sexta-feira, 20 de abril de 2007

XI

Estarei Vivo? (título original)

Será a vida nada mais que um céu? Um Inferno?
Uma estranha espécie de limbo?
Não respiro, não sinto, o meu coração não bate.
Estarei morto?
Se a morte é pensar, falar e agir, o que é viver?
Nada sei, pois não sei responder a esta pergunta.

A vida é uma música que não podemos ensaiar,
Mas se não sei sobre o que cantar,
Como vou viver?

Se a vida é um palco e somos todos artistas,
Estarei morto por não saber actuar?

Se a morte é como a vida, como sei onde estou, ou o que sou?
Porquê o medo? Porquê o desconhecido?
Se o desconhecido é aquilo que se conhece,
Como continua a ser desconhecido?

Nada é nada, e tudo é tudo,
Mas e se tudo for nada, e nada for tudo?
O que acontece?

O meu concerto vai a meio,
Uma corda da minha guitarra parte-se,
Tenho que cantar, mas nada sai da minha voz.
É isto viver? É isto morrer?
Há alguma diferença?

Se não vivesse, onde estava?
Se não morresse, onde estava?

Se...?

Publicado em 1 de Agosto de 2013

sábado, 25 de março de 2006

Shouting in the Nothingness

Imagem DR
Era de manhã. Não havia antes, nem necessidade de o tratar como antes. O Sol já ia alto, bem acima das nuvens. Tão alto que cá em baixo, apenas o cinzento da luz ofusca se reflectia no ar carregado do horizonte.

Mais um dia nublado. O início de uma Primavera normal, como sempre foi. Nenhum antes para sentir falta de. Apenas um dia como todos os outros. Mas, como todos os dias normais, este não seria escrito se não fosse algo mais do que apenas isso. Com nada em particular para fazer, parto para o sítio do costume, onde nada em particular se iria passar. Não num dia tão normal como este.

Dava-me como concretizado, ao conseguir encontrar alegria num dia cinzento. Passando assim a pertencer a um grupo restrito, daqueles que são capazes de o fazer.

Ao subir as escadas, nada para além da normalidade. Normalidade de degraus. Incontáveis. Permanentes e passados. Mantêm uma eterna indiferença rochosa perante tudo aquilo que por eles passa.

Continuo até ao topo. Caminho para aquele local, onde lá estarei, para me banhar pela normalidade que absorve este dia. Que dias normais, esses passados, subindo e descendo degraus, caminhando por passeios e estradas, sobre as quais outros passavam. Outros que seguiam as suas rotinas, procurando o mesmo propósito de uma busca pela normalidade.

Tudo isto ainda não era um antes, se alguma vez viria a ser. Era aquilo que era. Era um agora. Um agora que não precisava de um antes. Que não sonhava em ser um antes, e que não precisava de um antes.

Todos estes caminhos assim continuam, até ao dia em que os agoras do presente se tornem nos antes do passado. Antes que perseguem estes presentes, não como ofertas, mas como aquilo que são: Lembranças de um antes que já foi um agora.

Caminhos férreos, acidentes, realidades, anjos, terraços, perigos, bicicletas e viagens, sempre viagens. E assim, todos os antes culminam num agora. Um agora incapaz de ser aceite. Um agora que não passa disso. Apenas um agora em toda a sua normalidade. Um agora que não teme nem anseia por um antes.

Porque tem algo de ser salvo? Porque tem algo que desaparecer? Porque tem algo de ser relembrado?

Perguntas vãs, com respostas sem sentido. Nem o nada sabe aquilo que é, ou que não é. Hoje é um dia normal. O dia da eterna e simplista nebulização, que nos acinzenta o caminho para a alegria.

Publicado em 5 de Agosto de 2013

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2006

Baby, can you dig your man?

Foto DR
E desta forma o mundo acabou.

Por vezes gostava de me sentir como o Larry Underwood, a caminhar num mundo destroçado, coberto por desertos e mortos. Acompanhado apenas por um pontual oásis de vida humana, avistado de quando em vez.

A verdade é que não saberia como sobreviver. Neste mundo, não foram poucas as vezes que me senti desta forma, mas, pelo menos, sempre tinha comida fresca na mesa. Um carro atestado e com a revisão em dia. E pouca, ou nenhuma, necessidade de temer os estranhos que passavam pela rua. Apenas em tempos de escassez podemos ver o quanto especiais verdadeiramente somos.

De qualquer das maneiras, à mínima ferida mais grave, ver-me-ia condenado. Será que valeria a pena ser um dos poucos sobreviventes do apocalipse? Talvez finalmente encontrasse assim alguma paz. Talvez a morte não seja assim tão má. Não sei. Também não sei se faria como os outros, e iria em busca de vida humana. Já hoje pouco a procuro, embora, por vezes, deseje alguma da sua diversidade.

A verdade é que nestas coisas não existe verdade. São meras hipóteses que, pouco provavelmente, algum dia virão a ter uma oportunidade de serem provadas, ou contra-argumentadas.

Estar só no meio de uma multidão pode ser dos mais antigos clichés que nos vemos obrigados a ouvir, mas, contudo, não deixa de continuar a acontecer.

Estarei realmente só? Não, mas gosto de pensar que sim. Estranho sentimento de self-pity que provavelmente nunca irei compreender.

A verdade é que não existe nenhuma verdade, nem tão pouco uma mentira. As coisas são como são. Eu sou como sou. Não estou só, mas anseio por me sentir assim. Só quero aquilo que não posso ter, e só preciso daquilo que não quero. Um paradoxo ambulante. O meu dogma. A minha cruz. Estas palavras já não fazem sentido, nem tão pouco era essa a minha intenção.

Acredito que seria um sobrevivente. Não me imagino morto, logo serei imortal. Tal pensamento egocêntrico talvez nunca venha a ser provado. Mas irei comprovar algo, alguma vez? Vou continuar a celebrar aquilo que nunca irei ter?

Perguntas lançadas no ar, que sem resposta vão permanecer. Isto de ser eu não tem muita piada, ou talvez as coisas não sejam assim. A verdade é que nem sei o que estou a escrever, nem o porquê de o estar a fazer.

Escrever sem sentido faz-te dizer coisas que podem ficar confusas. Mas todo o caos tem a sua ordem. Não é preciso procurar muito para a encontrar. Ela é tão explícita como a beleza interior.

Não espero por interpretações, nem por possíveis intervenções. Essas simplesmente não existem. Isto é o que é. Eu sou o que sou. E por enquanto ficarei por aqui. Tanto para dizer, tão pouco tempo para o fazer, tão poucas razões também.

Publicado em 28 de Julho de 2013

quinta-feira, 24 de novembro de 2005

Querido Pai Natal

Há muito tempo que não te escrevo. Há muito tempo que não me respondes. Tenho saudades daquelas manhãs de Natal, em que acordava e todas as prendas que eu te tinha pedido, com excepção de algumas que, agora que olho para trás vejo que foram pedidos completamente sem sentido, estavam ali na cozinha, ao lado do meu sapato. 

Uma vez, até me esqueci de uma delas, que ficou perdida atrás da mesa. Lembraste daquela vez que te esqueceste do teu gorro? Queria muito tê-lo aqui comigo. Talvez um dia pergunte à minha Mãe onde ele está.

Este ano voltei a portar-me mal e acho que não mereço que me visites. Não que alguma vez o tivesse achado, mas Tu lá vinhas. Eu não sou um dos bons. De certeza que há muita gente por aí que merece mais as minhas prendas. Não me importo que continues a não me visitar. Os meus pais e eu trataremos de arranjar aquilo que quero ou que preciso. Afinal como é que os teus duendes vão fazer DVDs? Só queria que me voltasses a responder.

Gostava de ter uma lareira para escrever esta carta e queimá-la, como ouvi dizer que faziam na Dinamarca. Terei que ter esperança em que já te tenhas dedicado às novas tecnologias, e que um dia venhas a ler esta carta que hoje te escrevo.

Agora sou capaz de compreender o porquê de Tu existires, assim como o porquê de certas pessoas precisarem que Tu existas. 

Eu sempre adorei o Natal. Não só por Ti, mas também pelo Menino Jesus, embora ele tenha nascido a 17 de Abril. Daqui a poucas semanas vou montar as árvores e enfeitar a casa. Vou comer rabanadas, bilharacos, fruta cristalizada e bacalhau. Vou abrir as prendas, algumas já mais que anunciadas, outras, apenas meros envelopes com papéis de tecido, alguns chocolates, e algumas peças de roupa para pôr num canto do meu armário. 

O próximo ano será diferente. Eu sei que vai ser. Só gostava que fosse melhor. Até lá, fico à tua espera. Nunca te esquecerei Pai Natal.

Um abraço, do mesmo de sempre.
 

Publicado em 8 de Julho de 2013

domingo, 25 de setembro de 2005

Escreve sobre o que sabes

Foi esta a frase que me veio à cabeça, poucos segundos antes de ter aberto esta página.

Tenho que me render à realidade. Apenas um ou outro artigo dos vinte e sete já publicados neste blogue, é que tem interesse. E mesmo essas pêras num cesto de maçãs, ainda têm alguns bichinhos que estragam grande parte do seu sabor.

Na desesperada tentativa de produzir mais uma pêra, veio-me esta frase à cabeça. Mas o que sei eu? Um homem, provavelmente alguém famoso, ou talvez um ser de ficção, que não faço a mínima quem tenha sido, uma vez disse: “Só sei, que nada sei.” 

Eu sou verdadeiramente um ignorante, e um inculto, no que toca a saber das coisas. O que elas são, para que servem e, para pior de todos os males, como se chamam. Atormenta-me uma situação no oitavo, ou no nono ano, em que não sabia se devia pôr o pacote de Um Bongo no papelão ou no coisinho das embalagens. Não é essa indecisão que me atormenta, aposto que a grande maioria das pessoas já passou por este dilema. O que me atormenta é o facto de me terem criticado negativamente por não o saber. 

Na altura, isso deixou-me mesmo muito irritado. Outro exemplo é o facto de, há poucos meses, ter descoberto que outra palavra para Lírio era Açucena. Ouvi essa palavra numa música da Sara Tavares e fui ver ao Dicionário o que queria dizer. Para meu espanto, algo que eu pensava ser desconhecido do público, era na verdade, cultura geral. 

Foi uma situação tão vergonhosa que é neste artigo que a confesso pela primeira vez: Eu não sabia o que eram Açucenas, até ter ouvido a palavra numa música, e a ter ido ver ao Dicionário. Mesmo após descobrir, alguns meses mais tarde, que essa mesma palavra tinha surgido num teste de CTV, e eu ignorei-a completamente. Ignorei-a, ou simplesmente não me interessei o suficiente para a ir procurar ao Dicionário. 

São gigantescos os exemplos de palavras que nunca passaram pelo meu ouvido, mas que pelos vistos toda a gente as conhecia. Bacorada, que só descobri que existia enquanto falava com um pessoal de Setúbal, é outro exemplo. Isso deixou-me a pensar que talvez fosse um regionalismo, mas na verdade, toda a gente a conhecia. Toda a gente, menos eu. 

Outro caso, já é muito antigo. Durante toda a minha infância aguardava por aqueles dias em que chegava a casa e a minha avó tinha feito letria, eu adorava aquilo, principalmente com canela. Os tempos foram passando, e o meu gosto por letria mantinha-se inalterado até que um dia, devia ter eu uns treze anos, vejo escrito no livro de português “aletria” e não “letria”, como seria de esperar. Perguntei à professora se seria algum erro, mas ela confirmou-me que era assim que se escrevia. 

Todo aquele tempo, todos aqueles sonhos, destroçados por um mísero A. Porque raio é que se chama aletria? "Ó mãe já fizeste a aletria!" Sou o único que acha isto extremamente estúpido?

Este artigo dava um romance, não tivesse eu que ir jantar, ou não achasse que não valeria a pena continuar a escrever. Pois, quanto maior isto for, menos gente o vai ler. 

Aí está uma questão para um próximo artigo: Porque raio os jovens de agora não têm paciência para ler um artigo com mais de cinco linhas, ou um livro com mais de cem páginas?

Mais uma vez termino sem um fim. Deixo-vos com as palavras de um velhote que tenho vindo a admirar: "E esta, hein?!" 

Publicado em 25 de Junho de 2013

terça-feira, 13 de setembro de 2005

Querido Diário

Sinto uma estranha sensação de déjà vu, talvez por ter tocado numa certa e determinada tecla, e todo o texto que tinha acabado de escrever tivesse desaparecido. Será que sonhei com isso tudo, ou foi isto apenas um empurrão do meu subconsciente, como se dissesse que aquilo não prestava para nada? Prefiro a segunda opção, pois não sinto aquela dor de cabeça que surge sempre, mal eu acabo de acordar.

Eu sei. O meu último artigo foi tão mau, que agora tenho que recorrer a ti, para te contar mais um daqueles dias entediantes, só para ver se me safo da crítica, embora esta seja praticamente inexistente. 

Não venhas agora com queixas, pois eu sei que a tua única razão de existência sou eu. Bem, pelo menos tu sabes porque existes. 

Hoje foi um daqueles dias, tu sabes, um daqueles dias completamente normais. Não fiz absolutamente nada com relevo suficiente para te contar a ti, ou a quem quer que seja. Vê se me lembras de encontrar um daqueles sítios onde passam cassetes VHS para DVD. Creio que a minha cassete do Em Busca do Vale Encantado IV não dura muito mais. 

Normalmente não me preocuparia, mas é aquela que tem a versão em Português que passou na RTP. Aquela em que o Littlefoot se chama Pezinho, e tu sabes melhor que eu, que essa versão nunca foi vendida. Enfim, mais um daqueles "must do" que só não ponho num post-it, pois isso não fica lá muito bem. Aliás, porque é que se chamam post-its? Qual é o nome em português? Hei-de pesquisar isso. Talvez mais tarde.

Finalmente acabei de ver o Em Busca do Vale Encantado XI. Tem alguma piada, mas está a unidades astronómicas de distância da qualidade do original, ou até mesmo da do IV, que para mim é a melhor de todas as sequelas. Já que falei nisso, ainda não descobri a outra palavra que se usa para dizer sequela, mas não te preocupes, a investigação ainda está em aberto.

Bem, depois deste pequeno devaneio, vou terminar esta tua "coisa". O nome não me vem à cabeça, mas artigo não me parece que seja. De qualquer forma, espero ter a sorte, ou o azar, de que ninguém que faça parte "deles" leia esta "coisa", se não, estou extremamente "coisado".

Continuação de uma "boa coisa".

P.S.: Meu Deus, estou bué formal. É o que faz passar este tempo todo em CAEs e isso. Já agora, não me apetece mesmo nada ir à inauguração das novas instalações da Windsor School, por isso não vou.

Publicado em 23 de Junho de 2013

quarta-feira, 24 de agosto de 2005

Querido Diário

Passava pouco das duas da manhã da noite anterior. Como normalmente tem acontecido, dormir não era uma opção. Embora já me encontrasse de pijama, enrolado por entre os lençóis, mesmo após ter desistido de fazer zapping, o sono não aparecia. 

A vontade de esperar para ver Everwood não era lá muito grande. A RTP bem que podia passar esta série em horários decentes, mas essa escolha a mim não dizia respeito. Agora, vejo-me a pensar em que trafulha o Ephram ter-se-á metido. Sempre quero ver se ele vai ficar com a Amy, apesar do Colin ter acordado do coma. 

Tudo isto deixa-me meio dividido, já que o Colin foi o que teve o acidente, e que se viu privado pelo destino, de uns largos meses da sua adolescência. Mas, nem tudo está mal para os lados de Ephram. Lá apareceu a misteriosamente interessente irmã do Colin, talvez Ephram tenha alguma sorte, quem sabe? Eu não, pois já devia estar a dormir quando o episódio começou.

Eram duas da manhã, levantei-me e liguei a luz para ir à "estante" (Não é bem uma estante, mas que outro nome lhe posso dar? Armário sem portas e com uma gaveta?). Estava decidido em encontrar o CD da Lene Marlin, não me perguntes o nome pois agora não me ocorre. 

Após umas três olhadelas lá consegui encontrá-lo. Olhei para a capa de trás, procurando a Fight against the hours. Ela lá surgiu, a sorrir em oitavo lugar. Baixei-me para tirar o leitor de CDs da Sony da mesinha de cabeceira.

Sim, o da Sony. Eu sei que o da Denver custou sessenta euros, e está ali por usar, mas se estou sempre a carregar a bateria dele, aquilo vicia, e não posso dizer que este CD seja de mp3, já que até é mesmo o álbum original. 

Ainda me lembro, recebi-o pelo Natal. Não sei se no do ano anterior, se no de há dois anos. O que interessa é que apenas recentemente tenho prestado mais atenção a este álbum. 

Feito isto, coloquei o álbum dentro do leitor de CDs, desliguei a luz, e desloquei-me até à janela, porta, ou varanda, como lhe preferires chamar. Quase caí sem motivo. Estava com os dois pés perfeitamente assentes no chão, mas isto às vezes falha. Na verdade, não foi bem assim, ainda ouvi uns dez segundos da música deitado na cama, antes de me levantar para apagar a luz. 

Fast forward, e uns trinta segundos mais tarde, encontro-me deitado na cama, a pensar em ir para mais perto da luz da janela. Sentei-me no chão e encostei-me no canto. Olhei para a janela, porta, ou varanda, como lhe preferires chamar, como se pudesse ver através dos estores. Mesmo entreabertos, a menos que encostasse a minha fronha aos seus buracos, não conseguia ver nada.

Ouvi a música até ao fim. Desprovi-me de qualquer sentimentalismo. Voltei a ligar a luz, para poder guardar o álbum no seu lugar, e colocar o leitor de CDs na mesinha de cabeceira. Eu guardo-o por debaixo do vidro, por isso não é assim tão simples. Não queria deixar cair a minha Ahnk, ou o meu relógio Swatch, que parou a uma certa e determinada hora, num certo e determinado dia, que eu não faço a mínima quando foi, já que logo no segundo dia do meu décimo ano, a corrente partiu-se, e o relógio ficou incapacitado, sendo agora impossível usá-lo sem trocar de corrente, o que o estragaria, e muito, esteticamente falando, claro. 

Volto a desligar a luz, e deito-me pensando em coisas triviais. Eventualmente lá consigo adormecer, embora não saiba como, nem a que horas. 

Apesar de ter acordado várias vezes, apenas quando o último dos sonhos terminou, com direito a fim, e a cenas do próximo episódio – episódio esse, que talvez ainda seja mais controverso que o anterior, bom, pele menos já posso jogar damas –, é que me decidi por levantar. Embora ainda com a letra da música na minha cabeça, acordei por volta do meio-dia e vinte. 

Passaram-se dez horas das minhas férias. Férias essas que estão quase a terminar. Pergunto-te então a ti, não te falta fazer alguma coisa?


Publicado em 19 de Junho de 2013

segunda-feira, 1 de agosto de 2005

Um ano

Não, não é o meu aniversário, nem algo do género. Aliás, o dia 1 de Agosto do ano passado não deve ter sido muito diferente do dia 1 de Agosto deste ano. Mas a verdade é que já passou um ano, e tenho a certeza que hoje, o meu estado de espírito é diferente. 

Há pouco mais de um ano atrás, em pleno Verão, entrei num Outono que, por enquanto, ainda não se decidiu transformar em Primavera. Não sei se já é Inverno, ou se voltou a transformar-se em Verão, mas isso também é o menos importante. 

Ainda há pouco menos de cinco minutos, li um artigo num blogue que encontrei na página principal dos blogues do Sapo (já agora, foi este: A Felina Romantika). O que encontrei lá escrito, não posso negar, é algo que muito queria poder ter escrito em vários momentos da minha vida. Contudo, não o escrevi. Não por falta de tinta, vontade, papel, ou blogue, mas porque simplesmente não posso escrever, pois nada daquilo me aconteceu. 


Não por me afastar, pois o sentimento de não desistir é realmente algo que me persegue, e do qual eu me apercebo. Muitas vezes descrito como mais um defeito do que outra coisa, é algo que me é inato e imutável: Sou um Romântico e não posso fazer nada acerca disso, nem o quero fazer. 

Se, talvez, tivesse tentado a aproximação em alguns casos que, ultimamente me atormentam, não só em sonhos, mas também surgindo escondidos no meio das multidões, talvez tivesse conseguido o mesmo que a autora desse blogue. Apesar de tudo em mim me dizer o contrário, e de eu acreditar "neles". Aliás, até posso dizer que consegui uma aproximação semelhante com um dos casos mais recentes – eu tenho cá um jeito para tornar isto o mais sintético e técnico possível, não tenho? Faz parte da minha natureza formal. A culpa é do Inglês. 

Continuo ainda com esse receio, agora alimentado por uma incerteza, e uma sensação extrema de que, simplesmente, não vale a pena. Aquilo que penso que sinto, não é realmente o que sinto. Mas será isto assim ou será apenas uma barreira, falta de coragem, ou simples preguiça de fazer aquilo que já devia ter feito, há muito tempo? Pois, não sei. Só sei que tenho tentado ganhar toda a coragem possível. No entanto, acabo sempre por desistir, pois, apesar de tudo, continuo sem compreender nada, e sem saber o que fazer. 

Não sei ler os sinais, não sei ver se eles existem ou não. Só sei que me vejo assolado por uma vontade extrema de não tomar iniciativa, por vezes chegando mesmo a procurar outra saída, mais segura, mas que talvez não me dê aquilo que quero. Mas o que quero eu? Isto? Aquilo? Ela? Mas, porquê? Não sei. Apenas queria que ela me desse uma hipótese de o descobrir. 

Tudo em mim me diz que ela não ma dará. Mais vale, então, dispensar o embaraço e ficar "na minha" como se costuma dizer. Claro, depois terei que sofrer e aguentar com os "e se", e acreditem, já ando a aguentar com estes "e se" há tempo demais. Falta-me coragem para dizer aquela frase. 

Para quem tem medo de morrer, viver é ainda muito mais assustador.

Com isto tudo, não me quero queixar, nem soar lamechas, mas a verdade é que as coisas não são assim tão simples, apesar de o poderem ser. Já tenho demasiados fantasmas no armário. Mais vale arranjar essa coragem, que de corajosa não tem nada, pois as probabilidades indicam que o fracasso e a humilhação são o pão das apostas. 

Tentarei arranjar essa coragem sem me deixar cair em ilusões, aliás, já estou demasiado ferido e assustado para que mais uma coisa destas me doa. 

Retomando o assunto, apesar de tudo, ainda não saí do Outono em que me puseram há um ano atrás. Mas também não posso dizer que é mau de todo. A cor das folhas serve de adereço aos muitos sonhos, e o calor das casas, e das pessoas, é sempre um abrigo bem desejado. 

Com mais um daqueles artigos de possível melancolia sentimental vos deixo. Espero que não se fartem deles.

Publicado em 13 de Junho de 2013

sábado, 16 de julho de 2005

Exausto

Querido Diário,

Estou completamente exausto. Passei a última semana a estudar para três exames de equivalência à frequência (e ainda critico o Armindo...). Mas não é este estudo que me põe assim. 

Podia pôr as culpas no facto de me deitar às duas da manhã, e de me levantar às oito e meia. Por não ter uma alimentação adequada, ou até mesmo por ver demasiada televisão, e por passar demasiado tempo no PC. 

Mas a verdade é que a minha exaustão não é meramente física. Como podes tu discernir, ó guardador de segredos que de segredo não têm nada!

Não me sinto a afundar, nem tão pouco a voar, nem a cair, nem qualquer coisa deprimente que possas estar para aí a pensar, e que já estás mais do que farto de ouvir.

Eu apenas sinto "huh", isto é, nada, não sinto nada. Dor, cansaço, raiva, inconformação, desprezo, tristeza ou alegria momentânea. Talvez sinta isso de vez em quando, mas é mais certo dizer que sou um ser desprovido de sentimento. Cada dia que passa sinto-me sem mais motivos para viver. Mas não te preocupes, não me vou suicidar. 

Para quê? O meu último grito de ajuda será pedido de outra maneira. Mas espero não chegar a esse ponto. Com esta frase, acabei de tornar tudo isto num texto deprimente. 

A verdade é que nunca irás ser capaz de me compreender. Não passas de um caderno vazio com umas linhas riscadas por uma cor negra de tinta sem valor. 

Aliás, nem caderno és, és um conjunto de zeros e uns, escondidos num código binário por trás desta rede de computadores, que talvez possam um dia aceder a este blogue e decifrá-lo. 

Por isso, não és um diário. És uma página pública que de público não tens nada.
Mas já chega de falar sobre ti. Afinal, eu sou a personagem principal da história que se escreve em ti. Sem mim, estarias numa prateleira ou simplesmente não existirias. 

Eu não sinto nada, só exaustão a arrasar o desespero. 

Porquê? A resposta a isto pode parecer um cliché, mas um simples beijo seria o suficiente para me curar. 

Eu sei, eu sei. Haverá coisa mais lamechas? Mas o que queres? Indirectamente, é isso que causa esta minha exaustão, e todo e qualquer transtorno que daí advenha. 

Mas então, porque é que esse "desejo" não se concretiza? Perguntas bem, mas não te sei responder. Talvez porque não é um desejo. É algo mais. Algo que para o qual não existem palavras que o possam descrever. E aí tens a tua resposta. 

Comigo tudo se complica, tudo e mais alguma coisa. Porque sempre terá que haver alguma coisa. Porquê? Ó Son Goku diz-me porquê! 

Nem ele me sabe responder... Estou exausto, pois estou farto de ler nas entrelinhas. Quero voltar a ter aquela esperança que em tempos tive, ou não fosse eu sportinguista.

Estou exausto de tudo. De interpretar, de filosofar, de pensar, de dormir, de amar sem sentido. Estou farto disso tudo. Só queria curar a minha exaustão, terminar os exames e continuar à procura desse "sonho". 

Sim, tudo me está a afectar, a minha avó, o rio que está sujo, tudo e mais alguma coisa... E tu, ó diário? Não dizes nada? Não me respondes? Ficas calado como Deus, o Son Goku e o Littlefoot ficaram? Não me dás a resposta? Quem me dera ter uma lareira onde te queimar. 

Como dizia naquela parte do Reading no CAE, a nostalgia nem sempre pode ser boa. Por isso, talvez não hesite no momento de te atirar para as chamas. O problema é que sentiria que estaria a atirar-me a mim próprio. 

Vou sobreviver a mais uma semana. Muito vou escrever. Espero que a caneta não fique sem tinta. 

Quando tudo isto terminar, vou descansar, tal como dizem que Deus fez. E depois, tal como Ele, terei que arranjar uma solução para que o meu "sonho" se concretize.
 
Até qualquer dia, e não te esqueças de escrever.

Se pelo menos me pudesses responder...
Publicado em 10 de Junho de 2013

sábado, 25 de junho de 2005

Porque ninguém me compreende?

Deparei-me com um dilema quando comecei a pensar sobre que início dar a este artigo. Optei, enfim, por começar com uma explicação: Não se preocupem, este não é mais um daqueles gritos lamechas que tantas vezes já ouviram, e que provavelmente estão fartos de ouvir.

Eu não falo para ninguém. Quem é ninguém, além daquele único bravo que o Rei deixa entrar no seu palácio?

Eu, assim como todos, quando me exprimo, tento atingir alguém. Nada mais me faz sentir uma profunda sensação de maravilha do que fazer com que esse "infeliz" me ouça, e saber que ele me compreendeu.

Estamos sempre sujeitos à crítica, e sabe-se lá ao que mais. Mas isso sempre é melhor do que nos depararmos com um rosto impávido de completa pasmaceira. Como se tivéssemos acabado de citar um versículo da Bíblia em aramaico.

De qualquer forma, a minha maneira de viver, ou de aguentar esta coisa que alguém chama de vida, faz com que me depare com situações destas todos os dias. Às vezes porque falei baixo demais. Outras por usar estrangeirismos, ou até mesmo por falar outra língua que não a nativa da pessoa a quem me dirijo. E isso simplesmente irrita-me!

Eu não quero ter que repetir o que digo. Eu não quero ter que explicar o que digo. Quero que percebam bem isto. Não me interpretem mal e, por favor, não façam falsas suposições, pois isso só me faz ter que explicar!

E agora sim, talvez tenha acabado de tornar este artigo num texto lamechas. Porque raios não são capazes de me deixar em paz, se não são capazes de me responder da maneira que eu espero, ou de uma maneira melhor? Se o assunto não vos interessa digam-me para parar. O simples acto de abrir a minha boca já é desesperadamente desgastante e insuportável – isto está a ir de mal a pior.

Eu sinto-me farto, completamente farto, destas situações. Odeio tanto isto, como odeio quando tenho que rastejar nos sonhos. Quando, por alguma razão, as minhas pernas não funcionam e fica tudo em slow motion, excepto aquele ser cujo único motivo de viver é saborear a minha derrota – graças a Deus que estou a aprender a fazer o Kame-ah-me. Obrigado Son Goku!

Nas várias tentativas de expressar a minha inadequabilidade, já me chamei de fénix que não renasce das cinzas. Já liderei uma revolução de coelhos amarelos, e já voei para longe nas azas de uma pomba azul.

Mas de que serve tudo isto? Porque continuo a atirar-me do precipício vezes sem conta, deixando-a ali a chorar? Porque tenho que ser eu a empurrar-me a mim próprio? Que desejo mórbido é este de a matar?

Acabei de fugir 180 graus à esquerda do assunto inicial. Sim, porque a esquerda é que é o bom caminho.

Sinceramente, não percebo porque acabo sempre por me queixar. Nem porque acabo por escrever textos lamechas que, quantas mais vezes os leio, mais me envergonha tê-los aqui publicados.

Na verdade, não estou mesmo para aí virado. Muitas cartas foram escritas. Muitas letras também. Pedindo salvação, muitos rezaram. Ninguém lhes respondeu.

Às vezes só peço para deixar de perder. Já lá vão os tempos em que uma Rainha e uma Torre bateram aquele grande exemplo. Para mais nada, isto serve.

Porque ninguém me compreende? Pois ninguém é eu. Eu sou eu e, para me compreenderem, talvez tenha que dar de caras com aquela sombra enublada. Talvez me compreendam quando vir essa luz ao fundo do túnel. Túnel que nunca verei, pois sou mais um tipo de pontes.

Aquilo que eu sei, sei-o eu. Aquilo que eu sou, sou eu. Eu sou eu, são capazes de compreender? Não? Nem com um texto destes me fiz parecer claro?

Eu não tenho clareza. Eu não me quero explicar. Não há ninguém que seja eu, e só por isso ninguém me compreenderá. Compreendem?
 

Publicado em 6 de Junho de 2013

sexta-feira, 13 de maio de 2005

Um caminho, uma direcção

Lá vou eu. Continuo a percorrer esta longa estrada de sentido único. Onde me perco enquanto procuro, no extenso horizonte, algo que me dê boleia para fora daqui. Continuo em sentido contrário. Volto para trás. Levo com o vento frio que me derruba, subitamente, sem forças, sigo em frente, nesta estrada sem curvas, sem cruzamentos, sem nada. 

Um vazio de nada. Um vazio alcatroado. Cada vez mais quente apesar do fraco sol invernal, continua a encandecer e a queimar os meus pés que pouco mais conseguem andar.

Fui assombrado por pequenas miragens, semelhantes a pequenos cruzamentos, que em pouco mais do que nada se tornaram. Enquanto caminho, nada aprendo. Ignoro os avisos, os sinais, os semáforos. Nem um comboio desenfreado pára para eu embarcar. Nenhum avião aterra sequer nesta terra. Nem uma gota de água, no entanto, continuo vivo.

No entanto, continuo vivo. Afogo-me dentro do meu lago, procuro a velha caverna de ar mórbido, mas até ele já se dissipou. Debaixo de água, num deserto, a aguentar um inverno tenebroso no topo de uma montanha. Por todos esses lados essa estrada passa, nem por um jardim, nem por uma praia, nem por uma cidade, vila, ou por um mero casebre. Nem sinal de vivalma. Nem sinal de qualquer coisa. Um limbo extenso, sem fim, sem destino, sem propósito.

Uma luz verde acende-se. Vejo-a piscar em lugares demasiado distantes para poder alcançar. Viagem demasiado longa para poder sobreviver. Viagem demasiado necessária, demasiado desesperada, demasiado... Mas preciso continuar. O dia vai chegar. 

Por três abismos passados, por muitos mares navegados, esta estrada atravesso, enquanto de mim (ainda) não me despeço.
 

Publicado em 29 de Maio de 2013

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2005

End of the World

Muitas vezes descrito como a grande cascata. O fim do Mundo era o local onde, em tempos idos, as embarcações iam para se naufragar quando chegavam a um dos cantos do planisfério que era a Terra. 

Mas agora a Terra é redonda, como uma bola ou uma laranja, e o fim do Mundo já não é encarado como a recta final numa etapa da Volta ao Alentejo, mas sim como o dia em que esta amora azul explodirá, ou, simplesmente, decidirá acabar com uma praga que a atormenta. Praga essa que se autodenomina de Homo Sapiens Sapiens (que raio de sábio, não acham?!). 

O Armageddon (não, não me estou a referir ao filme com o Ben Affleck e com aquela outra actriz que também aparece no Senhor dos Anéis) um dia irá chegar. Seja por causa de um asteróide ou de um cometa de gigantes proporções, um global killer, como diziam no filme Impacto Profundo. Ou até mesmo por um acto deste "sábio" que, sem nada saber, dirá um dia "ups" e acabaremos todos nas cinzas. 

Esta introdução pouco ou nada terá a ver com aquilo que me fez escrever este artigo. Enquanto olhava para outros blogues – particularmente para o blogue de uma lésbica que me cativou com um dos seus artigos – lembrei-me de um sonho. Muito estúpido, tal como muitos outros que já tive, mas não tão pouco marcante como aqueles sonhos românticos (não, nada dessas cosias que pensam) que davam para vender a Hollywood, e que esta rapidamente os estragaria... 

Neste sonho eu deparo-me com o fim do mundo, e, no momento final, onde não há mais esperança por onde nos agarrarmos, agarrei-me à minha família em frente da televisão. Enquanto fechava os olhos à espera do "BOOM", nada se ouviu, apenas vi um grande clarão. Saí de seguida à rua e vi uns objectos muito estranhos no céu nocturno. 

Volto para casa e vejo na TV dizerem que a Terra tinha ficado em pedaços mas que estranhamente os pedaços continuavam a sustentar vida. Este sonho ficou, a sua estranheza também, talvez eu quisesse dizer a mim próprio que sempre haverá esperança, ou que sempre existirá uma continuação. Mas não o sei, e também não sei porque estou a escrever isto, nem porque o vou publicar, mas já está, e, como costumo dizer, é isso!

Publicado em 22 de Maio de 2013

terça-feira, 25 de janeiro de 2005

Peace


Procuro pela minha paz numa luta intensa. Onde a vitória de algumas batalhas não serve para iluminar uma simples vela perdida num deserto de mágoas. 

Há um ano atrás, enquanto ouvia o relato de um jogo de futebol entre o Vitória de Guimarães e o SL Benfica, presenciei, tal como muitos milhares de portugueses, o apagar de uma dessas velas. Miklos Féher (Miki) chegou ao fim da sua guerra que triunfalmente venceu enquanto concretizava o seu sonho. Sonho esse que desejou e onde nele pereceu.

Pergunto-me se para encontrar esta paz também terei que perecer no campo de batalha, enquanto olho em minha volta e sorrio com o meu último e derradeiro triunfo. A resposta a esta pergunta algum dia irei saber, mas, por enquanto, ela manter-se-á no ar. 

Aquele 25 de Janeiro de 2004 fez-me despertar para a procura do propósito de aqui estarmos. Porquê tudo isto se, de um momento para o outro, a nossa luz se pode apagar sem que possamos fazer alguma coisa para o impedir? 

A verdade é que nada podemos fazer. Apenas sabemos que algum propósito temos que ter. Por mais insignificante que ele seja. Mesmo que a longo prazo notemos que não o é, nem nunca o foi. 

Temos que continuar a viver e, nesse mar de vida, temos que viver o sonho e navegar nele. Se naufragarmos, que seja pelo menos a bordo do sonho que comandou a nossa vida. 

Publicado em 21 de Maio de 2013

segunda-feira, 10 de janeiro de 2005

O Gato que vive debaixo de minha casa

Mais um dia sufocante passou. Daqueles em que respirar é mais que o simples acto de relaxamento do diafragma. Daqueles em que me sinto como se estivesse a afogar num oceano profundo e distante em que por mais que tente nadar para tentar encontrar a superfície apenas vejo escuridão. Escuridão e aquele terrível sentimento de não poder fazer nada. Sentimento de apenas ter como solução deixar a morte me absorver.

Nesse dia, como todos os outros dias sufocantes, que, com raras excepções (sublinhava raras se não achasse que estragava a estética deste artigo e também por não o saber fazer), se equivalem a todos os dias desta leda e isolada substância que na realidade é reconhecida como "eu". 

Nesse dia, ia eu a caminho de uma rocha alaranjada onde um pouco de ar lá soprava, embora envenenado, quando me deparo com uma porta estreita e inexplorada, que, apesar de tudo, sempre soube da sua existência, mas preferia ignorá-la. Enquanto andava na sua direcção decidi deixar o ar envenenado esperar apesar de ser a minha única hipótese de viver e fui até à entrada dessa porta. 

Nela, encontrava-se um gato preto e branco com olhos reluzentes e esverdeados que me olhava com receio. Receio daquele que nada lhe podia ou iria fazer. Receio daquele que apenas quer respirar, pois viver com 5 minutos diários de ar envenenado não é vida. O seu medo passou por mim, como passou a borboleta que vi na minha última visita à superfície, mas tal como a sua beleza, ficou também o receio deste pobre coitado que apenas usa o buraco debaixo da minha casa como refugiu das águas sufocantes. 

Sinto-me como ele, mas, ao contrário dele, não desistirei da minha tentativa de rumar à superfície, até que o ar envenenado me mate...

Publicado em 20 de Maio de 2013