terça-feira, 17 de setembro de 2013

Eurotrip: Prólogo

“Não o consigo acompanhar. Não com este ritmo”. O cansaço apoderava-se de mim. As minhas energias escoavam pela sola das sapatilhas. Cada passo que emergia sob o suave piso laranja deste circuito de manutenção, sentia-o como um martírio contínuo, sem fim à vista. Pura estamina e força de vontade. Nada mais me fazia seguir em frente. A mente ignorava a dor que assolava o meu corpo. Apenas assim, podia continuar a correr. 

O Luís já ia lá à frente. “Já falta pouco”, pensava. Faltava pouco mas não o podia acompanhar. Baixei o meu ritmo. Perdido num limbo entre o Luís e o Paulo, os dois em extremos opostos de velocidade. Tinha que encontrar o meu passo. Não podia parar. Não podia pensar. Tinha que descansar em corrida.

Este era um Verão atípico. Frio. Céu mais vezes cinzento, que azul. Todas as semanas, mais do que uma vez, Eu, o Luís e o Paulo, encontramo-nos para correr ao final da tarde. À mesma hora, no pequeno jardim da Rotunda do Carregal. É aí que iniciamos o nosso percurso.

Construído na última década, a Avenida da Régua tem agora um circuito de manutenção. Dois caminhos alaranjados, próprios para correr, caminhar, ou passear de bicicleta. A principal artéria que liga Ovar à Praia do Furadouro, ganhou assim uma nova vida. Todos os dias, faça chuva, ou faça sol. No frio do Inverno, ou no calor do Verão. Todos os dias, várias pessoas juntam-se neste percurso para praticar exercício. Seja ele solitário, ou entre amigos. Esta é uma nova tradição vareira. O culto de uma vida saudável, numa terra regada por espaços verdes, pelo mar, e pela paisagem natural da Ria de Aveiro.

O nosso ritual é cumprido de forma quase ortodoxa. Do Carregal até aos Bombeiros, dos Bombeiros até ao Carregal. Sempre a correr. Alongamentos no jardim e uma caminhada até ao Furadouro. Finalizada com o já habitual momento de contemplação do pôr-do-sol, em um dos esporões que povoam a paisagem. Deixo a minha mente apagar-se perante a imensidão do oceano. Descanso, e encontro alguma paz.

Mas esse momento ainda estava longe. O Luís já ia lá à frente. Não o podia alcançar. Ainda tinha mais um quilómetro por percorrer. Decidi abrandar ainda mais e aguardar pelo Paulo. Sem parar. Não podia parar. Não tardou até que ele me alcançasse. Visivelmente cansado, sempre me questionei porque ele teimava em levar o telemóvel consigo. Embora a música seja boa para manter a cabeça ocupada, o peso extra não o ajudava.

Adoptei o seu ritmo mais calmo, e continuei. As minhas forças começaram a recuperar aos poucos. A dor que sentia começava a esvanecer. Quando finalmente chegámos ao Carregal, não queria parar. Chamei pelo Luís, que já descansava, no jardim, para continuar connosco. Ele disse que seguia a pé, mais tarde. O Paulo concordou, e continuámos a correr em direcção à Praia.

Como se tivesse rejuvenescido, sentia que era capaz de ultrapassar os meus anteriores limites. “Era desta que ia conseguir fazer seis quilómetros seguidos sempre a correr”. Este pensamento motivou-me. O cansaço continuava ali, mas algo mais estava a puxar-me em frente. Já não estava em esforço. Ia conseguir. Perdidas em alguma reserva desconhecida, consegui recuperar as energias necessárias para ultrapassar esta barreira. Era livre. Naquele momento, eu iria voar.

Quando estávamos a pouco mais de 500 metros do fim, o ritmo do Paulo já não era suficiente para mim. Acelerei. Corri. Mais rápido do que antes. Mais rápido do que alguma vez tinha conseguido. O Paulo seguia-me, não muito atrás.

Continuei até às Varinas na entrada do Furadouro. Saltei para dentro da Rotunda, e como o Rocky, ergui os meus braços para o céu. O Paulo chegou pouco depois. Já pelo caminho festejávamos este feito, que à partida, nenhum de nós acreditava ser possível de alcançar.

Aguardámos pelo Luís que ainda tardou um pouco a chegar. Não me lembro de alguma vez me sentir tão feliz por algo que, para muitos, não passava de um feito banal. 

Reunimo-nos os três no esporão. Ainda faltava algum tempo para o anoitecer. O Luís foi o primeiro a falar.

“Uns amigos estão a pensar organizar uma viagem de carro pela Europa. Vocês alinham?”

“Uma roadtrip europeia?”, perguntou o Paulo.

A ideia parecia-me cara, mas uma voz adormecida nos confins da minha mente, gritava pelas palavras de um escritor que, ainda, não conhecia. “O importante é partir, não é chegar”.

“O importante é partir”, disse para mim próprio.

Passado algum tempo, regressámos ao meu carro. Pelo caminho partilhávamos ideias. Raramente interessantes, projectos, e histórias com pouco, ou nenhum sentido.

O Paulo foi o primeiro a sair, ou não vivesse ele bem próximo do centro da cidade. Típica cidade do litoral português, o centro de Ovar é uma praça simples em calçada de granito, com a Câmara Municipal, alguns serviços e restaurantes, e uma Igreja de Santo António que, numa freguesia cujo Patrono é São Cristóvão, santo protector dos viajantes, acaba por deixar algum mistério na sua origem. 

E em viagem seguimos, de regresso a casa.  Breves quilómetros atrás do volante, por ruas já muito familiares. Demasiado familiares. Era hora de partir. “Em qualquer viagem, o importante é partir.”

“Luís, podes contar comigo. Já era tempo de fazermos uma Eurotrip!”

domingo, 8 de março de 2009

Carnaval Sénior: A festa na “flor da idade”

A festa na "flor da idade", Foto: Adriano Cerqueira
O Espaço Tenda encheu-se de tons floridos para acolher os idosos participantes em mais uma edição do Carnaval Sénior.

A festa deste ano teve como tema a Primavera e os Jardins Floridos, com os convidados a vestirem-se a preceito. Cada associação representada no Carnaval Sénior trazia o seu próprio traje, de mantos azuis cobertos com flores, aos típicos dominós multicoloridos da Santa Casa da Misericórdia de Ovar, de simples fatos de jardineiro, a um bando de “capuchinhos vermelhos” prontos para “encantar” o baile com a sua folia.

A banda em palco tocava clássicos da música portuguesa e brasileira, de forma a aliciar os convidados a bailarem ao som dos ritmos tipicamente carnavalescos. O incentivo ao convívio e à festa foram a principal iniciativa da tarde dedicada àqueles que já viveram mais carnavais que qualquer um de nós. Entre o público encontrava-se José Américo, presidente da Fundação do Carnaval. O folião destaca a importância da acção social desta iniciativa: “O que nós proporcionamos são duas horas de um convívio que acontece uma vez por ano e em que as pessoas aparecem mascaradas. Eu penso que o Carnaval não é só os espectáculos, os concertos, o ritmo frenético e o consumo… Não. Também tem esta parte pedagógica de acção social que eu quero que a fundação tenha sempre”, afirma.

Para Márcia Sousa, assistente social do Centro Social Cortegacense este evento é “uma forma dos idosos se envolverem em iniciativas, ao mesmo tempo podem desenvolver capacidades e competências, nomeadamente na construção e no desenvolvimento das vestes”. “Penso que isto é positivo para os idosos e para todos os profissionais dos centros aqui participantes”, diz.

Já Cláudia Reis, Directora Técnica da Santa Casa da Misericórdia de Ovar salienta que “é sempre muito bom para os idosos pois eles gostam muito de sair e de conviver, e principalmente pelo facto de se encontrarem com outros idosos de outras instituições, o que é agradável”. “Os idosos gostam muito do carnaval e gostam muito de viver o carnaval”, confessa.

Que o diga a Dona Maria Albertina da Santa Casa da Misericórdia de Ovar. Para a foliona o carnaval sénior “é uma coisa extraordinária, de um valor extraordinário.” “Admiro muito por ter estas pessoas convidadas tão bem dispostas e tão alegres”, acrescenta. Já a Sra. Adelaide Faria confessa que “era para não vir, mas resolvi vir, já no ano passado cá vim e gostei imenso”. A Dona Fernanda, do Centro Social Cortegacense afirmou ainda ter gostado “muito da festa, é bonito para passarmos aqui um bom bocado”.

O sucesso da iniciativa faz José Américo olhar com bons olhos para a continuidade do Carnaval Sénior. “Esta é uma festa que logo após a primeira realização chegámos à conclusão que valia a pena. Se já conseguimos conciliar dignidade, com diversão, divertimento e convívio, temos a fórmula correcta de dizer: Vamos continuar!”, confessa.

“Esta iniciativa, semelhante à das crianças, é um grande símbolo do carnaval, se calhar mais importante no seu significado que os verdadeiros corsos”, salienta o Presidente da Fundação.

A festa teve ainda como convidados especiais el-Rey Artur Almeida e a Rainha Dona Augusta, a Divertida. Os dois membros da monarquia vareira de 2009 passearam-se por entre o público e juntaram-se à festa, animando a tarde destes veteranos foliões.

Manuel Oliveira, Presidente da Câmara Municipal, também não deixou de marcar presença, subindo ao palco perto do fim das festividades “O Carnaval não tem idade, o carnaval é de todos nós, é uma festa da alegria” foi a mensagem principal do discurso do Presidente. Manuel Oliveira teve ainda tempo para falar do seu encontro com a Rainha: “No tempo da Monarquia era habitual os súbditos beijarem a mão à Rainha, mas hoje ela disse-me isto: "Quem lhes beijou a mão fui eu." E disse-me porquê. Porque pessoas que tanto trabalharam e que tanto têm dado de si, merecem que lhes prestemos homenagem”.

Este ano o Carnaval Sénior contou com a participação das seguintes instituições: Centro Comunitário de Esmoriz; Centro de Assistência Social de Esmoriz; Centro Social Cortegacense; Centro Social de Paramos; Centro Social e Paroquial da Arrifana; Centro Social de S. Félix da Marinha; Centro Social de S. Pedro de Maceda; Grupo de Acção Social de S. Vicente de Pereira; Lar Santa Maria de Válega; Santa Casa da Misericórdia de Arouca; Santa Casa da Misericórdia de Castelo de Paiva; Santa Casa da Misericórdia de Espinho, e a Santa Casa da Misericórdia de Ovar.

Foi com um ambiente de alegria e divertimento, numa tenda enfeitada com balões coloridos e figuras carnavalescas alusivas à primavera, que terminou mais uma edição do Carnaval Sénior.


Notícia publicada no Jornal Praça Pública
Publicado em 10 de Setembro de 2013

Fotogaleria: Festa dos Idosos dá cor ao Carnaval Vareiro


Publicado em 10 de Setembro de 2013

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Alexandre Rosas: “A fome que tenho, às vezes até exagerada, é sem dúvida de uma dedicação total ao Carnaval”

Cartaz Carnaval de Ovar 2009, por Alexandre Rosas
Cinco vezes vencedor do concurso do cartaz de Carnaval de Ovar, Alexandre Rosas confessa ao Praça Pública os segredos por detrás deste sucesso. Como pano de fundo a oficina onde são criados os cartazes do vencedor da Vitamina da Alegria de 2009, o designer mostrou ser um verdadeiro aficionado do Carnaval Vareiro.

A primeira vez [que venci a competição do Cartaz de Carnaval] vale um mundo! Pode-se dizer que era um sonho de criança.

Praça Pública: Foi o vencedor do concurso do cartaz de Carnaval deste ano. O que o inspirou na criação do cartaz?

Alexandre Rosas: É complicado falar em Carnaval. É sempre um palhaço ou uma ilustração, e este ano tentei pensar em alguma coisa que de facto mostre o nosso carnaval. Este ano optei pela noite mágica, um evento que a fundação do Carnaval está a apostar bastante e portanto foi por aí que comecei o meu trabalho. A noite mágica significa exactamente aquilo que eu tento transmitir no cartaz. A diversidade das pessoas e dos vestimentos, desde o mais elaborado ao mais prático. Da pessoa que faz a sua máscara e que se fantasia de um animal ao outro tão simples que pega numa ligadura e num bocado de tintura e vai como se fosse um ferido. Todas as personagens que eu represento são uma tentativa de mostrar às pessoas o que se faz nos bastidores e que é a já famosa, noite mágica.

PP: Como é vencer cinco vezes este concurso?

AR: [Risos] A primeira vez vale um mundo! Pode-se dizer que era um sonho de criança. Sempre admirei estas artes e sempre apreciei quem as faz, e os cartazes em particular, seja de carnaval, seja doutro evento qualquer. Inicialmente era um sonho que tinha de miúdo e neste momento vencer cinco vezes já não me diz nada. Diz-me apenas que tenho evoluído em termos profissionais. Tento ser o mais original possível de forma a dignificar o Carnaval de Ovar, e a transmitir a melhor mensagem e da melhor forma. Claro que há o prémio e isso também conta, mas mesmo que não houvesse concorria na mesma, com a mesma atitude e com a mesma forma de trabalho. Fico sempre satisfeito se me for dada esta responsabilidade de divulgar o Carnaval de Ovar.

PP: Qual é a reacção que as pessoas costumam ter aos seus cartazes?

AR: Este ano, felizmente, tem sido bastante boa. Foi um dos melhores trabalhos que fiz, ou, pelo menos, que mais tempo dediquei. Foi dos cartazes que mais elaborei e que mais trabalho me deu. Há sempre a crítica, e se ela for positiva é sempre bem vinda e é com isso que eu tenho aprendido. Nestes tais cinco anos em que tenho ganho os cartazes tem havido uma evolução, em parte, graças à crítica que fazem. Depois há a crítica destrutiva de quem, enfim, por algum motivo não gosta. Nunca dei grande importância a isso apenas foquei aquelas que são as críticas mais importantes, que são construtivas, e aprendi com isso. Já dos amigos mais próximos, há sempre a satisfação por verem o meu trabalho ganhador, com o 1.º prémio. Dos colegas de trabalho há um cumprimento, há um reconhecimento, enfim, é sempre bom. É uma sensação boa saber que o trabalho é apreciado.

Sou uma das pessoas que vive o Carnaval e que defende a tradição e todas as marcas do Carnaval de Ovar.

PP: Como define o seu estilo em termos de design e dos cartazes que faz?

AR: O meu estilo... [risos] É um pouco inato. Eu faço um pouco de tudo, adapto-me bem ao tipo de trabalho e ao género de trabalho que tenho de fazer. Sem dúvida nenhuma este trabalho que apresentei este ano é a minha imagem, é a minha expressão. Talvez me defina através dos bonecos, com a expressão, com o exagero. Principalmente a expressão, o movimento. O que tento fazer é de facto não só um cartaz que não passe de um cartaz, mas um que seja algo que amigos e que os tais críticos já consigam dizer que reconhecem ser o meu trabalho. Cor, animação, alegria, esse tal movimento que simboliza o meu trabalho puro. Aquilo que eu realmente gosto de fazer, aquilo que eu realmente acho que tenho mais vocação é para este género de ilustração, como a que apresentei este ano.

PP: Acha que os seus cartazes reflectem, de certa forma, a História do Carnaval de Ovar?

AR: Eu pessoalmente penso que sim. E esta acaba por pegar em termos que são sem dúvida os termos principais do Carnaval de Ovar. Devo falar no cartaz do ano passado, embora por poucos entendido, infelizmente, porque de certo modo não o associaram à imagem tão antiga do Carnaval que é o dominó. Eu apresento a noite mágica este ano, apresentei o Rei há 2 anos, nos outros anos houve anos em que apresentei cartazes mais virados para a música, mas de uma forma geral tento ir aos temas que definem o Carnaval. Sou uma das pessoas que vive o Carnaval e que defende a tradição e todas as marcas do Carnaval de Ovar. Se recuarmos há uns anos atrás, vemos os cartazes de artistas como o José Penicheiro, que faziam ilustração, e notamos que são poucos os que se vêem com imagem. É claro que os tempos evoluíram, as técnicas e os desenhos também, e portanto acho que de facto os meus cartazes focam um pouco do que é a História do Carnaval.

PP: Que futuro podemos esperar dos cartazes do Alexandre Rosas?

AR: O meu futuro só Deus sabe. Mas em termos profissionais, continuo a lutar para alcançar os meus objectivos pessoais que são muito simples: ter trabalho e dedicar-me àquilo que gosto. Em relação aos cartazes é um pouco difícil, por que se eu hoje faço uma ilustração, amanhã estou virado para outra coisa qualquer e apresento uma coisa diferente. Podem sempre ter cor e alegria, que eu acho que é a base do Carnaval. É difícil dizer o que vem por aí. é um pouco como a música, como a moda. Julgo que vou tentar, ano após ano, ser inovador e tentar trazer coisas novas.

PP: De certa forma está a tornar-se numa figura do Carnaval de Ovar, que aspectos acha que deve melhorar e que aspectos acha que já estão estabelecidos?

AR: Não sou propriamente uma figura do Carnaval de Ovar, sou alguém que trabalha muito no Carnaval de Ovar. Não só na participação do cartaz, este ano também participei no concurso do dominó. Participo no carnaval activamente como grupo, como elemento da própria fundação no Concelho Consultivo e portanto sou uma pessoa que dedica muito do seu tempo ao Carnaval. Gosto das tradições de Ovar, nomeadamente do Carnaval. O futuro do Carnaval penso que está um pouco difícil por questões financeiras. Há mais exigência, há mais qualidade, as pessoas já não abdicam disso mesmo. Há outro tipo de eventos que nos rodeiam, desde Estarreja a St.ª Maria da Feira, que já têm um grau de qualidade muito grande e portanto nós não podemos deixar esse comboio. Na nossa arte, não digo isto por ser de Ovar, mas por aquilo que tenho visto, temos artistas fantásticos que fazem coisas extraordinárias, e que muitas das vezes não são apreciados. Acho que deviam valorizar isso mesmo no sentido de tentar que com menos dinheiro, mas com outros meios, conseguir-se um futuro risonho para o Carnaval de Ovar. Como elemento do carnaval sei das dificuldades que temos para poder trabalhar, que cada vez são mais. Há falta de dinheiro e dificuldades das instalações. Com a Aldeia do Carnaval existe a possibilidade de darmos um passo significativo em termos de qualidade, nomeadamente nos carros alegóricos. As pessoas de Ovar devem fazer do Carnaval a festa da cidade.

PP: Para terminar, já referiu de certas formas a sua maneira pessoal de viver o Carnaval. Mas, mais pormenorizadamente, como vive o Carnaval de Ovar?

AR:
[Risos] Eu vivo-o até à exaustão com exageros em algumas partes. Abdico de muita coisa como a família, a esposa, a mãe, o sobrinho e amigos que não os meus amigos de carnaval, como eu lhes costumo chamar. Abdico de muitas horas de sono e passo muitas horas a pensar naquilo que existe para fazer, com o objectivo de representar o Carnaval da melhor forma possível. O final do Carnaval é dos momentos mais tristes. São dois meses em que estamos todos os dias juntos, um grupo de pessoas, e onde se criam laços que depois parece que desatam, que acabam. As pessoas seguem as suas vidas como faziam antes do Carnaval e, infelizmente, esses tempos passam e volta tudo ao normal. Mas a fome que tenho, às vezes até exagerada, é sem dúvida de uma dedicação total ao Carnaval.

Entrevista para o Jornal Praça Pública e para a PraçaTV
Publicado em 2 de Setembro de 2013

Rei Artur abre o coração aos seus súbditos

Rei e Rainha do Carnaval, Foto: Adriano Cerqueira
Artur Almeida, também conhecido por Artur Loureiro, é este ano o folião com a responsabilidade de carregar a coroa da maior festa da cidade de Ovar. Entre um café digno de “corte” e os demais compromissos “reais” el-Rey Artur Loureiro cedeu algum tempo ao Praça Pública para comentar o actual momento do Carnaval de Ovar.

“Nunca pensei, mas já estou ligado ao Carnaval desde os anos 30. Saía todas as noites a partir praticamente do Natal. Chegamos a sair uma vez no dia 27 de Dezembro, do ano anterior ao ano do Carnaval. Eu sou um rapaz novo e sinto-me em forma para o Carnaval, gosto de conviver, gosto do meu reinado e de ser folião”, confessa Artur Almeida.

Sobre a recente coroação, el-Rey apenas afirma que “talvez este convite devesse ter sido feito mais cedo”. Artur Almeida promete viver o seu reinado com “boa disposição, optimismo” e “dar o possível e o impossível, com orgulho daquilo que os meus súbditos fizerem, desde que não faltem aos compromissos e que cumpram as regras do reinado.”

Não só de memórias de bons tempos passados entre camaradas recorda Artur Loureiro, os tempos do antigo regime, impunham algumas restrições ao Carnaval, que nem sempre eram cumpridas por este folião.

“Antes do 25 de Abril não se podia passar pela praça. Fazíamos as nossas noitadas, saiamos depois do Natal e não saiamos junto à Praça. Íamos ao café, pela rua do Carvalho, só depois da ponte do rio Cáster é que começávamos a desfilar e a fazer barulho, vestidos de lençóis brancos, a fazer de bruxas. Só a partir daí é que a Arruela e a Estação, faziam essas noitadas todas pelo grupo dos Campos, porque não era permitido andarmos de noite pela rua a fazer barulho”, relembra.

Os velhos tempos obrigavam os festivaleiros a fazer os seus próprios fatos, dando asas à originalidade com o pouco material que tinham disponível. “O Carnaval de hoje em dia é mais sofisticado, há mais possibilidades de o fazer, com materiais muito mais fáceis de arranjar. Antigamente nós fazíamos com aquilo que tínhamos à nossa frente. Fazíamos as indumentarias, mas quando chovia, o papel diluía. Isto antes do Carnaval organizado, fazíamos os fatos em noites em que o Carnaval era no Cineteatro, na sociedade mercantil, na estação, nos bares do Salvador, e mais tarde no café Progresso. Lembro-me de ir com os meus pais ao Mercantil quando era pequeno”, recorda Artur Almeida.

O actual coroado do grande corso vareiro, viveu os tempos do velho Carnaval sujo, muito à semelhança da tradicional “Tomatina”de Buñol, em Espanha. “O Carnaval sujo teve uma data, teve uma época, hoje em dia já não pode ser assim. O Carnaval é mais comercializado e é para fazer publicidade. Já não se pode brincar ao Carnaval. Acabou o jardim em frente ao chafariz Neptuno, onde na terça-feira de carnaval, depois das seis da tarde, quem estivesse a assistir, assistia, com as consequências que isso representava e quem não queria não se metia”. El-Rey diz ainda ter-se “perdido a tradição”. “Hoje o Carnaval envolve muito dinheiro. Antigamente era mais fácil, digamos assim. Hoje tem que ser assistido, e quem quiser ver tem que se sujeitar a pagar”, critica.

Anunciada a construção da Aldeia do Carnaval, Artur Almeida vê com bons olhos a evolução do Carnaval de Ovar, sugerindo ainda uma menor preocupação com o consumo de álcool, pelo menos dentro das “muralhas” vareiras. “O Carnaval de Ovar vai evoluir e tem que ter um caminho longo para fazer uma representação do concelho. Representando cada freguesia com o género carnavalesco. Era engraçado que todas as freguesias participassem, o que iria aumentar o espírito do carnaval de Ovar.”

“Relativamente à questão da aldeia do carnaval, já devia ter sido feita há muito tempo. Antigamente, há noite saíamos a todos os grupos e visitávamos. Não havia a questão do transporte, andávamos de sede em sede sem sermos assediados. Hoje é difícil fazer-se isso. Quem anda no Carnaval a beber água? Ninguém! Vinho tinto e do bom, como dizia, as carnes só se conservam em vinho e não em água! Por conseguinte, nós somos perseguidos pela polícia. Por que é que somos perseguidos dentro de Ovar, quando temos aqui uma festa vareira? Para mim, a própria Comissão do Carnaval devia interferir no assunto para chegar a um consenso com a polícia cá dentro. Facilitar o consumo de álcool, não em excesso mas dentro dos limites mínimos ou máximos”, confessa.

Para finalizar a análise de sua majestade à grande festa que é o Carnaval vareiro, el-Rey Artur Almeida deixa a seguinte mensagem a todos os seus fieis súbditos: “Que todos gozem o Carnaval com muito boa disposição, façam uma excepção à juventude que se predisponha à boa disposição, e que viva o Carnaval à sua maneira e à vontade”.

Notícia publicada no Jornal Praça Pública
Publicado em 5 de Setembro de 2013

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Clube de Cientistas de Palmo e Meio, um cantinho da ciência

Sala de Experiências, Foto: Adriano Cerqueira
Situado no início da Avenida do Furadouro, o clube dos cientistas de palmo e meio destaca-se como uma iniciativa inovadora na promoção da ciência em crianças do pré-escolar.

Após atravessar o portão e o pátio pintado com mensagens de preservação do ambiente, o visitante depara-se com uma casa dedicada à ciência. Logo à entrada encontra-se o laboratório, uma cozinha remodelada onde se desenvolvem projectos, desde jogos de prismas aquáticos a uma pequena fábrica de velas e pavios. Ao fundo do corredor entra-se na “Sala do Avô Carlos” – dedicada a Carlos Andrade, principal responsável pelas experiências científicas – onde estão expostas várias apresentações, incluindo aquelas que foram exibidas na FIL. Desde o Quadro de Galton (quadro de distribuição estatística) aos tubos sonoros, passando por vários jogos de pêndulos, equilíbrio, som, e até mesmo pequenos motores eléctricos rudimentares, são várias as experiências que ajudam a incutir conceitos básicos da física, química, e da ciência em geral nos mais novos.

Helena Medeiros, coordenadora pedagógica do CPS, explica que “quando pensámos em fazer um projecto ligado à ciência foi por acharmos importante que a escola, e a começar logo pelo pré-escolar, trabalhe nessa área”.

“Trabalhamos os conceitos mais normais do pré-escolar, que são o pintar, o rasgar, o contacto das coisas, mas pode-se ir ainda mais além, porque é desde pequenino que nós começamos a criar o gosto da criança pela descoberta e o porquê das coisas serem como são”, explica.

O Centro de Promoção Social do Furadouro procura motivar crianças de várias idades a participarem na descoberta da ciência. Para Elisabete Laranjeira, educadora de crianças de dois anos, “o objectivo de fazermos o projecto da ciência não é que eles adquiram os conceitos científicos de física, de química, das várias ciências, é simplesmente que desperte a curiosidade e que no fundo desmistifique o “bichinho” das ciências, e no fundo despertá-las para esta área, para o prazer da descoberta e de experimentarem”.

Já Andreia Pereira, educadora de crianças dos três aos cinco anos, afirma que “eles apesar da idade que têm são pequenas esponjas que absorvem tudo, então é o ideal para conseguirmos introduzir conceitos tão vastos como a ciência e noções matemáticas”. “Esta é a altura certa, como são pequeninos conseguimos “modelá-los” e desmontar aqueles “bichos de sete cabeças” que são os conceitos matemáticos e a ciência”, salienta a educadora.

Flávia Oliveira, também ela educadora, conta a história da formação do projecto: “Foi um objectivo de 3 anos e com o passar de cada ano os objectivos iam aumentando e os passos iam sendo maiores, o que foi muito bom, quer para nós como profissionais, quer para as crianças”. A educadora confessa ter achado “a ideia aliciante”. “Não sabia até que ponto eles iam aderir e se iam mesmo levar o objectivo até ao fim, porque nunca tínhamos trabalhado as ciências no pré-escolar”, afirma.

“O objectivo é incentivar, no fundo, à descoberta da ciência, não é propriamente dizer os termos técnicos, isso é complicado para crianças desta idade, mas é deixar o “bichinho” lá dentro, para eles mais tarde alargarem os horizontes”.

Flávia Oliveira revela que “eles deliram com as experiências, claro que não sabem os termos técnicos, mas já têm noção de como funcionam cada uma dessas experiências, de uma forma muito mais senso comum, mas o objectivo é esse, é eles serem cientistas de palmo e meio”.

Mas o espaço não é só dedicado a experiências científicas. O andar de cima é dedicado a salas de exposições abertas à comunidade. Neste momento o visitante pode encontrar uma exibição de bonecos de barro, cedidos por um colaborador, com a temática das profissões e uma sala dedicada a trabalhos de jogos matemáticos construídos pelos pais das crianças. Helena Medeiros destaca o papel dos pais e afirma que “em todos os projectos a família é sempre uma peça fundamental, nós não sabemos trabalhar sem ter a família ao nosso lado”. “Como é hábito nos nossos projectos, nós lançamos tudo aos pais e apareceu aqui um avô que quando viu o plano de actividades disse: “Mas o que é que eu posso contribuir aqui?” E eu respondi: “Ó Sr. Carlos pode contribuir em tudo.” “Ele começou a dar forma à nossa ideia, nós dissemos que não tínhamos dinheiro, por isso teriam que ser coisas muito simples, mas como ele é uma pessoa dinâmica e criativa, foi buscar ferros de passar, resistências de carros velhos, etc., e começou a dar forma à nossa ideia”, conta a coordenadora.

Segundo Helena Medeiros o futuro do clube passa por disponibilizar as salas de trabalho às crianças, motivando visitas e sessões de trabalho diárias. A promoção do espaço de exibições aberto à comunidade também é outro dos objectivos em curso.

A coordenadora revela ainda planos para “levar o nosso clube a faculdades, como Bragança e Leiria, e ao Hospital Pediátrico de Coimbra.” “Não só pensamos em deixar ali aquele espaço mas também em pô-lo para fora daquelas portas”, admite Helena Medeiros.

Já Carlos Andrade, confesso “entusiasta” do projecto, salienta a necessidade de arranjar alguém para manter o clube aberto diariamente, o que possibilitaria a visita de qualquer pessoa interessada nos projectos desenvolvidos com a ajuda das “cientistas de palmo e meio” do Centro de Promoção Social do Furadouro.

Reportagem para o Jornal Praça Pública
Publicado em 28 de Agosto de 2013

quarta-feira, 25 de julho de 2007

25 de Julho

 
Hoje celebra-se o dia que deu nome ao blogue 25 de Julho. Feliz dia de São Cristóvão e do Município de Ovar.

domingo, 13 de maio de 2007

Sonho perto de se realizar

Ovarense conquista lugar na Final

Imagem DR
A Ovarense Aerosoles conquistou a presença na final dos play-offs da Liga UZO após derrotar o Lusitânia no quinto e derradeiro jogo. Após ter alcançado uma importante vitória nos Açores, a equipa de Ovar trouxe para casa a decisão da eliminatória. Com duas vitórias para cada lado, quem vencesse este jogo tinha acesso directo à final para defrontar o F.C. Porto.

O Lusitânia ainda acalentou as esperanças dos adeptos após uma vitória importante, embora escassa, por 87 - 82 igualando a eliminatória e forçando as duas formações a disputar o quinto e derradeiro jogo. A partida decisiva estava destinada a realizar-se no Pavilhão Raimundo Rodrigues em Ovar, a velhinha "caixa de fósforos" que em breve deixará de assistir aos jogos da equipa profissional de Basquetebol.

A natureza do jogo podia fazer crer que este fosse um jogo muito intenso e bem disputado, contudo a Ovarense rapidamente provou o seu favoritismo, e com o apoio da torcida vareira alcançou uma vitória expressiva por 92 - 55 que a coloca na final.

A final será disputada à melhor de 7, estando o possível sétimo encontro agendado para o dia 26 de Maio. Esta última partida será disputada em Ovar devido à equipa local se ter qualificado em primeiro lugar na fase regular.

Publicado em 15 de Agosto de 2013

sexta-feira, 4 de maio de 2007

À Porta da Final

A Caminho do Bicampeonato

Foto DR
A Ovarense Aerosoles está a disputar as meias-finais dos play-offs da Liga de Basquetebol com o Lusitânia. A equipa vareira chega ao terceiro jogo com a eliminatória empatada. Após uma derrota surpreendente no primeiro jogo, a Ovarense derrotou por expressivos 87 – 58 o Lusitânia no segundo jogo disputado no Pavilhão Raimundo Rodrigues, conhecido entre os sócios e aficionados por “caixinha de fósforos”.

A equipa de Ovar vê-se obrigada a vencer pelo menos um dos jogos nos Açores para poder manter a esperança de chegar à final e revalidar o seu título de campeão. Na época passada, a Ovarense derrotou o Ginásio da Figueira na final dos play-offs, este ano a tarefa é teoricamente mais complicada mas a equipa pode contar com o apoio dos adeptos e da direcção. 

Augusto Arala Chaves, presidente da AD Ovarense, declara ter “toda a esperança de passar à final.” Em relação ao adversário, afirma respeitá-lo devido a se tratar de “uma excelente equipa, bem orientada.” Arala Chaves ainda acrescenta que “a Ovarense é superior” e está confiante que esta “irá passar a eliminatória.”

"Tenho toda a esperança de passar à final."

Augusto Arala Chaves

Questionado sobre as possibilidades da formação de Ovar levantar o troféu da Liga UZO, Arala Chaves deixa claro ter “esperança em que a Ovarense consiga, pela primeira vez no seu historial, ganhar o campeonato em dois anos consecutivos.”

Os próximos encontros dos play-offs serão realizados nos dias 3 e 5 de Maio, no Pavilhão Municipal de Angra do Heroísmo. Arala Chaves deixou um voto de confiança referindo que “salvo qualquer contrariedade não previsível, a Ovarense vai provar nos Açores o seu favoritismo.”

Nova casa fora de jogo

Foto DR
Inaugurado no passado dia 22 de Abril, o novo Pavilhão João Gonçalves não será utilizado pela Ovarense Aerosoles nas eliminatórias respectivas aos play-offs da Liga UZO desta época. O novo recinto desportivo deve apenas começar a ser usado na próxima época.

Arala Chaves, em declarações ao Jornal de Ovar, espera que este novo pavilhão traga um novo ciclo de vida “repleto de vitórias.” Contudo a “caixinha de fósforos” manter-se-á em funcionamento, cabendo a esta a realização dos treinos e dos jogos das camadas jovens.

Publicado em 12 de Agosto de 2013