segunda-feira, 13 de maio de 2013

O Regresso

Foi em finais de 2004 que comecei a dar os primeiros passos no universo da blogosfera. Blue Dove. Assim se chamava o meu primeiro blogue. Alocado na velha plataforma de blogues do Sapo, Blue Dove foi até ao início de 2006 o espaço predilecto para partilhar os meus pensamentos, as minhas histórias, as minhas ideias, a minha arte, mas, acima de tudo, a minha voz.

No dia 17 de Janeiro de 2006 decidi dar um novo rumo à minha aventura como blogger e criei o meu blogue actual, o No Sense of Reason. Deixei o Sapo para trás e juntei-me à comunidade do Blogspot. Embora o No Sense seja o único blogue que actualizo com alguma regularidade, ao longo dos anos fui criando novas plataformas por necessidade de me dedicar a temas e linguagens mais específicos.

Janeiro de 2007 viu nascer o Story Writer, um blogue que durante alguns anos mantive secreto. Dedicado apenas à divulgação dos meus contos originais e de capítulos de histórias maiores, Story Writer era o espaço onde eu acumulava e arquivava todos os contos que escrevi e que publiquei na blogosfera desde os inícios do Blue Dove. Eventualmente comecei a produzir conteúdos únicos para este blogue, contudo o meu perpétuo writer’s block impediu-me de o manter actualizado de forma regular. 

Nesse mesmo ano, em Julho, criei a Antologia do Eu, um blogue que tinha como único objectivo divulgar a minha escrita lírica. Tal como o Story Writer, este blogue também continha poemas que já tinham sido publicados noutros blogues e alguns inéditos que eu mantinha guardados nas minhas gavetas. Antologia do Eu tem a particularidade de a maioria dos seus poemas não terem título, sendo numerados consoante a data de publicação em numeração romana. 

Dois mil e sete foi mesmo um ano rico para a expansão da minha blogosfera pessoal. Por motivos académicos criei um blogue com o nome 25 de Julho. Alusão ao feriado e dia da cidade da minha terra natal, Ovar. Criado em Março desse ano, ao longo dos anos usei-o como uma espécie de portfólio onde divulgava alguns trabalhos académicos. Posteriormente transformei-o num blogue noticioso dedicado ao arquivo das notícias e reportagens que escrevi para o jornal Praça Pública. 

Foi preciso esperar até 2009 para que a minha blogosfera ganhasse uma nova face e um novo membro. Em Janeiro de 2009, em comemoração do terceiro aniversário do No Sense of Reason remodelei o seu design, actualizei o template e redistribui as ordens de publicação da minha blogosfera pessoal. Também por motivos académicos criei o Mercúrio do Porto, blogue que mantenho ainda hoje para divulgar notícias que escrevi nas entidades onde trabalhei, assim como alguns projectos que desenvolvi ao longo do meu Mestrado. 

Vi-me assim com cinco blogues por entre as mãos e sem tempo para dedicar a todos eles. Acabei por privilegiar o No Sense of Reason em detrimento dos restantes. Volta e meia actualizo o Mercúrio do Porto, ainda hoje mantendo-se como um blogue de apoio ao meu portfólio. Já os restantes dependem muito da minha inspiração e desbloqueamento criativo. 

Para meu desgosto, descobri há alguns meses que o meu velhinho Blue Dove foi deitado abaixo pela Sapo sem qualquer aviso prévio. Embora já não o actualizasse há oito anos, agradava-me saber que ele continuava ali como registo dos meus primeiros devaneios na arte da escrita e do pensamento criativo. Volta e meia encontrava-me a ler um ou outro dos meus velhos artigos. Emocionava-me com as recordações que eles traziam e usava algumas das suas frases como inspiração para os meus projectos futuros.

Vê-lo ficar offline após tanto tempo foi um duro golpe que me fez perder toda e qualquer confiança na Sapo. Senti um profundo vazio como se parte de mim tivesse sido apagada para todo o sempre. Felizmente mantive um arquivo digital de todos os artigos que publiquei naquele blogue. 

Há já algum tempo que tenho vindo a pensar sobre uma forma de voltar a repor estes meus pedaços de identidade online. Inicialmente ponderei simplesmente publicá-los, um a um, no No Sense. Contudo, isto criaria uma anormalidade de cinquenta e muitas publicações num único mês. Para não falar de uma eventual confusão ideológica entre o actual estilo do No Sense of Reason e a emoção em bruto do Blue Dove. 

Aliado a isto tinha também o problema dos outros blogues que nos últimos anos têm estado relativamente inactivos. Juntando o útil ao agradável, cheguei à conclusão de que a única forma de resolver este problema seria criar uma nova plataforma dedicada ao arquivo do antigo Blue Dove e dos restantes membros da minha blogosfera. 

Sob o domínio A Flock of Blue Doves, nasce assim o novo membro do universo No Sense. De cara lavada, a nova reencarnação do Blue Dove vai inicialmente funcionar como um arquivo. Diariamente de Domingo a Quinta-feira serão publicados os velhos artigos do primeiro Blue Dove. Cada um deles será reeditado com o objectivo de corrigir eventuais erros ortográficos ou de sintaxe, contudo não irei alterar qualquer aspecto do seu conteúdo. 

Terminada a reposição de todos os artigos do Blue Dove serão também publicados e reeditados os arquivos de Story Writer, Antologia do Eu e 25 de Julho. 

Após esta fase o blogue continuará a funcionar no mesmo âmbito que os restantes funcionam. Embora os meus artigos de opinião continuem a ser publicados no No Sense of Reason, assim como as minhas notícias, press releases e textos afins vão continuar a ser publicados no Mercúrio do Porto, todos os meus contos e poemas vão passar a ser divulgados neste blogue. 

Não pretendo com isto pôr a baixo nenhum dos blogues que vão deixar de ser actualizados. O Story Writer, o Antologia do Eu e o 25 de Julho vão permanecer online por tempo indefinido com o objectivo de salvaguardar as datas de publicação do seu conteúdo e também para servirem como memorabilia do meu passado como blogger. 

Os fãs do No Sense of Reason não precisam de se preocupar, esse continuará a ser actualizado com a frequência do costume.

Hoje dou um passo decisivo na restauração da minha memória online. No espírito do velho Blue Dove: Believe in me and I’ll believe in you!

domingo, 15 de janeiro de 2006

VIII

Olha-me nos olhos (título original)

Olha-me nos olhos.
Vê aquilo que te quero dizer.
Não procures nas entrelinhas,
Do que costumo fazer.

Olha-me nos olhos.
Vê aquilo que sinto.
Penetra no meu âmago,
Procura a minha inocência.

Olha-me nos olhos.
Diz-me o que vês.
Não negues aquilo que já sabes,
Di-lo de vez.

Olha-me nos olhos.
Dilacera-os se necessário.
Procura lá dentro,
O teu, e único, presságio.

Olha-me nos olhos.
Já encontraste a resposta.
Agora di-la.
Transforma-a nas tuas palavras.

Elas não magoam,
Quando servem para salvar.
Tu sabes qual a sua verdadeira função,
Agora segue o teu coração.

Olha-me nos olhos,
Diz-mo sem hesitação.

Publicado em 22 de Julho de 2013

Escrever

Ser escritor não é tarefa fácil. A maioria tem a ideia do sujeito preguiçoso que passa o dia de pijama e roupão, e que de vez em quando lá se senta na secretária a digitar algumas frases. Mas a verdade não é bem assim. 

Cada escritor tem o seu momento, aquele em que as musas ou as ninfas lá lhe vêm fazer cócegas e o deixam flutuar até perto de um papel, ou de um teclado, e deitam um feitiço sobre os seus dedos, para que algo se forme, cresça e ganhe vida. Nem sempre por esta ordem. 

Mas esses seres ainda chegam a ser mais preguiçosos que a figura acima descrita. Podem passar anos a beber néctar, e a falar do tempo em elevadores que não saem do rés-do-chão. E enquanto eles lá ficam, o escritor tem que puxar pela sua imaginação, que nem sempre gosta de cooperar. 

Isto é tudo muito bonito, mas ainda não mostrou sinal de ser alguma espécie de trabalho árduo. Não se preocupem meus fieis defensores da classe laboral, os escritores também têm outros empregos. Empregos esses que por vezes ajudam-nos na contínua busca por ideias, se assim não fosse, não passaríamos de pobres coitados. 

Muito para além da parte financeira, é preciso dar tempo para voltar à figura inicial. O que fazer quando passamos o dia de pijama e não nos apetece ir à secretária escrever seja o que for? Bem, aí não há nada a fazer. Mais vale não escrever nada, do que escrever algo de qualidade inferior àquilo que somos capazes de produzir. Nem todos pensam assim, mas também temos de ter em conta os prazos que por vezes somos obrigados a cumprir. 

Mas e se o contrário acontecer? Se tivermos mil e uma ideias para encaixar numa só? Aí chegamos à situação em que me encontro. Sim, mais uma vez vou escrever um artigo completamente egocêntrico, mas se eu não me centro em mim, e nas coisas que me dizem respeito, quem o fará? 

Egocentrismo à parte, tentar escrever um romance é algo muito duro e complexo. É preciso procurar a personagem, ou personagens principais. Ter uma ideia para o seguimento do guião. Encontrar uma história, uma finalidade. E por fim, descobrir o melhor final para dar à história. 

Aqui surge-nos o momento crucial. Alguns peritos gostam de ser minuciosos. De traçar um plano e depois segui-lo. Outros preferem ser espontâneos, embora isso nem sempre resulte. Também depende daquilo que queremos fazer da obra. Seja publicá-la, ou simplesmente ficar com ela para nosso proveito pessoal. Ou até mesmo queimá-la como um desastre, um completo aborto literário que apenas as massas inconscientes seriam capazes de adorar. 

Ah, como elas adorariam. Seguir-te-iam cegamente até aos limites do precipício, pois é isso que elas fazem. Mas se tu não o farias, de nada vale que outros o façam. Mais um ponto em que só, a meu ver, os justos concordam. 

Voltando a centrar-me em mim próprio, o meu problema neste momento são as mil e uma ideias que voam pela minha cabeça. Será que devo pôr Raptors? Porque é que ao atirar-se da janela ele vai parar a um navio de luxo? A terra não tem 4600 M.a.? Quem é que ele é afinal? Porque tenho tantos problemas com o nome? É só um nome, nem parece que tanta gente me conhece. Isto são apenas exemplos de questões que apenas responderei: Não; Isto é estúpido; Que é que isto tem a ver com a ideia original?; Isto não é um filme; etc. 

No fim, aquilo que irei escrever, pouco ou nada terá a ver com estas questões, se é que o chegarei a fazer. É muito frustrante quando as ideias que nos surgem afastam-nos da ideia original, e da possível mensagem que queremos transmitir. Aí temos um autêntico conflito de interesses, que a meu ver só pode ser resolvido com a construção de duas obras paralelas, e completamente distintas.

Mas aí regresso ao início. De mil e uma volto a ter apenas uma ideia. Essa ideia continua sem fundamento, sem finalidade e sem sentido de fim. Talvez seja melhor descartá-la. Mas não o quero fazer. Terei que arranjar maneira de me desenrascar. 

Nem sempre somos obrigados a seguir uma ideia à letra para que a mensagem não deixe de ser transmitida, ou para que ela saia tal como queríamos que saísse, ou, quem sabe, até mesmo melhor. Na verdade, o único sentimento que me contém, é o reconhecimento de já tantos escritores terem tido ideias semelhantes às minhas. Ideias essas que até as passaram para filme. 

Trágico facto que me arrisca a ser acusado de plágio, ou de falta de imaginação. A verdade é que nestas coisas não há verdade. Só mesmo quem está cá dentro é que é capaz de compreender as coisas pelas quais passamos. 

Espero que um dia a minha obra venha a ser criada. Quero dar vida a esta ideia interessante. Talvez chegue mesmo a ir até à fonte. Não sei. Um dia saberei, e um dia escreverei. 

Ser escritor continua a não ser tarefa fácil. Pensem muito antes de se juntarem a este Mundo, mas não o deixem de fazer. Quem sabe o que virão a descobrir.

Publicado em 21 de Julho de 2013

segunda-feira, 9 de janeiro de 2006

You've got mail

Muitos de vocês já devem ter experimentado, pelo menos uma vez, conversar com estranhos em chat rooms ou pelo Messenger. É uma verdadeira faca de dois legumes, como dizia Jaime Pacheco. Mas o legume que mais interessa, é aquele da conversa esclarecedora e interessante, que de vez em quando lá surge para nos entreter, e para nos fazer passar um bom bocado.

Depois dessa primeira conversa, ansiamos pela segunda, que às vezes continua a ser tão boa como a primeira, mas que outras vezes acaba em desgraça. Em tudo semelhante aos encontros “às cegas” que temos ao longo da nossa vida, com a facilidade de não termos que sair de casa, ou até mesmo de nos levantarmos da cadeira.

E quando não só a segunda, mas a terceira, a quarta, e eventualmente todas as subsequentes, se tornam conversas daquelas que já não somos capazes de passar um dia sem as ter? O momento em que essa pessoa vem falar connosco, ou que responde às nossas mensagens, torna-se num momento mágico. Num pequeno prazer que se concretiza diante de nós.

Alcançamos outro patamar, e começamos a partilhar momentos íntimos com alguém, que nunca vimos uma única vez. Isso às vezes resolve-se com um daqueles blind dates, que são tudo menos cegos. Um dia éramos estranhos, mais íntimos que familiares a falar por um teclado. No outro, somos duas pessoas, frente a frente, capazes de comunicar verbalmente uma com a outra.

Por vezes, a magia desaparece nesse momento e nunca mais volta. A atracção do ser interior desvanece. O pouco à vontade, aquela vergonha de estar ali apodera-se de nós, e acabamos por nos separar. Uma perfeita amizade que teria resultado, não fosse esta espécie de preconceito, que o destino lhe impôs, impedindo-os de se conformarem com as suas vidas no mundo real. 

Mas, felizmente, nem sempre é assim. Há quem se junte, e crie laços eternos, impossíveis de alguma vez serem quebrados. A ansiedade por aquela mensagem, por aquele aviso a alertar que recebemos um e-mail, aumenta cada vez mais. Se esse laço esbarrar com o obstáculo da distância, nem sempre sobrevive, ou então resiste apenas para ver alguma parte da magia a esvanecer. Contudo, bem gerida, a perda não é assim tão pesada.

Não devemos ter medo de explorar estes novos horizontes. Quem sabe o que podemos encontrar mais além? Só se experimentarmos é que o descobrimos. Até mesmo para fomentar os laços com alguém que apenas vemos uma vez por dia, e com quem não desenvolvemos grandes conversas, este é um óptimo lugar. 

Não o devemos temer, nem menosprezar. Devemos aceitá-lo como mais uma daquelas dádivas tecnológicas que nos ajudam a manter-nos ligados ao Mundo.

Deixem o preconceito para trás. Esqueçam os vossos estereótipos. Ignorem quem vos tentar deter. Abracem esta oportunidade. Descubram o verdadeiro prazer de receber aquele e-mail, aquela mensagem instantânea, que mesmo num dia triste, vos alegra para o resto da vida. 

Publicado em 18 de Julho de 2013

sábado, 31 de dezembro de 2005

E agora algo completamente diferente...

...um artigo cujo tema nada tem a ver com a passagem de ano. 

Nesta última semana mergulhei no mundo de Ian Curtis. Após ter recebido o livro Touching from a Distance no Natal, biografia escrita pela sua mulher Deborah Curtis, e de o ter lido até à última página, fiquei a conhecer o Ian de uma forma mais profunda. 

Vi a sua faceta humana, o desvendar do mito. Quase da mesma maneira que fiquei a conhecer a verdade sobre a vida de Jesus depois de ver alguns documentários interessantes no Discovery Channel. Mas, ao contrário do segundo, Ian era um verdadeiro mito. Um ícone de uma geração, e alguém que eu vinha a mistificar. 

A biografia de Ian Curtis tem potencial para chocar a grande maioria daqueles que a lerem, mas não a mim. A sua verdadeira história não me surpreendeu. Ele continua a ser o mesmo mito que era, embora já não seja aquele ser perfeito, que honestamente, nunca foi. 

O Ian foi um revolucionário, um mártir. Nas palavras de Tony Wilson, The musical equivalent of Che Guevara. 

Ele foi o que teve de ser. A sua vida não lhe proporcionou que fosse outra coisa. Levou os Joy Division ao topo. Levou-se a si próprio ao extremo, e aos 24, terminou com a sua vida. 

Ian podia ter sido gigantesco, por mais impossível que pareça tentar elevá-lo mais alto do que ele já é. Motivou os U2, e deixou algum legado nos New Order. Ele estava demasiado à frente do seu tempo, e já era uma figura maior que a própria vida. Só na morte se viu a essência da sua verdadeira grandeza. 

Continua a caminhar em silêncio Ian! 



Publicado em 17 de Julho de 2013

sábado, 24 de dezembro de 2005

The Night Before Christmas

Ou Consoada, como aqueles de alma lusitana gostam de lhe chamar. Não venho aqui falar do sentido do Natal, todos sabem qual é. Não quero falar do que está mal no Natal actual, ou melhor, da maneira que as pessoas encontraram para estragar esta quadra. Falar disso apenas ofusca e ridiculariza o verdadeiro sentido do Natal. 

Que importa se Jesus não nasceu nesta noite? Para mim, o meu aniversário é um tempo de reflexão. Aquele sentimento de obrigação, estampado nos vossos olhos, quando me felicitam nesse dia, apenas contribui para a minha infelicidade. 

O dia em que nascemos é importante, e deve ser recordado por nós. O dia em que os outros festejam esse acontecimento, pouca importância tem. A verdade é que este dia transcendeu o nascimento de Jesus e aglomerou tradições dos quatro cantos do mundo. Tradições milenares que não foram esquecidas graças à celebração deste dia. 

Muito além deste sentido de preservação, também há o sentido de reflexão. O Natal é o momento para nos esquecermos do ano que passou. Para deixar as coisas más no armário, e para dar uma olhadela no álbum das boas memorias. 

É a altura perfeita para fazermos uma viagem pessoal, fora do nosso ego. Para esquecermos o egoísmo, e para procurarmos fazer alguém, e nós próprios, felizes. Seja com uma prenda ou com um simples gesto. 

Não digam mal do Natal. Por muitos anos o adoraram. Ao longo dos séculos foi um símbolo de união entre povos. É um sinal de esperança para o Futuro. O ponto de partida para a Paz e para a Solidariedade. 

O Natal é o que é. É o que fazemos dele, e não o que os outros fazem dele. 

Aproveitem o Natal. Deixem-se envolver pelo seu verdadeiro sentido. E lembrem-se, nem que seja apenas por um milésimo de segundo, mas lembrem-se de serem felizes. Não há melhor dia que este para o serem. 

Desejo-vos uma boa noite de consoada. Façam do Natal aquilo que o vosso coração quer que ele seja. 

Feliz Natal para todos, e para todos uma boa noite. Hoje todos nós somos iguais aos olhos uns dos outros. 

Ámen 
Publicado em 16 de Julho de 2013

sexta-feira, 23 de dezembro de 2005

A Véspera da Véspera de Natal

Já dizia alguém que percebe do assunto: Nós temos 365 maneiras de fazer bacalhau! Pois a mim só me interessa a maneira 358 – como génio mal compreendido da matemática, explico para aqueles que não o são, que esse número corresponde ao dia 24 de Dezembro, pelo menos em anos que bissextos não o são. 

Hoje é a véspera da véspera de Natal, a véspera da Consoada, ou simplesmente o dia 23 de Dezembro. 

Já era madrugada de 22 para 23, quando a minha contínua busca de conhecimento, leva-me a iniciar uma conversa com uma conterrânea da formosa Invicta, e a descobrir mais um dos males impostos por estes anos de refúgio ovarino. Era do meu total desconhecimento o que eram Pencas. 

Isto não é bem verdade, no limiar da minha cabeça “penca” era sinónimo de “nariz”, mas aqui voltamos à eterna luta entre o pingo e o garoto. A penca para esta conterrânea, e para todos os seus conterrâneos, é uma couve repolhuda, que por estas bandas tem o nome de Couvões. Para meu espanto, na Consoada juntamos ao azeite, à batata cozida, àqueles verdes que nunca como, à pimenta e ao alho, as ditas Pencas. 

No meio de narizes e Bacalhaus (que os nossos amigos Ingleses são incapazes de pronunciar devido à inexistência do som "lh" na sua fonética, acabando por graciosamente sair esta palavra risível de se ouvir: bacaíau) acabamos por nos sentar à mesa, amanhã, na véspera do dia de Natal, prontos para encher a pança com esta iguaria. A ela juntam-se os bilharacos, feitos de abóbora ou de cabaça (mais uma luta eterna), o tão dito e declarado Pão-de-Ló, não o Portucalense que esse nem de bolo seco merece ser chamado, mas a iguaria vareira, que há tantos anos dá "nome" a este sítio, as frutas cristalizadas, os pinhões, e etc., e etc. 

Não quero falar da aletria, ou da letria, que já muitos desgostos me trouxe. Mas que estou para aqui a dizer? O importante são as Pencas, minhas senhoras e meus senhores. Essas maravilhas do mundo vegetal que a minha Mãe chega a ter em excesso no quintal. 

De Couvões pouco percebo. Serão angiospérmicas? Espero que não, já que nem sei o que angiospérmicas são. Só sei que no meu prato vão aparecer, não será sinónimo de eu as ir comer, mas pelo menos lá estarão. 

Depois da tempestade a bonança. Mas ainda é dia 23, coitado deste dia, ser véspera de véspera é como ser deputado, é ser nada sem significado. Mas do Nada, já falei, ao Pai Natal escrevi, do Natal em si, esperarei, e em breve comentarei. Até lá só digo assim: Morre Pencas, morre! Pim! 

Publicado em 15 de Julho de 2013

segunda-feira, 19 de dezembro de 2005

Algumas coisas que não me agradam

Como estamos em época natalícia, e para contrariar um pouco a onda de boas festas e de felicidade, provocada por este povo endoidecido, decidi listar neste sítio algumas das coisas que não me agradam – queria ter usado o termo odeio, mas achei-o demasiado forte para a ocasião. 
  1. O SL Benfica, não só o clube, mas também a instituição, os seus afiliados e dirigentes; 
  2. Todos os mouros que andam por aí a injuriar o Norte, enaltecendo a "grandeza" de Lisboa, que de grande apenas tem a estupidez dos actuais e anteriores habitantes dos palácios de S. Bento, e de Belém; 
  3. O Dantas. Morre Dantas, morre. Pim! (Não sei, nem quero saber quem foi o Dantas, mas também não me agrada...); 
  4. Activistas que em meia dúzia de testamentos acabam por dizer rigorosamente coisa nenhuma; 
  5. Velhas, perdão, idosas, que passam por aqui por casa, e todas aquelas iguais a essas mesmas, que agem da mesma forma, assim como todas aquelas que simplesmente o são, e teimam em o ser; 
  6. Bento XVI, que com medo de mostrar sinais da sua homossexualidade impediu aqueles que esse medo não têm, de exercer o sacerdócio; 
  7. Todos aqueles que levam os provérbios à letra e têm medo de assumir as suas convicções e levá-las avante; 
  8. O Senhor Doutor Engenheiro Arquitecto Professor Palhaço Energúmeno George W. Bush. Terei mesmo de explicar porquê? 
  9. O Capitalismo Americano e todos os seus ideais. Dêem-me um desconto; 
  10. Todos aqueles a quem lhes parece que aconteceu não sei o quê, mas esses até perdoo pois lá me rio um bocado; 
  11. Toda a cultura barata de massas, que também chamo de cultura de casa-de-banho, que infelizmente por pertencer às massas, vejo-me obrigado a ouvir nem que seja de relance, se me apetecer ver TV, ou sair à rua. Mesmo enquanto escrevo este artigo estou a ver uma publicidade dessas no canto superior direito do monitor; 
  12. O SL Benfica. Não fosse o três o número da tragédia, que espero que se repita para os lados da Luz; 
Não quero correr o risco de dar um décimo terceiro motivo. O 13 é número de mau agoiro para vários lados e, como sou um cidadão europeu, vou deixar o doze como o número de estrelas da minha bandeira. Muita coisa foi deixada por se dizer, mas nunca devo parar de enaltecer por fim: Morre Dantas, morre. Pim! 

Publicado em 14 de Julho de 2013

sábado, 10 de dezembro de 2005

Nada

A verdade crua e fria, ou fria e crua, ou somente fria, (nunca cheguei a saber como é que se diz esta expressão correctamente) é que não tenha nada para dizer.

O que é o nada se não algo? Já disse muitas vezes que estava a fazer nada quando estava a fazer algo. O próprio acto de abrir a boca para dizer a palavra, ou de mexer os dedos para a dactilografar, é algo. E antes mesmo de fazer isso, estava a olhar, a pensar, a respirar. Mesmo estando parado, estou a fazer algo. Até um vegetal faz algo quando parece fazer nada.

Agora o nada, o que é o nada? O vácuo? Mas o vácuo não é nada, é algo, é o vácuo. É a ausência de qualquer coisa, não é o nada. A própria palavra “nada” é algo já de si, é uma palavra, é uma forma do verbo nadar. Até aí já é qualquer coisa para além do nada.

Para muitos, o nada é aquilo que surge depois de morrermos, mas isso também não é nada, é algo, é a morte.

Será o nada mais um mito urbano? Talvez, se pensarmos bem, as coisas que consideramos como sendo nada, o branco, o vazio, a morte, a paragem e a inoperação de alguma ocorrência. Tudo isto, não é nada, é algo, algo que está definido. Então o nada é o metafísico, é algo que desconhecemos. Também o que desconhecemos é algo. Irá ser descoberto mais cedo ou mais tarde. Isso também não é o nada.

Raios, afinal o que é nada? Nada, o nada não é nada, nada é nada, o nada não existe. É um pigmento da nossa imaginação, como tantas outras coisas que sentimos preguiça, ou um desejo tremendo em definir. O nada simplesmente é o que é, ou melhor, o que não é. O nada, nada é. O nada é o próprio nada.

Como já tinha referido, eu não tenho nada para dizer, mas esse nada tornou-se em algo. Tornou-se neste texto que na verdade fala de nada, pois é ao Nada que é dada toda a importância. É pelo nada que este artigo existe. Perguntam-me, o que é o nada? É algo que se deixa passar por nada.

Publicado em 11 de Julho de 2013

sábado, 3 de dezembro de 2005

Querido Diário

Ainda bem que até gosto de sequelas. Não, ainda não descobri outra palavra.

Estar constipado não é mesmo nada agradável. Drogam-me no primeiro dia e deixam-me os restantes para ser um mero observador na guerra, já milenar, entre o meu nariz e um qualquer pobre lenço corajoso, que se atravessa no seu caminho.

Lembras-te quando, numa tarde de um dia qualquer, limitei-me a fazer nada? Não? Eu também não. Se não, teria simplesmente escrito o dia, a hora, e o local. Nessa tarde criei este blogue e, muitas tardes depois, escrevi o meu primeiro artigo. Era sobre o Sporting CP. Depois desse artigo nunca mais toquei no assunto futebol, muito por causa dos poucos "ouvintes" que este blogue tem. Mas agora estou com vontade de o fazer, mas para não me sujeitar à inexistência de críticas, preferi dizer-to a ti.

Não sei se viste o jogo de ontem. Eu vi. Devo ser o único a dizer isto mas o Sporting CP merecia ter ganho. Podem ter existido penalties, até pode ter sido o FC Porto a equipa que mais atacou, mas desde quando é que o futebol é assim tão linear? A verdade é que nunca o foi.

A meu ver, o Sporting CP marcou o primeiro golo, e só sofreu o golo do FC Porto alguns minutos após a lesão do Carlos Martins. Sempre acreditei neste miúdo, e vá lá que alguém teve juízo para o pôr a jogar. Para além da clara diminuição da qualidade de jogo do Sporting CP após a saída deste miúdo, o golo apenas surgiu num lance caricato culminado com um auto-golo do Polga.

Se o Sporting CP não fosse o Sporting CP, mas o Vitória de Setúbal, o Boavista, ou uma qualquer equipa italiana, aquele golo só teria entrado por obra e graça do Espírito Santo. Logo, o resultado seria sempre 0 - 1, e nunca 2 - 1, pois não houve mais nenhuma bola a entrar na baliza do Ricardo.

Mil e uma coisas podem ser ditas, mas a verdade não deixa de ser esta: se tudo tivesse corrido normalmente, o Sporting CP tinha saído do Dragão com os três pontos. Mas tudo não correu normalmente, e o FC Porto lá roubou dois pontos ao Sporting.

Não concordas comigo? Sei que não tens muito remédio, ser inanimado que tu és. Agora devo voltar a outros afazeres. Não percas brevemente a tua quarta parte, neste mesmo blogue, num PC perto de ti.

Publicado em 10 de Julho de 2013

VII

Sol de Inverno (título original)
Sol de Inverno,
Húmido e doente.
De brilho cego e frio.

As nuvens são o meu consolo.
Quando tu desapareces,
Ó Sol invernoso,
Como não te aguento.

Mesmo no Outono já dói,
Já magoas os dias,
Já não és bem-vindo,
Já não quero a tua luz.

Desaparece, ó Sol.
Ó dador de vida,
Ó estragador dos dias.
Traz-me nuvens que iluminem,
Chuva que me aqueça,
Só não te tragas a ti 
Publicado em 9 de Julho de 2013

quinta-feira, 24 de novembro de 2005

Querido Pai Natal

Há muito tempo que não te escrevo. Há muito tempo que não me respondes. Tenho saudades daquelas manhãs de Natal, em que acordava e todas as prendas que eu te tinha pedido, com excepção de algumas que, agora que olho para trás vejo que foram pedidos completamente sem sentido, estavam ali na cozinha, ao lado do meu sapato. 

Uma vez, até me esqueci de uma delas, que ficou perdida atrás da mesa. Lembraste daquela vez que te esqueceste do teu gorro? Queria muito tê-lo aqui comigo. Talvez um dia pergunte à minha Mãe onde ele está.

Este ano voltei a portar-me mal e acho que não mereço que me visites. Não que alguma vez o tivesse achado, mas Tu lá vinhas. Eu não sou um dos bons. De certeza que há muita gente por aí que merece mais as minhas prendas. Não me importo que continues a não me visitar. Os meus pais e eu trataremos de arranjar aquilo que quero ou que preciso. Afinal como é que os teus duendes vão fazer DVDs? Só queria que me voltasses a responder.

Gostava de ter uma lareira para escrever esta carta e queimá-la, como ouvi dizer que faziam na Dinamarca. Terei que ter esperança em que já te tenhas dedicado às novas tecnologias, e que um dia venhas a ler esta carta que hoje te escrevo.

Agora sou capaz de compreender o porquê de Tu existires, assim como o porquê de certas pessoas precisarem que Tu existas. 

Eu sempre adorei o Natal. Não só por Ti, mas também pelo Menino Jesus, embora ele tenha nascido a 17 de Abril. Daqui a poucas semanas vou montar as árvores e enfeitar a casa. Vou comer rabanadas, bilharacos, fruta cristalizada e bacalhau. Vou abrir as prendas, algumas já mais que anunciadas, outras, apenas meros envelopes com papéis de tecido, alguns chocolates, e algumas peças de roupa para pôr num canto do meu armário. 

O próximo ano será diferente. Eu sei que vai ser. Só gostava que fosse melhor. Até lá, fico à tua espera. Nunca te esquecerei Pai Natal.

Um abraço, do mesmo de sempre.
 

Publicado em 8 de Julho de 2013

E agora algo completamente diferente...

Imagem DR
Llanfairpwllgwyngyllgogerychwyrndrobwllllantysiliogogogoch

Não, isto não são letras ao acaso. Este é o nome de uma cidade do norte do País de Gales. Na foto podem ver o placar da estação com o nome da cidade.

Este nome quer dizer o seguinte:

St Mary's church in the hollow of the white hazel near a rapid whirlpool and the church of St. Tysilio of the red cave.

A Igreja de St Mary na cavidade da avelã branca perto de um remoinho com rápidos e a Igreja de St. Tysilio da caverna vermelha.

Talvez fosse mais fácil chamar-se SítioComNomePraticamenteImpronunciável.

E esta, hein?


Publicado em 7 de Julho de 2013

sábado, 12 de novembro de 2005

VI

Um dia de Chuva (título original)

Mais um dia de chuva.
Mais uma gota que cai.
Vejo, nesta janela embaciada,
Um rosto que não me diz nada.

Essa sombra desaparece,
E só cinzento, e gotas se sente
Cá dentro, um frio. Um momento.
E nada de mais.

É apenas outro dia chuvoso.
Mesmo estando o sol a brilhar,
As nuvens não irão cessar.
O céu, cinzento permanecerá.

Procuro o teu gesto no horizonte.
Ou qualquer outro gesto,
Mas nada encontro.
Apenas nada de mais.

Demasiado nada para continuar a olhar.
Volto-me da janela,
E sou levado para outro nada.
Onde nada espera te encontrar.


Publicado em 4 de Julho de 2013

quinta-feira, 10 de novembro de 2005

O Milagre

Nossa Senhora de Fátima
Recentemente li um livro intitulado "O Terceiro Segredo". O autor, de nome Steve Berry, é um americano que já desde tenra idade se fascinou por Fátima. Apesar de ser um bom português, não imaginava quão grande era o impacto que Fátima tinha no resto do mundo. 

Todos acordámos em certas manhãs, e ligámos a TV para ver as celebrações das Eucaristias em Fátima. Milhares de fiéis sempre presentes, faça chuva ou faça sol. Todos ali, atentos às palavras do sacerdote que a estivesse a celebrar. 

Embora já tenha visitado Fátima várias vezes, nunca reparei na mediatização que existe à volta dela, nem no número gigantesco de fiéis que a ela são atraídos todos os anos, provenientes dos quatro cantos do mundo. Eu sei que a Terra é quase uma esfera, e que por isso não tem cantos, mas isso fica para outro artigo.

Era 1917, três pastorinhos guardavam o seu rebanho na Cova da Iria, assim era chamado o local, quando as suas atenções são desviadas para uma senhora de branco. Quase cem anos depois, o sentimento de espanto das pessoas que presenciaram a sua última aparição, quando assistiram, perplexas, ao Sol a dançar no céu, continua a atrair os fiéis. Tudo por uma questão de fé? Não o diria de outra maneira.

Muitas pessoas descreditaram as aparições, argumentando que o que se passou não era mais do que um episódio de histeria em massa. Também sou um desses cépticos contudo, gostaria de ter estado lá, para testemunhar com aquelas pessoas o que verdadeiramente se passou. 

Penso em todas as questões que se levantam, e em toda a vontade de desacreditar o que lá aconteceu. Mesmo assim, quase cem anos depois, continuo a ligar a TV, e a ver o Santuário apinhado de gente. Não seria tão bom que esta história fosse real? Qual é o mal em ter um pouco de fé? Não é ela que nos ajuda a encontrar um significado para a vida? Ou a aceitar que a vida tem um significado? 

Para mim, é difícil aceitar isto tão abertamente. Tive que esperar até ser Confirmado para começar a questionar verdadeiramente a minha fé. Como alguém uma vez me disse, não devia ter feito o Crisma se não estivesse pronto. E não estava. Mas agora sou um Confirmado, pelo menos aos olhos da Igreja. Mas o assunto, não sou eu, nem essa instituição, o assunto é Fátima. 

A Nossa Senhora, a "Virgem", a Madona, a Mãe de Jesus, desceu aos céus para dar três mensagens a três pastorinhos. Ou melhor, a dois, pois Francisco nunca chegou a ouvir o terceiro. 

No romance de Steve Berry, o terceiro segredo revelado por João Paulo II no ano 2000, era o tema principal. A premissa do livro afirmava que faltava uma parte do segredo, e que o Papa esqueceu-se de a dizer, por desconhecer a sua existência. Essa mensagem, como qualquer leitor viria a descobrir no fim, era uma mensagem de aceitação. Aceitação do amor em todas as suas formas, mesmo por parte de "Homens de Deus". Aceitação do direito da Mulher em escolher se vai ou não ser mãe. Resumidamente, a quebra de todos os dogmas que a Igreja tem vindo a reivindicar através da "palavra" de Deus. 

Mas este livro, ao contrário de outros, não desacreditava o papel da Igreja. Apenas lhe dava um empurrão para que esta pudesse mudar, e adaptar-se àquilo que os Céus realmente querem ver-nos a fazer cá em baixo. 

Na verdade, com um Deus tão liberal, e com um Terceiro Segredo de Fátima tão apelativo, até ponderava tornar-me crente. Pelo menos, aprendi a não ignorar este milagre que aconteceu aqui tão perto de nós, e que para todo o sempre dará outro sentido, não só a Portugal, mas à nossa própria existência.

Publicado em 3 de Julho de 2013

domingo, 6 de novembro de 2005

Cursos e Sonhos

Acabei o liceu, e agora? Todos acabamos por fazer esta pergunta. Ninguém acharia isto estranho, contudo, o que eu acho estranho é a resposta que mais frequentemente se faz ouvir: “Gostava de ir para Medicina”.

Há uns meses atrás assisti a uma palestra de um Professor da Universidade de Coimbra. Nela, ele apelava a um maior interesse pelas ciências, que ultimamente têm perdido muitos alunos para as ciências sociais. Não sei se a Medicina é considerada uma ciência social, duvido muito que o seja, mas concordo que esta deve ser posta de lado quando falamos de cursos científicos.

É estranho o elevado número de alunos que, tendo escolhido no nono ano um curso científico, acabam por ambicionar seguir Medicina. Não me considero um jogador compulsivo, mas era capaz de apostar que a grande maioria deles não quer na verdade seguir isso.

Os alunos de hoje vêem os seus caminhos bloqueados por cartazes a dizer-lhes para encarar uma realidade fantasiosa, e falaciosa, que é exposta na comunicação social, e canalizada pelos seus pais. Foram muitas as vezes que alguém me disse que tinha como sonho seguir um curso ligado às Ciências, como Biologia, Geologia, Física, ou Astronomia. Infelizmente, desistem afirmando que esses cursos não têm saída. Porque é que a grande maioria dos jovens teima em matar aquela criança que sonhava com um dia chegar às estrelas?

São vítimas da pressão dos pais? Dos amigos? Da sociedade? Ou talvez, vítimas de uma vontade tremenda de crescer demasiado depressa. Não ponho de lado a certeza de que alguns deles têm mesmo como sonho seguir Medicina. Mas todos aqueles que mudaram o seu sonho por outro motivo que não a perda de interesse, estão a cometer um erro, e vão passar o resto das suas vidas arrependidos por o terem feito.

Não deve existir nenhum motivo para pararmos de sonhar. O vosso sonho não tem saída? Já pensaram que, como a maioria escolhe apenas os cursos com saída, que talvez a procura pelo vosso emprego de sonho aumente, devido à diminuição de pessoas formadas nessas áreas, e que tenham assim uma hipótese muito maior de arranjar emprego, do que qualquer aluno de Medicina?

De qualquer das formas, quem faz o que gosta, e é bom a fazê-lo, não tem problemas em ter sucesso. É com este pensamento que devem fazer a vossa escolha. Não sigam os conselhos dos vossos pais, amigos, familiares ou professores. Sigam o caminho que o vosso coração vos quer mostrar. Ponham de lado essa perspectiva pessimista da realidade. As pessoas à vossa volta são portugueses, não têm outra escolha que não serem pessimistas. Não se deixem influenciar por quem apenas quer transmitir para vocês a sua forma de pensar.

“Vou seguir Medicina (ou outro curso qualquer) porque tem saída.” Quando esta frase se extinguir, talvez aí passemos a ser vistos como um povo mais optimista. Cabe a vocês, e às vossas convicções, dar ouvidos ao que deve ser ouvido: Os vossos instintos. Eu sonho um dia ser feliz com aquilo que faço, e vocês?

Publicado online em 6 de Novembro de 2005
Publicado pelo Jornal "A Melga" em Junho de 2006
Reeditado em 2 de Julho de 2013

quinta-feira, 13 de outubro de 2005

Senta-te e Lê

Após um breve período de inspiração, volto aos artigos sérios que remetem a temas talvez mais do vosso interesse.

Se algum membro da blogosfera, ou um simples escritor, um dia ler isto, vai concordar plenamente comigo. Quantas vezes as musas vos atacaram com tanta força que, quando começaram a escrever, só acabaram quando o texto já ia longo? Incontáveis, certamente.

Após a conclusão de tal grandiosa obra – que depois de uma segunda ou terceira leitura, acabamos por deitar para o lixo; tão perfeccionistas que somos, acabamos por encontrar demasiados defeitos, e tornamos algo belo em mais uma bola de papel, que teima em falhar o cesto –, queremos sempre ouvir uma segunda opinião, uma crítica, e quanto mais trabalhada e concisa esta for, melhor. Daí vem a questão que dá motivo à existência deste artigo: Quantas pessoas recusaram-se a ler por acharem que esse texto era grande demais?

Não é preciso responder a essa pergunta. Hoje em dia, vivemos numa sociedade extremamente materialista. Numa sociedade fast food, onde tudo tem que ser feito com a mais extrema rapidez. Chegamos ao ponto de protestarmos quando um desejo momentâneo não está logo pronto para ser satisfeito, cinco segundos antes de o desejarmos. 

Esta mentalidade tornou-nos preguiçosos. Incapazes de fazer seja o que for. Um bom artigo que dá gosto de ler, não é um artigo bem estruturado de uma página, mas sim uma frase ou duas, ditas por um “dito cujo” qualquer, que, tão convicto do seu raro momento de inteligência, acaba por se enganar a si próprio, ao pensar que essas frases realmente significam alguma coisa.

É verdade que a compreensão está dependente da extensão. É verdade que, por vezes, uma palavra diz muito mais do que mil. Mas essas mil palavras existem por algum motivo. Fazem parte da inspiração de alguém, do mundo de alguém, e merecem ser lidas. Afinal de que serviu o 25 de Abril?

Recentemente, acabei de ler um livro de 1421 páginas. Muitos espantaram-se com este feito. Perplexos, perguntaram-me como tinha sido capaz de arranjar tamanha paciência. A resposta é simples. Cada uma dessas 1421 páginas era boa, e interessante o suficiente para eu as ler. 

No outro dia, deparei-me com alguém que se recusava a ler um livro de uma escritora famosa, por achar trezentas e poucas páginas, um volume demasiado para com o qual, ocupar o seu tempo. Só lhe faltou cair os dentes quando lhe contei a minha aventura recente. 

Muitos livros, e muitos artigos, não valem a pena estarem em exposição nas estantes de uma livraria, ou nas páginas de um jornal, ou de uma revista. Mas muitos outros merecem-no, e por isso lá estão. Contudo, devido ao seu tamanho, a sua essência, a sua magia, perde-se no tempo. Deixando apenas a sua marca nas vidas de bravos como eu.

Apenas faço um pedido, para nunca julgarem um livro pela capa, pelo título, ou pelo seu tamanho. Mantenham um espírito aberto, e leiam. Não deixem bons artigos, e bons livros, passarem-vos ao lado, só porque não vos apetece perder umas horas. Horas essas, que iam gastar a fazer nada.

Quem sabe? Talvez algum deles sirva como fonte de inspiração, e vos ajude a encontrar a vossa vocação. Talvez um deles mude a vossa vida, e vos ajude num momento de aperto. Ou talvez vos seja útil, quando forem ao Quem Quer Ser Milionário. 

Talvez seja apenas um bom tema de conversa entre os vossos amigos. Ou um quebra-gelo, para conhecer pessoas novas. Mesmo que não passe de uma boa leitura para passar o tempo, não ponham logo de lado essa hipótese. Pois ninguém sabe que caminhos podem surgir ao virar da primeira página.

Publicado em 1 de Julho de 2013

sábado, 8 de outubro de 2005

Have a nice Journey

Era de manhã. Tinha acordado há pouco. Era um dia diferente, algo não soava como devia, o sol não brilhava como devia, algo estava para acontecer. 

Mesmo assim, segui com a rotina normal, e preparei-me para sair. Ao início da tarde dirigi-me à estação para ir viajar, alguém esperava por mim, algures a norte. A viagem é uma sombra na minha memória que se esvanece cada vez mais rápido. Mas, por mais ténue que seja, nunca esquecerei o momento em que a carruagem parou, e abri a porta para desembarcar. 

Lá estava quem me esperava. Quem eu queria. Quem precisava de mim. Quem eu não podia viver sem. Nada o podia prever. Talvez apenas aquelas sensações estranhas que tive ao acordar. Sempre vi a manhã como algo místico, algo que nos tenta abrir os olhos, mas mantive os meus fechados, e agora era tarde demais.

O edifício atrás dela tinha explodido, sobrevivi apenas com alguns arranhões, mas ela não. Esta vida podia ter sido salva. Esta vida não se limitaria a agradecer, mas para meu azar, a minha falta de compreensão, fez com que tudo isto acontecesse. Não a consegui salvar. Só quis morrer ali, enquanto sentia a sua vida a esvanecer-se nos meus braços. 

Nunca me perdoei. Nem a mim, nem ao mundo. Talvez fosse isso que despoletou os eventos do dia seguinte. Dia esse, que não foi mais nada do que o dia anterior.

Acordei exaltado, o telemóvel estava a tocar. Atendi-o como se estivesse a atender um auscultador de um telefone de rua que tinha sido cortado. Era ela, ela estava viva. 

Teria sido tudo um sonho? Já tive sonhos vívidos antes, mas nunca tão reais. Não, a razão dizia-me que não passava de um sonho, mas a verdade é que os meus instintos gritavam. Eu tinha recebido uma segunda chance, e não a podia desperdiçar. 

Cancelei o nosso encontro, pedi para adiá-lo para outra altura. Nessa noite, falámos sobre o quão horrível teria sido se eu o não tivesse cancelado. A estação onde nos devíamos ter encontrado horas antes, tinha explodido. O primeiro verdadeiro sinal de terrorismo neste país. 

Talvez agora, depois disto tudo, tenha mudado de ideias, mas se pudesse voltar atrás, faria tudo de novo. Afinal, com segundas hipóteses, ou sem elas, não podemos mudar o passado. Algo terá que o viver.

Umas semanas depois, recebi um telefonema, uma voz tremendamente familiar estava do outro lado da linha. Ele disse-me algo que parecia completamente irreal, mas, depois dos eventos passados, torna-se complicado distinguir o real do irreal. 

Concordei em encontrar-me com ele. O local era muito estranho, vindo directo de um filme de acção de Hollywood. Era suposto estar no terraço do prédio mais alto do centro da cidade, pelas dez da noite. 

Tentei contactá-la para que alguém soubesse onde, e com quem, eu estaria na eventualidade de algo me acontecer. Mas não consegui. Hesitei muito, mas lá ganhei coragem para ir ao encontro do destino.

Era noite, a Lua brilhava, mas as nuvens começavam a tapá-la. Ia começar a chover muito em breve. Apenas queria que aquilo acabasse depressa, e iria acabar.

Uma sombra surgiu por detrás da antena, aliás, não era uma, mas sim duas. Uma delas era estranhamente familiar, a outra era mais do que isso. Era ela. Estava presa e assustada, um estranho apontava-lhe uma arma. Fiquei paralisado. Consegui salvá-la apenas para a ver morrer nas mãos de um palhaço qualquer com sede de vingança?

Vingança? Porquê vingança? Que fiz eu de mal? A figura é-me familiar, mas de certeza que o que quer que seja que eu lhe tenha feito, nada justificaria esta atitude.

“Estou a ver que não te atrasaste. Impressionante, tendo em conta quem és”, disse a estranha figura que apontava a arma.

“Essa voz... Não, não pode ser...”

“Sim, diz olá a ti próprio.”

Isto era a gota de água. Eu? Porque raio queria eu matar aquela que dava o único significado à minha vida? E como estou eu ali?

“Não podes ser Eu! Quem és? Deixa-a em paz, ela não tem nada a ver com isto!”

“Ah, mas aí é que te enganas. Ela tem tudo a ver com isto. Lembras-te de um "sonho" que tiveste há algum tempo? Com explosões e comboios?”

“Sim, mas isso foi só uma premonição.”

“Não! Isso foi a minha vida. Eu fui o teu presente criado para que tu não sofresses. Não achas isso um pouco injusto? Venho aqui repor a justiça.”

“Que estás a dizer? Eu não tenho culpa do que te aconteceu, nem ela tem! Acredita, eu sei como te sentes, e se te dizes ser eu então serias incapaz de magoar aquela que amas.”

“Que estão para aí a falar? Deixa-me ir”, gritou ela em desespero.

“Ouviste-a? Deixa-a ir! Se queres vingança, vinga-te em mim.”

“Infelizmente, não é assim tão simples. Se te matar, eu também morro. Só vivo porque tu vives, e tu só vives porque eu vivo.”

“Então, se eu me atirar deste prédio abaixo, tu não vais ficar lá muito bem. Mesmo que eu sobreviva, vais ser um vegetal. Mas o mais provável é que morras comigo, certo?”

“Não serias capaz. Pensas que não te conheço? És um cobarde.”

“Tens assim tanta certeza disso? Então porque tremes?”

“Não, não faças isso! Se tu não vives sem mim, como pensas que eu viverei?”, disse ela, quando ele se dirigiu para o parapeito daquele terraço. 

“Vais ter que sobreviver. A culpa é toda minha, apenas não te esqueças do quanto eu te amo...”

“Não...”, a palavra saiu como um suspiro. Um último segredo entre os dois. Uma última tentativa desesperada de mudar o curso daquilo que era agora inevitável.

“Que estás a fazer? Pára!”, gritou a figura sombria.

E assim, saltei. Só me lembro de sentir a liberdade que é poder voar. Aqueles foram os últimos momentos da minha vida. Agora que a minha memória, que a minha essência, se desvanece, e que a minha alma começa a subir, apenas fico grato por ter sido amado, e por ter salvo aquela que verdadeiramente me amou. 

Sinto também pena pelo meu outro eu. Aquele que nunca chegou a ter estes últimos dias com ela. Nem tão pouco, o reconforto de saber que, algures, ela continua a viver a sua vida. Guardando para si, um lugar especial no seu coração, onde ele, tal como eu, seremos para sempre relembrados. 

Esta é a minha história. Despeço-me, uma última vez, sabendo que levo comigo a história de um verdadeiro amor.


Publicado em 30 de Junho de 2013

quarta-feira, 5 de outubro de 2005

O Mundo não era Suficiente

Tudo começou numa era não muito longínqua, numa terra perto daqui. O Mundo aproximava-se do seu fim, e o nosso herói viaja na última estrada que alguém alguma vez percorrerá. Com ele viaja um homem e uma rapariga. A rapariga não o sabia, mas era ela quem preenchia o coração dele, e quem tornava este fim mais suportável, ou, pelo menos, assim pensava ele.

O passado das personagens nenhuma importância tem. O que é importante é a viagem, e os eventos que em breve se vão suceder.

Ao longo do caminho, o silêncio é perpétuo. O rádio apenas grita estática, e não há grandes motivos de conversa. Ao aproximar-se o anoitecer, eles decidem parar um pouco, aparentemente sem qualquer motivo. 

Ele tenta falar com ela, mas os seus olhos afastam-se para aquele lugar distante, onde ele sabe que nunca a irá encontrar. Enquanto ele se vira para voltar para o carro, ouve um pequeno deslizamento seguido de um grito. Corre para ver o que se tinha passado. Ela tinha desaparecido. 

Aproximando-se do lugar onde ela estava, ele vê um pequeno desfiladeiro. Encontra-a agarrada a uns ramos, a lutar pela sua vida. Ele dirige-se ao homem, acudindo por ajuda. Ele abre a mala do carro e tira uma corda. Encontram algo onde a prender, e ele oferece-se para salvar a rapariga.

“Tem calma, eu vou salvar-te” , grita numa voz suave e reconfortante, como a de um verdadeiro herói. Uma voz há muito não ouvida.

Ele consegue apanhá-la mesmo a tempo, salvando-a no último instante em que o ramo cedeu. Ela abraça-o em sinal de gratidão, ambos conseguem subir para a estrada, libertando toda a adrenalina que ainda restava depois deste incidente.

Quando ele repara que ela ia regressar para aquele lugar longínquo, ele agarra-a e olha-a nos olhos.

“Não posso esperar mais...”, diz.

“Não, por favor, não.”

“Eu tenho que to dizer.”

“Não!”

“Eu amo-te!”

“Mas, eu não!”

“Eu sei...”, responde ele.

“Não posso sentir aquilo que não sinto. Obrigada por me dares mais umas horas de vida.”

Com isto, ela afasta-se. Foi aí que o nosso herói se apercebeu – ou que, pelos menos, foi capaz de admitir pela primeira vez – que ele podia salvar-lhe a vida. Podia mesmo salvar o mundo. Mas o seu coração, a ele nunca iria pertencer. 

Viajaram pela noite dentro, até ao fim dos tempos.

Publicado em 27 de Junho de 2013

segunda-feira, 3 de outubro de 2005

Eclipse

Para o comum dos mortais que gosta de prestar atenção aos mais pequenos pormenores, será de estranhar o facto de eu estar a publicar um artigo a esta hora do dia. Não que seja alguma hora em especial, é apenas a hora de almoço. Contudo, é uma hora em que, num dia normal, eu estaria em qualquer outro sítio, menos aqui. Mas tudo isto é irrelevante. 

Hoje foi finalmente lançado o Item, um DVD que contém todos os videoclips da história dos New Order. Além disso, inclui também o documentário New Order Story, que até agora apenas tinha sido editado em VHS. 

Hoje foi também o dia em que a Lua ofuscou tudo. Acordei cedo pela manhã e liguei a TV, apenas para me deparar com críticas técnico-desportivas, profundamente falaciosas, dirigidas ao Sporting CP. Senti-me abruptamente obrigado a levantar-me da cama e a ir para o sótão, observar o "fenómeno" que é um pássaro sentado numa árvore a abanar os ramos. 

Minto, isso aconteceu umas horas mais tarde. Aquela hora era a hora do Eclipse. Um evento que esperava desde o último eclipse parcial, há uns anos atrás. Esqueci-me completamente disso, enquanto me afundava em questões existenciais da mais alta importância, ou pensava em coisas tão banais, que acabei mesmo por achar que não valia a pena debruçar-me sobre elas. Pouco importa. Lá acordei, e lá vi o fenómeno. Posso-vos dizer que nunca vi um sol tão azul.

Este eclipse apenas se irá repetir daqui a vinte e oito anos. Evento tão raro como o lançamento de outro DVD como o Item, ou de uma equipa do Sporting CP que jogue tão bem como o FC Porto do Mourinho. 

Até lá, continuarei a questionar-me sobre tudo e mais alguma coisa. Quando estiver nos meus quarentas, lá irei comprar o jornal que ofereça aqueles óculos escuros, para observar o próximo Eclipse em todo o seu esplendor.

Publicado em 26 de Junho de 2013