Nada, o nada não é nada, nada é nada, o nada não existe. É um pigmento da nossa imaginação, como tantas outras coisas que sentimos preguiça, ou um desejo tremendo em definir. O nada simplesmente é o que é, ou melhor, o que não é. O nada, nada é. O nada é o próprio nada.

Como já tinha referido, eu não tenho nada para dizer, mas esse nada tornou-se em algo. Tornou-se neste texto que na verdade fala de nada, pois é ao Nada que é dada toda a importância. É pelo nada que este artigo existe. Perguntam-me, o que é o nada? É algo que se deixa passar por nada.

Publicado em 11 de Julho de 2013