quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Decisões

“Todos os dias somos confrontados com pequenas decisões, momentos que definem a direcção do nosso caminho.” Um telefonema, uma breve conversa e quatro anos volvidos, hoje é um dia diferente.

Os primeiros raios de sol abrem caminho pelas persianas, envolvendo o meu quarto aos poucos numa suava carícia de calor matinal. Acordo pouco antes da hora que programei no despertador. Enquanto aguardo que este desperte mergulho na fantasia de um dia diferente. Um dia como hoje.

A mesma hora, a mesma música. “Talvez esteja na hora de mudar a estação de rádio, já há uns tempos que não consigo apanhar o ‘Café da Manhã’”, penso. O mesmo banho, as mesmas roupas, o mesmo pequeno-almoço. As rotinas dão-me conforto, são seguras e estáveis. Aconteça o que acontecer posso sempre contar com elas.

Pego no meu telemóvel, nada de novo. Questiono-me se devia continuar a adiar a compra de um novo, ter a caixa de mensagens sempre cheia já começa a irritar. Saio de casa. A mesma porta, as mesmas chaves, o mesmo carro. Talvez não o mesmo, a cor é diferente. Mantém ainda o tom original, um verde-água sinónimo da sua experiência, marcado pelos longos quilómetros de estrada já percorridos. Hoje tem ainda mais alguns para fazer.

É bom estar de regresso a casa. Após estes últimos anos em constante viagem é bom ter um lugar para guardar as malas, dormir numa cama já bem familiar e fazer-me à estrada sem precisar de um mapa.

A viagem, essa, indispensável desde o meu regresso, é já ela mais um mero percurso rotineiro que, não fosse pela imprevisibilidade do trânsito, faria de olhos fechados.

Chego a Arouca pouco antes das nove e meia. Cidade diferente. Entro no café do costume onde a vejo a tomar o pequeno-almoço. Um croissant e uma meia de leite, também ela criatura de rotinas. “Se apenas esse leite fosse de soja podias ser perfeita”, digo-lhe com um sorriso. Ela limita-se a olhar-me de relance fingindo ignorar-me. Sento-me ao seu lado a aguardar a sua reacção. “De todos os cafés em todo o Mundo, tinhas que entrar no meu”, acaba por dizer. Beijamo-nos. Um beijo, também ele rotina, não fosse pela constante novidade de emoções que este momento desperta. Cada vez, único.

O seu nome é Sofia. Conheci-a há anos. Partilhávamos o mesmo sonho. Tomámos a mesma decisão, mas em cidades diferentes. Eu no Porto, ela em Lisboa. Lugar-comum nestas histórias. Nada de novo. Há dois anos, o destino, ou talvez uma mera coincidência entre duas pessoas que escolheram o mesmo ano para fazer Erasmus, ditou que nos encontrássemos em Madrid.

Conhecemo-nos quando já nos tínhamos esquecido um do outro. Conhecemo-nos no momento certo. “Assim estava escrito”, disse-lhe pouco após o nosso primeiro beijo. Ela sorriu. O mesmo sorriso.

“Vamos chegar atrasados”, disse. “Deixa-os esperar, a maioria deles prefere continuar na camioneta a dormir em vez de nos ouvir”, respondi. Ela concordou. Com alguma relutância deixámos aquele lugar.

Cabia a nós fazer a visita guiada ao Museu de Arouca. Uma breve lufada de ar fresco nos exaustivos dias de trabalho de campo. O grupo de hoje era uma turma de uma escola básica da região. A maioria das crianças distrai-se com facilidade e acaba por prestar pouca atenção às nossas apresentações. Acabamos por passar metade do tempo a avisar para não tocarem nas exibições. A minha única esperança é que, entre as poucas dezenas de alunos, haja pelo menos um interessado, sem medo de nos pôr à prova.

A turma de hoje parecia mais calma que as anteriores. Como era habitual gastámos algum tempo a explicar a origem das pedras parideiras e a mostrar-lhes alguns dos exemplares que pareciam maravilhar por breves instantes as suas jovens mentes. Enquanto ela os levava para a sala com os fósseis de trilobites, fui preparar o anfiteatro para a projecção de um pequeno documentário sobre os nossos estudos de campo.

Um rapaz franzino seguiu-me para colocar algumas questões. Já tinha reparado nele, era o que parecia mais atento do grupo. Perguntou-me sobre o que fazia, sobre o meu curso, também ele queria seguir as minhas pisadas. Sugeri alguns sites onde ele se podia informar e, antes de o levar para junto do resto da turma, disse: “Se o teu sonho for algo que te traga verdadeira felicidade, não desistas antes de o concretizares.”

Ao aperceber-me do forte impacto que teria na vida daquele rapaz, deixei-me envolver por um agradável sentimento de realização. São simples momentos como este que mudam o tom de qualquer dia.

Durante o filme, sentei-me ao lado da Sofia no fundo da sala. Contei-lhe a conversa que tive com aquele rapaz enquanto recordávamos alguns dos momentos passados durante as filmagens. “Não és um pouco novo para ser o mentor de alguém?” perguntou. “Talvez. Duvido que aquele rapaz se lembre de mim ou daquilo que lhe disse, mas quem sabe, talvez um dia ele nos venha a citar na sua tese de doutoramento.”

“A mim talvez, já tu, é outra história”, respondeu fixando o olhar na tela de projecção enquanto esboçava um expressivo gesto de contentamento. Fingi ignorá-la e imitei o seu recém-descoberto interesse pelo vídeo. Estava na parte em que explicava o processo da separação do fóssil da placa de xisto. Lembro-me bem daquela tarde. Cansados e cheios de pó após um longo dia de trabalho, acabámos por dar um mergulho numa das várias cataratas da Serra da Freita. Uma tarde diferente.

Passava pouco do meio-dia quando nos despedimos da turma. Almoçámos no centro, um pequeno restaurante com esplanada perto do convento. “Temos que aproveitar estes últimos dias de calor”, foi a desculpa que ela usou para me convencer a almoçar ali. Talvez um dia tenha que aprender a dizer não, mas hoje não é esse dia.

A mesma comida, o mesmo atendimento. “Estou a pensar levar umas fatias de pão-de-ló”, disse. “Prefiro o de Ovar”, respondeu. Diferente lugar, mas algumas coisas não mudam.

Chegámos ao centro museológico do Geoparque de Arouca pouco antes das duas da tarde. O resto da equipa já estava à nossa espera. A Sofia é do sul de Aveiro, desde pequena que teve uma forte paixão pela paleontologia. Terminada a licenciatura na Universidade de Lisboa, iniciou agora o doutoramento em parceria com a universidade de Madrid onde nos conhecemos. O estudo dela foca os vestígios paleozóicos do centro de Portugal.

É curioso como, embora tivéssemos passado grande parte das nossas vidas próximos um do outro, foi necessário ir para outro país de forma a, por fim, nos encontrarmos.

Passei as últimas semanas a ajudá-la com os trabalhos de campo. Já nos verões anteriores fizemos o mesmo em preparação das nossas teses. Daqui a um mês irei para a Lourinhã juntar-me ao Octávio Mateus e a mais um grupo de jovens investigadores. Também fui aceite no mesmo programa doutoral que ela, mas decidi seguir uma linha diferente de estudo. Durante os próximos meses irei assistir à recolha dos fósseis de uma nova espécie de saurópode similar ao Lourinhasaurus. Ela acabará por se juntar a mim, mas não podemos escapar a algumas semanas de separação. Dias como este são, assim, muito importantes.

Separámo-nos do resto do grupo em busca de novas áreas ainda por explorar. Recolhemos algumas amostras promissoras e preparávamo-nos já para regressar quando sugeri que fizéssemos uma pausa. Preparei um pequeno piquenique com alguns dos seus doces preferidos. Aguardámos durante horas, que na verdade não passaram de meros minutos, a fitar as belas paisagens da serra. Uma ligeira brisa acariciava o seu rosto. Com a sua face encostada sobre o meu peito, sentia as fortes batidas do meu coração, sinónimo de uma ligação mais profunda do que alguma vez podia ter imaginado.

Por um instante era como se o próprio tempo tivesse cedido à nossa vontade. O resto do mundo parecia não mais importar enquanto nos perdíamos um no outro.

Não tardou a regressarmos à realidade daquele dia. Regressámos para junto do grupo e continuámos o nosso trabalho. Ao fim do dia jantámos todos juntos novamente no centro da cidade. O mesmo jantar, pessoas diferentes.

Levei-a até casa. Pelo caminho mergulhámos num profundo oceano de milhares de conversas, todas elas a esconder simples palavras que ambos reconhecíamos no olhar um do outro. Ao despedir-me dela, fiquei para trás a observá-la enquanto se dirigia para a sua porta. Ela olhou para trás e sorriu. Senti uma forte necessidade de lhe dizer o que sentia, mas mesmo que as palavras ficassem por ser ditas, ela era capaz de as ler naquele simples gesto. Assim como eu as li no seu último relance antes de entrar.

Não era uma despedida. Amanhã voltaria a vê-la. Amanhã.

Regressei a casa. A mesma estrada, o mesmo carro, a mesma rotina. Deitei-me. A mesma noite, a mesma cama, um dia diferente, um pensamento diferente. Deixei-me adormecer, envolto na felicidade daquele dia, foi para ela o meu último pensamento. Mal podia esperar para acordar, para a ver, para voltar àquele lugar. Mal podia esperar para ver este sonho concretizado. Mal podia esperar.

O mesmo eu, um dia diferente, um mundo diferente, uma escolha diferente.

São simples os momentos que nos definem. Podem surgir por entre as linhas de um bom livro, na equação dos acordes de uma boa música, ou nas palavras de uma pessoa querida. Para mim foi um telefonema, dois minutos de conversa e um comum formulário.

Hoje, não é um dia diferente.

Publicado em 30 de Setembro de 2014

sábado, 22 de julho de 2006

Screaming into the Dark

Quantos dias teriam passado? Que luz era aquela que lhe encadeava os olhos? Alguém podia saber, mas ele já não tomava conta dos dias, nem tão pouco se importava com o que se passava à sua volta, mesmo que esta luz lhe doe-se como se as suas Íris estivessem a arder.

Hoje não seria um dia diferente, apenas mais um dia daqueles que vieram a seguir ao impensável. Mas ontem houve algo diferente, um simples telefonema, que não fosse pela persistência da chamada, nunca teria sido atendido. A voz do outro lado apanhou a sua atenção. Seria mais um palhaço a tentar enchê-lo de propaganda enganosa? 

Desta vez não. A voz era familiar, alguém do passado, alguém que tinha boas notícias, coisa rara por estas bandas. Apesar do cepticismo ele concordou em encontrar-se com a voz. Mal se apercebeu de que a luz era a de mais uma amanhã, a manhã do dia seguinte, do dia que tinha algo para fazer. Despertou, e preparou-se para ir ao seu encontro.

Ainda era de manhã quando se encontraram. Já tinha passado alguns anos desde a última vez que se viram, mas qualquer sentimentalismo, ou saudade, eram coisas que não podiam ser associadas a este momento. A voz pertencia ao seu filho.

“Vem. Descobri uma maneira de a salvar.”

“Foi para isso que me chamaste? Não tenho tempo para parvoíces.”

Virou as costas para se afastar, mas parou quando sentiu o seu braço a ser agarrado, puxando-o para trás.

“Se fossem parvoíces não te teria chamado!”

Ele viu nos seus olhos que ele dizia a verdade. 

Entraram ambos num armazém, ao fundo estava uma estrutura metalizada oval, com uma cadeira no centro, como uma espécie de cápsula.

“Entra lá dentro”, disse o seu filho.

“O que vai acontecer?”

“Consegui fazê-lo, posso levar-te ao momento antes...”

“‘Tás à espera que acredite que aquilo é capaz de contrariar as leis do tempo e do próprio destino?!”

“Do destino, só cabe a ti descobri-lo, mas do tempo sim. Agora, entras lá dentro ou vais continuar a desperdiçar o resto da tua vida?”

“Hmm... Sempre foste muito teimoso...”

Ele entrou na estranha cápsula, apesar de continuar céptico, uma pequena onda de esperança começava a formar-se dentro dele. Depois do seu filho accionar o mecanismo inicial, e de lhe explicar o que tinha de fazer, a cápsula fechou-se e ele adormeceu.

Alguém sabe o que é perder um verdadeiro amor? Talvez ninguém, mas ele sabia-o. Tudo aconteceu há uns meses atrás. Ou já seriam anos? Pouco importa, a data precisa perdeu-se nos fios do tempo. Numa fresca noite primaveril, passeavam pela floresta, nada havia a temer. Já o tinham feito muitas vezes, mas algo estava diferente, ele não se sentia ele, todo o seu poder tinha desaparecido. Sentia-se normal, mas estando ela ali, não havia tempo para pensar nisso. 

Aquela noite foi mesmo muito diferente. Da escuridão surgiram algumas sombras que sem aviso ou qualquer tipo de motivo decidiram atacar. Eles fugiram até onde puderam, mas as sombras encurralaram-nos. Ele tentou lutar, mas eram meras sombras, e ele sentia-se muito enfraquecido como nunca antes se tinha sentido. 

Três foram as flechas que trespassaram o peito da sua companheira, que ali jazia apenas com forças para um último olhar. Com isto o seu poder retornou, mil vezes aumentado pela raiva, e pela dor. Com facilidade derrotou as sombras, mas porque é que o seu poder se tinha dissipado? Porque tinha ela de morrer? Chegou o dia de obter a resposta a estas perguntas.

A cápsula finalmente chegou ao seu destino. Despertou, quando ela se abriu. Olhou para as horas, já faltava pouco tempo, tinha que se despachar. Estava na mesma floresta, exactamente como se lembrava. Decidiu antecipar-se e procurou o local onde eles tinham sido encurralados. Lá, esperou que eles chegassem. Um movimento chamou a sua atenção, pouco tempo depois. Lá estavam eles, e lá estavam as sombras. 

Concentrando todo o seu poder dirigiu um jacto de energia destruindo todas as sombras. Mas as flechas já tinham sido lançadas. Só havia uma coisa a fazer. O último sacrifício por quem ele amava. Colocou-se a si próprio em frente delas e assim foi ele atingido em vez dela. Logo ali desapareceu. O universo inteiro rodou na outra direcção. O destino e a vida de ambos voltou ao normal, como se o encontro das sombras nunca tivesse acontecido.

O sacrifício de alguém que morreu naquele dia, culminou na sua verdadeira morte. Era o que tinha a fazer. Ele podia já não existir, mas o seu outro Eu, que não passa dele mesmo, esse nunca terá que passar por aquilo. 

O seu filho talvez soubesse que era assim que as coisas se viriam a desenrolar, mas nem ele próprio guardou memórias do herói que o seu pai nunca foi. Esta amostra de verdadeiro amor ficou perdida no tempo. Esquecida para sempre, mas eternamente viva nas vidas que foram salvas naquele dia, e nos destinos que se alteraram.

Publicado em 13 de Agosto de 2013

sexta-feira, 20 de janeiro de 2006

Sonhos de Sofá

Foto DR
“Aconselho-te a apressares-te. Esta velocidade pode ser imprópria para cardíacos.” Ariel, não, não era este o seu nome, mas bem que podia ser. A tal senhora de branco ascendia no céu até pairar em pleno ar. Que movimento indescritível, e cheio de tão tremenda beleza. Beleza essa coberta por uma sombra.

Ele estava lá em baixo, controlava-a contra a sua vontade. Ela aponta a sua flecha para os inocentes. Eles nada lhe fizeram, nem a ela, nem a ele. Mas é a ele que Ariel obedece. "Tem que ser agora", diz-lhe sem mexer os lábios.

Ela está relutante, incapaz. Porque tem ela de dar tal destino aos inocentes? Porque deve tamanha pureza e serenidade, ser sujeita a esta opressão? A tamanha demanda pelo inaceitável? Pelo perverso?

Ariel, identifica o seu alvo e puxa a flecha para trás. "Isso. É agora!", grita ele. Sim, é agora, ela sabe que não é capaz. Não disto. Mas existe algo que ela ainda pode fazer: Pôr um fim à sua opressão.

Ela direcciona a sua mira para o coração daquele ser perverso. Com alvo no centro da sua perversidade, a traição abate-se sobre os céus, e a seta trespassa-o. Ariel nem pestaneja, há mais vidas a salvar.

O Eu que, de tantas adversidades, e problemas impossíveis, vê-se mais uma vez numa situação de perigo irrealista e surreal. "Porque raio estas coisas só acontecem a mim?! Que sonho tive eu tão desastroso que acabou com o universo de outrem?".

A caminho do calor reconfortante daquela que um dia o salvou de si mesmo, a sua bicicleta pára. Também os grandes heróis são amigos do ambiente. À sua frente, algo que desde criança ele aprendeu a familiarizar e a conhecer melhor que ninguém.

Este não tem quaisquer exageros cinematográficos. Doze metros da cabeça à ponta da cauda. Dentes e mais dentes. Braços curtinhos com apenas dois dedos, mas de cor negra. Muito negra.

O T-Rex olhava-o. Nada havia a fazer. Não era capaz de pedalar mais depressa. Este seria o fim. Não existiam realidades generosas, ou salvamentos de última hora. Não desta vez. Desta vez, era o fim.

Mas Ariel não podia deixar que assim fosse. Afinal tudo isto era obra do seu mestre que agora jaz morto numa poça da sua própria malvadez. Do céu deixa cair o salvador. Não aquele que se esperava, mas outro da mesma espécie. Mais pequeno, decerto. As apostas não estão do seu lado.

A clareza do bem é translúcida na sua pele, e na sua leve penugem branca. O T-Rex maior recupera os sentidos. Atordoado após testemunhar um da sua espécie a cair dos céus. Ignorando Ariel, e o nosso herói, ele olha nos olhos do recém-chegado.

Antes de fugir desenfreadamente estrada fora. Este Eu seria capaz de jurar que o tinha visto a sorrir.

A luta começou. Ariel é incapaz de a ver. O seu tempo não pode ser preenchido por estas coisas mundanas. Ela cometeu o único acto imperdoável, mesmo que apenas o bem possa surgir da sua traição.

Terá agora que responder perante um poder maior. Um poder que transcende qualquer um, até inclusive, os poderes do Eu que morreu em seu desespero.

A luta interminável entre dois membros de uma espécie extinta continua a ser disputada por baixo do olhar de Ariel. Ao nosso Eu apenas resta o reconforto de algo a que pode chamar de casa.

Este é o seu mundo. Este é o seu dom. Esta é a sua maldição.

Publicado em 23 de Julho de 2013

sábado, 8 de outubro de 2005

Have a nice Journey

Era de manhã. Tinha acordado há pouco. Era um dia diferente, algo não soava como devia, o sol não brilhava como devia, algo estava para acontecer. 

Mesmo assim, segui com a rotina normal, e preparei-me para sair. Ao início da tarde dirigi-me à estação para ir viajar, alguém esperava por mim, algures a norte. A viagem é uma sombra na minha memória que se esvanece cada vez mais rápido. Mas, por mais ténue que seja, nunca esquecerei o momento em que a carruagem parou, e abri a porta para desembarcar. 

Lá estava quem me esperava. Quem eu queria. Quem precisava de mim. Quem eu não podia viver sem. Nada o podia prever. Talvez apenas aquelas sensações estranhas que tive ao acordar. Sempre vi a manhã como algo místico, algo que nos tenta abrir os olhos, mas mantive os meus fechados, e agora era tarde demais.

O edifício atrás dela tinha explodido, sobrevivi apenas com alguns arranhões, mas ela não. Esta vida podia ter sido salva. Esta vida não se limitaria a agradecer, mas para meu azar, a minha falta de compreensão, fez com que tudo isto acontecesse. Não a consegui salvar. Só quis morrer ali, enquanto sentia a sua vida a esvanecer-se nos meus braços. 

Nunca me perdoei. Nem a mim, nem ao mundo. Talvez fosse isso que despoletou os eventos do dia seguinte. Dia esse, que não foi mais nada do que o dia anterior.

Acordei exaltado, o telemóvel estava a tocar. Atendi-o como se estivesse a atender um auscultador de um telefone de rua que tinha sido cortado. Era ela, ela estava viva. 

Teria sido tudo um sonho? Já tive sonhos vívidos antes, mas nunca tão reais. Não, a razão dizia-me que não passava de um sonho, mas a verdade é que os meus instintos gritavam. Eu tinha recebido uma segunda chance, e não a podia desperdiçar. 

Cancelei o nosso encontro, pedi para adiá-lo para outra altura. Nessa noite, falámos sobre o quão horrível teria sido se eu o não tivesse cancelado. A estação onde nos devíamos ter encontrado horas antes, tinha explodido. O primeiro verdadeiro sinal de terrorismo neste país. 

Talvez agora, depois disto tudo, tenha mudado de ideias, mas se pudesse voltar atrás, faria tudo de novo. Afinal, com segundas hipóteses, ou sem elas, não podemos mudar o passado. Algo terá que o viver.

Umas semanas depois, recebi um telefonema, uma voz tremendamente familiar estava do outro lado da linha. Ele disse-me algo que parecia completamente irreal, mas, depois dos eventos passados, torna-se complicado distinguir o real do irreal. 

Concordei em encontrar-me com ele. O local era muito estranho, vindo directo de um filme de acção de Hollywood. Era suposto estar no terraço do prédio mais alto do centro da cidade, pelas dez da noite. 

Tentei contactá-la para que alguém soubesse onde, e com quem, eu estaria na eventualidade de algo me acontecer. Mas não consegui. Hesitei muito, mas lá ganhei coragem para ir ao encontro do destino.

Era noite, a Lua brilhava, mas as nuvens começavam a tapá-la. Ia começar a chover muito em breve. Apenas queria que aquilo acabasse depressa, e iria acabar.

Uma sombra surgiu por detrás da antena, aliás, não era uma, mas sim duas. Uma delas era estranhamente familiar, a outra era mais do que isso. Era ela. Estava presa e assustada, um estranho apontava-lhe uma arma. Fiquei paralisado. Consegui salvá-la apenas para a ver morrer nas mãos de um palhaço qualquer com sede de vingança?

Vingança? Porquê vingança? Que fiz eu de mal? A figura é-me familiar, mas de certeza que o que quer que seja que eu lhe tenha feito, nada justificaria esta atitude.

“Estou a ver que não te atrasaste. Impressionante, tendo em conta quem és”, disse a estranha figura que apontava a arma.

“Essa voz... Não, não pode ser...”

“Sim, diz olá a ti próprio.”

Isto era a gota de água. Eu? Porque raio queria eu matar aquela que dava o único significado à minha vida? E como estou eu ali?

“Não podes ser Eu! Quem és? Deixa-a em paz, ela não tem nada a ver com isto!”

“Ah, mas aí é que te enganas. Ela tem tudo a ver com isto. Lembras-te de um "sonho" que tiveste há algum tempo? Com explosões e comboios?”

“Sim, mas isso foi só uma premonição.”

“Não! Isso foi a minha vida. Eu fui o teu presente criado para que tu não sofresses. Não achas isso um pouco injusto? Venho aqui repor a justiça.”

“Que estás a dizer? Eu não tenho culpa do que te aconteceu, nem ela tem! Acredita, eu sei como te sentes, e se te dizes ser eu então serias incapaz de magoar aquela que amas.”

“Que estão para aí a falar? Deixa-me ir”, gritou ela em desespero.

“Ouviste-a? Deixa-a ir! Se queres vingança, vinga-te em mim.”

“Infelizmente, não é assim tão simples. Se te matar, eu também morro. Só vivo porque tu vives, e tu só vives porque eu vivo.”

“Então, se eu me atirar deste prédio abaixo, tu não vais ficar lá muito bem. Mesmo que eu sobreviva, vais ser um vegetal. Mas o mais provável é que morras comigo, certo?”

“Não serias capaz. Pensas que não te conheço? És um cobarde.”

“Tens assim tanta certeza disso? Então porque tremes?”

“Não, não faças isso! Se tu não vives sem mim, como pensas que eu viverei?”, disse ela, quando ele se dirigiu para o parapeito daquele terraço. 

“Vais ter que sobreviver. A culpa é toda minha, apenas não te esqueças do quanto eu te amo...”

“Não...”, a palavra saiu como um suspiro. Um último segredo entre os dois. Uma última tentativa desesperada de mudar o curso daquilo que era agora inevitável.

“Que estás a fazer? Pára!”, gritou a figura sombria.

E assim, saltei. Só me lembro de sentir a liberdade que é poder voar. Aqueles foram os últimos momentos da minha vida. Agora que a minha memória, que a minha essência, se desvanece, e que a minha alma começa a subir, apenas fico grato por ter sido amado, e por ter salvo aquela que verdadeiramente me amou. 

Sinto também pena pelo meu outro eu. Aquele que nunca chegou a ter estes últimos dias com ela. Nem tão pouco, o reconforto de saber que, algures, ela continua a viver a sua vida. Guardando para si, um lugar especial no seu coração, onde ele, tal como eu, seremos para sempre relembrados. 

Esta é a minha história. Despeço-me, uma última vez, sabendo que levo comigo a história de um verdadeiro amor.


Publicado em 30 de Junho de 2013

quarta-feira, 5 de outubro de 2005

O Mundo não era Suficiente

Tudo começou numa era não muito longínqua, numa terra perto daqui. O Mundo aproximava-se do seu fim, e o nosso herói viaja na última estrada que alguém alguma vez percorrerá. Com ele viaja um homem e uma rapariga. A rapariga não o sabia, mas era ela quem preenchia o coração dele, e quem tornava este fim mais suportável, ou, pelo menos, assim pensava ele.

O passado das personagens nenhuma importância tem. O que é importante é a viagem, e os eventos que em breve se vão suceder.

Ao longo do caminho, o silêncio é perpétuo. O rádio apenas grita estática, e não há grandes motivos de conversa. Ao aproximar-se o anoitecer, eles decidem parar um pouco, aparentemente sem qualquer motivo. 

Ele tenta falar com ela, mas os seus olhos afastam-se para aquele lugar distante, onde ele sabe que nunca a irá encontrar. Enquanto ele se vira para voltar para o carro, ouve um pequeno deslizamento seguido de um grito. Corre para ver o que se tinha passado. Ela tinha desaparecido. 

Aproximando-se do lugar onde ela estava, ele vê um pequeno desfiladeiro. Encontra-a agarrada a uns ramos, a lutar pela sua vida. Ele dirige-se ao homem, acudindo por ajuda. Ele abre a mala do carro e tira uma corda. Encontram algo onde a prender, e ele oferece-se para salvar a rapariga.

“Tem calma, eu vou salvar-te” , grita numa voz suave e reconfortante, como a de um verdadeiro herói. Uma voz há muito não ouvida.

Ele consegue apanhá-la mesmo a tempo, salvando-a no último instante em que o ramo cedeu. Ela abraça-o em sinal de gratidão, ambos conseguem subir para a estrada, libertando toda a adrenalina que ainda restava depois deste incidente.

Quando ele repara que ela ia regressar para aquele lugar longínquo, ele agarra-a e olha-a nos olhos.

“Não posso esperar mais...”, diz.

“Não, por favor, não.”

“Eu tenho que to dizer.”

“Não!”

“Eu amo-te!”

“Mas, eu não!”

“Eu sei...”, responde ele.

“Não posso sentir aquilo que não sinto. Obrigada por me dares mais umas horas de vida.”

Com isto, ela afasta-se. Foi aí que o nosso herói se apercebeu – ou que, pelos menos, foi capaz de admitir pela primeira vez – que ele podia salvar-lhe a vida. Podia mesmo salvar o mundo. Mas o seu coração, a ele nunca iria pertencer. 

Viajaram pela noite dentro, até ao fim dos tempos.

Publicado em 27 de Junho de 2013

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2005

End of the World

Muitas vezes descrito como a grande cascata. O fim do Mundo era o local onde, em tempos idos, as embarcações iam para se naufragar quando chegavam a um dos cantos do planisfério que era a Terra. 

Mas agora a Terra é redonda, como uma bola ou uma laranja, e o fim do Mundo já não é encarado como a recta final numa etapa da Volta ao Alentejo, mas sim como o dia em que esta amora azul explodirá, ou, simplesmente, decidirá acabar com uma praga que a atormenta. Praga essa que se autodenomina de Homo Sapiens Sapiens (que raio de sábio, não acham?!). 

O Armageddon (não, não me estou a referir ao filme com o Ben Affleck e com aquela outra actriz que também aparece no Senhor dos Anéis) um dia irá chegar. Seja por causa de um asteróide ou de um cometa de gigantes proporções, um global killer, como diziam no filme Impacto Profundo. Ou até mesmo por um acto deste "sábio" que, sem nada saber, dirá um dia "ups" e acabaremos todos nas cinzas. 

Esta introdução pouco ou nada terá a ver com aquilo que me fez escrever este artigo. Enquanto olhava para outros blogues – particularmente para o blogue de uma lésbica que me cativou com um dos seus artigos – lembrei-me de um sonho. Muito estúpido, tal como muitos outros que já tive, mas não tão pouco marcante como aqueles sonhos românticos (não, nada dessas cosias que pensam) que davam para vender a Hollywood, e que esta rapidamente os estragaria... 

Neste sonho eu deparo-me com o fim do mundo, e, no momento final, onde não há mais esperança por onde nos agarrarmos, agarrei-me à minha família em frente da televisão. Enquanto fechava os olhos à espera do "BOOM", nada se ouviu, apenas vi um grande clarão. Saí de seguida à rua e vi uns objectos muito estranhos no céu nocturno. 

Volto para casa e vejo na TV dizerem que a Terra tinha ficado em pedaços mas que estranhamente os pedaços continuavam a sustentar vida. Este sonho ficou, a sua estranheza também, talvez eu quisesse dizer a mim próprio que sempre haverá esperança, ou que sempre existirá uma continuação. Mas não o sei, e também não sei porque estou a escrever isto, nem porque o vou publicar, mas já está, e, como costumo dizer, é isso!

Publicado em 22 de Maio de 2013