quarta-feira, 7 de setembro de 2011

A Morte do Herói

Enquanto o Sol se escondia sob a penumbra de um céu enegrecido pelas chamas que queimavam os últimos centímetros de atmosfera, em fúteis tentativas de travar o eminente juízo final que se abatia sobre a Terra, apenas um homem inutilmente se impunha na zona de impacto. Miguel contava os segundos para o fim. Rodeado por uma imensidão de nada os seus últimos pensamentos iam para ela e para a simples claridade de uma única certeza: estava verdadeiramente só.

Os seus olhos disparavam em todas as direcções, em busca de um vulto, de qualquer sinal de movimento, agarrando-se à mais ínfima réstia de esperança, à fé nas palavras de uma velha promessa. Mas nada. As próprias árvores pareciam preparar-se para esta inevitável conclusão. Nada se movia naquela clareira além dos gestos de antecipação deste imprudente rapaz. A solidão deu lugar a breves lágrimas, supridas pela inquietação de uma calma aterradora, típica de alguém refém do seu próprio destino.

Miguel fechou os olhos saboreando o seu último fôlego. Virou a cabeça para cima e abriu-os. Nestes seus últimos segundos, não deixou de se admirar com a irónica beleza da visão que assolava este céu infernal. Ao preparar-se para o choque, viu, por uma última vez, a única memória que ainda lhe restava de um tempo em que era feliz. “Sara…”, com um suspiro largou a sua derradeira palavra, espelho das recordações de uma vida que agora termina. Cerrou novamente os olhos para não mais os abrir.

Ao acordar no chão daquele velho terraço, Miguel levantou-se em um sobressalto. Impulsionado pela chuva que ardia na sua face. Cada gota como uma gélida facada penetrante. Viu-se forçado a cambalear até ao parapeito mais próximo, ainda atordoado pelo choque da queda.

Ele ainda estava ali, o mesmo vulto negro que o tinha espancado até um ponto de quase inconsciência. Agarrava Sara nos seus braços com a arma apontada à sua cabeça. As forças escapavam a Miguel mas tinha que fazer alguma coisa. Não a podia deixar morrer, não ali, não agora, não pelas mãos daquele monstro.

O vulto parecia gabar-se pela vitória alcançada. A rebentação de um relâmpago no horizonte ilumina por breves momentos o breu da noite. Miguel consegue ver com clareza a cara do seu rival. Um sorriso histérico de compreensão, banhado por lágrimas de ódio, ocupa agora a sua face.

“O que pensas que estás a fazer”, grita.

O negro vulto vira-se para ele, espantado por este ainda ter energia para falar.

“Faço aquilo que tem que ser feito. Algo além da tua compreensão”, responde em tom condescendente como se falasse para uma criança irreverente.

A raiva cresce à medida que o coração de Miguel acelera. O vulto coloca o dedo no gatilho e prepara-se para disparar.

“Adeus.”

Num acto mecânico e inconsciente, Miguel reúne todas as suas forças e ataca o vulto antes deste disparar. A adrenalina que toma agora conta do seu sangue deu-lhe energia para percorrer os metros que os separavam em meros segundos. A força do embate foi tão grande que Sara saiu disparada contra o parapeito, enquanto os dois se lançavam para o vazio.

Miguel conseguiu agarrar-se a uma laje. O seu braço cambaleava com o peso do seu corpo. O vulto negro tinha desaparecido na escuridão da noite. Também Miguel começava a escorregar.

Sara acorda combalida pelo choque. Aproxima-se do parapeito onde Miguel se encontrava.

“Como sei que és tu e não ele?”, pergunta-lhe.

“Deixa o teu coração dar-te a resposta”, responde.

Sara estica os braços para tentar puxar Miguel. A distância entre o parapeito e a laje deixa-a a meros centímetros de o poder ajudar. Mesmo assim, Sara tenta, incapaz de aceitar este desfecho.

“Aguenta, eu vou buscar ajuda”, diz-lhe em desespero.

“Não, não vale a pena, não aguento muito mais”. Ditas estas palavras o seu braço começa a ceder, o esforço inumano de suportar todo o seu peso, aliado ao desgaste do choque com o seu rival são mazelas fatais para a tarefa agora apresentada.

“Sara, eu…”, o esforço força-o a largar antes de concluir a frase. A rebentação dos relâmpagos como que lhe oferecem uma breve benesse, ao iluminar a face de Sara por uma última vez.

Ao cair em direcção ao vazio, Miguel guarda em si uma última certeza. Nunca esteve tão calmo, nunca esteve tão em paz, nunca foi tão feliz. “Sara, agora irei voar”.

O avião preparava-se para descer em direcção ao aeroporto. A viagem já ia longa. Miguel contemplava o céu coberto por um mar de nuvens do mais branco que já tinha visto, prolongando-se ao longo do horizonte.

À medida que o avião atravessava a camada de nuvens, Miguel começou a aperceber-se da precipitação que se acumulava na janela de uma das saídas de emergência sobre a asa, mesmo ao lado de onde ele se encontrava.

Nada fora do normal, não fossem algumas gotas terem começado a escorrer através da janela. A porta estava a perder a sua pressurização.

Miguel tenta chamar a assistente de bordo em vão. O sinal de apertar os cintos de segurança já estava ligado, o avião estava prestes a aterrar e nada mais podia ser feito.

Quando o solo surgiu por entre a espessa camada de nuvens, já a porta tinha começado a ceder. O avião descaía sobre o seu lado esquerdo, descendo a alta velocidade em direcção ao aeroporto. Uma turbulência anormal realçava o ar de apreensão na face dos passageiros.

A própria voz do piloto tremia de nervosismo ao anunciar a aproximação da aterragem. Miguel continuava a olhar pela janela como se não quisesse perder um único pormenor da catástrofe iminente. O avião roçava a copa das árvores, sem diminuir a velocidade.

Já se desenhava a silhueta do aeroporto no horizonte quando a porta rebentou, a pressão de ar puxava Miguel para fora. Preso apenas pelo cinto de segurança, Miguel era testemunha de uma dança de revistas, malas, papéis e canetas a passar rente à sua cara, sugados para o vazio onde ainda há instantes estava uma porta de emergência.

O avião aterrou na pista sobre o lado esquerdo, a asa raspou na pista e partiu-se a meio. A electricidade estática provocada pelo choque fez com que o combustível da asa se incendiasse. O avião derrapou ao longo da pista sem controlo. Miguel manteve-se no seu lugar, evitando os fumos tóxicos que invadiam a cabine.

Sob gritos de morte, fechou os olhos e deixou-se cair na inconsciente graciosidade das suas memórias. Sentiu o seu toque, cheirou o seu cabelo, no seu derradeiro momento de existência viu-a por uma última vez. Chamou-a para os seus braços e deixou-se perder no seu calor.

Sara observava o desastre na gare. Quando o avião finalmente parou a poucos metros da pista de embarque, deixou-se cair em lágrimas assolada por uma terrífica incredulidade. Por um instante sentiu uma mão familiar a confortá-la e aceitou o seu abraço. Quando voltou a abrir os olhos, o avião continuava a arder. Estava só. Apenas só.

Passava pouco das onze da noite. Miguel aguardava no esporão há cerca de duas horas. “Estarei lá. No mesmo local onde fizemos aquela promessa”, já perdia as contas às vezes que tinha lido a última mensagem de Sara.

As horas passavam sem qualquer sinal dela. Miguel aproximou-se da ponta do esporão. “Só mais um pouco”, disse.

Fechou os olhos. O vento envolvia-o num abraço ameno, típica brisa outonal que trazia consigo ainda algum resquício do calor de Verão.

O céu límpido era apenas perturbado por uma ocasional estrela cadente. O desejo, esse, era sempre o mesmo. Apenas mais um momento com ela, poder voltar a segurá-la nos seus braços. Só mais uma oportunidade de mostrar o amor que sente por ela, de o dizer abertamente, sem hesitações, sem mais barreiras ou restrições. Uma última oportunidade de serem apenas um.

Meia-noite. Miguel abriu finalmente os olhos. Suspirou uma última vez antes de olhar em seu redor. Nada. Despiu o casaco, descalçou os sapatos e as meias. Pousou o telemóvel ao seu lado. Nas mãos guardava uma foto de Sara com ele. “Parece ter sido noutra vida”, pensou.

Segurou a foto próxima do seu coração e deixou-se cair.

No ecrã do seu telemóvel reluzia ainda a última mensagem que Sara enviou. A data era de há um ano atrás. Antes do acidente, antes da sua morte. Quando Miguel e Sara ainda eram felizes.

Publicado em 3 de Setembro de 2013

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

XXI

Medo
Palavra escrita nas entrelinhas,
De diálogos ensaiados por estranhos desconhecidos.
Escuridão de ignorância,
Banhada em ouro derretido pela podridão.

Medo
Sentimento negro de aventura,
No breu de uma estrada coberta pela noite.
Terríveis grunhidos de loucura,
Rodeados por árvores caducas de maldição.

Medo
Incertezas de amanhãs,
Emergidas em lama visceral.
Gritos de morte,
Sob silêncios assolados por um nada temeroso.

Medo
Carnívoras intenções,
Auto-flageladas por desejos nervosos.
Escondidos do mais simples olhar,
Em segredos restritos de violações.

Medo
Amor descoberto,
Por uma entrega divinal.
Racionalidades fictícias de certezas incoerentes,
Perdidas em ansiedades de desejos mortais.

Medo
Do futuro, do passado,
De um presente de felicidade.
Receio pelo belo, pela verdade,
Apreensão de amar, apreensão de errar.

Medo
Palavra que nada faz,
Que existe e apenas o é.
Sentimento bloqueador, por entre amarras de calor,
Cuja dor de nada vale, de nada é.

Publicado em 11 de Setembro de 2013

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

XX

Imagem apagada, de um caminho deserto,
Ancestrais pegadas, perdidas no vento.
Espaços vazios. Nada.

Realidade imaginária, nunca questionada,
Sopros de silêncio, pela noite abafados.
Viagens por partir. Nada.

Cidades escuras, de idiomas ausentes,
Carentes ruínas, ainda por escrever.
Tempos perdidos. Nada.

Sonetos antigos, sem palavras, nem verbo,
Desenhos gastos, por livros encobertos.
Sonhos esquecidos. Nada.

Mortes insípidas, vazias de dor,
Vidas corridas, cegas por amor.
Histórias em branco. Nada.

Nomes deixados, algures no horizonte,
Passados vencidos, derrotas sem sabor.
Saberes desleixados. Nada.

Cansaço eterno, por saúdes prometidas,
Mentes adormecidas, sem onda, nem valor.
Projectos parados. Nada.

Esperança contínua, sem sentido de razão,
Preces ouvidas, sem pedido, ou decisão.
Águas retraídas. Nada.

Tudo, em um todo, apenas,
Paradoxos eloquentes, de parágrafos roubados.
Poemas iletrados. Nada.

Certezas antes vistas, no incerto do destino,
Runas indecisas, por um fado caótico.
Letras encobertas. Nada.

Sentimentos guardados, na ânsia do porvir,
Futuros inesperados, no limite de desistir.
Corações partidos. Nada.

Doces Novembros, há muito vividos,
Nunca esquecidos, hoje partilhados.
Amor por viver. Dias por receber.
Nada, é tão simples.
Nada, que tudo é. Tudo.

Publicado em 9 de Setembro de 2013

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Decisões

“Todos os dias somos confrontados com pequenas decisões, momentos que definem a direcção do nosso caminho.” Um telefonema, uma breve conversa e quatro anos volvidos, hoje é um dia diferente.

Os primeiros raios de sol abrem caminho pelas persianas, envolvendo o meu quarto aos poucos numa suava carícia de calor matinal. Acordo pouco antes da hora que programei no despertador. Enquanto aguardo que este desperte mergulho na fantasia de um dia diferente. Um dia como hoje.

A mesma hora, a mesma música. “Talvez esteja na hora de mudar a estação de rádio, já há uns tempos que não consigo apanhar o ‘Café da Manhã’”, penso. O mesmo banho, as mesmas roupas, o mesmo pequeno-almoço. As rotinas dão-me conforto, são seguras e estáveis. Aconteça o que acontecer posso sempre contar com elas.

Pego no meu telemóvel, nada de novo. Questiono-me se devia continuar a adiar a compra de um novo, ter a caixa de mensagens sempre cheia já começa a irritar. Saio de casa. A mesma porta, as mesmas chaves, o mesmo carro. Talvez não o mesmo, a cor é diferente. Mantém ainda o tom original, um verde-água sinónimo da sua experiência, marcado pelos longos quilómetros de estrada já percorridos. Hoje tem ainda mais alguns para fazer.

É bom estar de regresso a casa. Após estes últimos anos em constante viagem é bom ter um lugar para guardar as malas, dormir numa cama já bem familiar e fazer-me à estrada sem precisar de um mapa.

A viagem, essa, indispensável desde o meu regresso, é já ela mais um mero percurso rotineiro que, não fosse pela imprevisibilidade do trânsito, faria de olhos fechados.

Chego a Arouca pouco antes das nove e meia. Cidade diferente. Entro no café do costume onde a vejo a tomar o pequeno-almoço. Um croissant e uma meia de leite, também ela criatura de rotinas. “Se apenas esse leite fosse de soja podias ser perfeita”, digo-lhe com um sorriso. Ela limita-se a olhar-me de relance fingindo ignorar-me. Sento-me ao seu lado a aguardar a sua reacção. “De todos os cafés em todo o Mundo, tinhas que entrar no meu”, acaba por dizer. Beijamo-nos. Um beijo, também ele rotina, não fosse pela constante novidade de emoções que este momento desperta. Cada vez, único.

O seu nome é Sofia. Conheci-a há anos. Partilhávamos o mesmo sonho. Tomámos a mesma decisão, mas em cidades diferentes. Eu no Porto, ela em Lisboa. Lugar-comum nestas histórias. Nada de novo. Há dois anos, o destino, ou talvez uma mera coincidência entre duas pessoas que escolheram o mesmo ano para fazer Erasmus, ditou que nos encontrássemos em Madrid.

Conhecemo-nos quando já nos tínhamos esquecido um do outro. Conhecemo-nos no momento certo. “Assim estava escrito”, disse-lhe pouco após o nosso primeiro beijo. Ela sorriu. O mesmo sorriso.

“Vamos chegar atrasados”, disse. “Deixa-os esperar, a maioria deles prefere continuar na camioneta a dormir em vez de nos ouvir”, respondi. Ela concordou. Com alguma relutância deixámos aquele lugar.

Cabia a nós fazer a visita guiada ao Museu de Arouca. Uma breve lufada de ar fresco nos exaustivos dias de trabalho de campo. O grupo de hoje era uma turma de uma escola básica da região. A maioria das crianças distrai-se com facilidade e acaba por prestar pouca atenção às nossas apresentações. Acabamos por passar metade do tempo a avisar para não tocarem nas exibições. A minha única esperança é que, entre as poucas dezenas de alunos, haja pelo menos um interessado, sem medo de nos pôr à prova.

A turma de hoje parecia mais calma que as anteriores. Como era habitual gastámos algum tempo a explicar a origem das pedras parideiras e a mostrar-lhes alguns dos exemplares que pareciam maravilhar por breves instantes as suas jovens mentes. Enquanto ela os levava para a sala com os fósseis de trilobites, fui preparar o anfiteatro para a projecção de um pequeno documentário sobre os nossos estudos de campo.

Um rapaz franzino seguiu-me para colocar algumas questões. Já tinha reparado nele, era o que parecia mais atento do grupo. Perguntou-me sobre o que fazia, sobre o meu curso, também ele queria seguir as minhas pisadas. Sugeri alguns sites onde ele se podia informar e, antes de o levar para junto do resto da turma, disse: “Se o teu sonho for algo que te traga verdadeira felicidade, não desistas antes de o concretizares.”

Ao aperceber-me do forte impacto que teria na vida daquele rapaz, deixei-me envolver por um agradável sentimento de realização. São simples momentos como este que mudam o tom de qualquer dia.

Durante o filme, sentei-me ao lado da Sofia no fundo da sala. Contei-lhe a conversa que tive com aquele rapaz enquanto recordávamos alguns dos momentos passados durante as filmagens. “Não és um pouco novo para ser o mentor de alguém?” perguntou. “Talvez. Duvido que aquele rapaz se lembre de mim ou daquilo que lhe disse, mas quem sabe, talvez um dia ele nos venha a citar na sua tese de doutoramento.”

“A mim talvez, já tu, é outra história”, respondeu fixando o olhar na tela de projecção enquanto esboçava um expressivo gesto de contentamento. Fingi ignorá-la e imitei o seu recém-descoberto interesse pelo vídeo. Estava na parte em que explicava o processo da separação do fóssil da placa de xisto. Lembro-me bem daquela tarde. Cansados e cheios de pó após um longo dia de trabalho, acabámos por dar um mergulho numa das várias cataratas da Serra da Freita. Uma tarde diferente.

Passava pouco do meio-dia quando nos despedimos da turma. Almoçámos no centro, um pequeno restaurante com esplanada perto do convento. “Temos que aproveitar estes últimos dias de calor”, foi a desculpa que ela usou para me convencer a almoçar ali. Talvez um dia tenha que aprender a dizer não, mas hoje não é esse dia.

A mesma comida, o mesmo atendimento. “Estou a pensar levar umas fatias de pão-de-ló”, disse. “Prefiro o de Ovar”, respondeu. Diferente lugar, mas algumas coisas não mudam.

Chegámos ao centro museológico do Geoparque de Arouca pouco antes das duas da tarde. O resto da equipa já estava à nossa espera. A Sofia é do sul de Aveiro, desde pequena que teve uma forte paixão pela paleontologia. Terminada a licenciatura na Universidade de Lisboa, iniciou agora o doutoramento em parceria com a universidade de Madrid onde nos conhecemos. O estudo dela foca os vestígios paleozóicos do centro de Portugal.

É curioso como, embora tivéssemos passado grande parte das nossas vidas próximos um do outro, foi necessário ir para outro país de forma a, por fim, nos encontrarmos.

Passei as últimas semanas a ajudá-la com os trabalhos de campo. Já nos verões anteriores fizemos o mesmo em preparação das nossas teses. Daqui a um mês irei para a Lourinhã juntar-me ao Octávio Mateus e a mais um grupo de jovens investigadores. Também fui aceite no mesmo programa doutoral que ela, mas decidi seguir uma linha diferente de estudo. Durante os próximos meses irei assistir à recolha dos fósseis de uma nova espécie de saurópode similar ao Lourinhasaurus. Ela acabará por se juntar a mim, mas não podemos escapar a algumas semanas de separação. Dias como este são, assim, muito importantes.

Separámo-nos do resto do grupo em busca de novas áreas ainda por explorar. Recolhemos algumas amostras promissoras e preparávamo-nos já para regressar quando sugeri que fizéssemos uma pausa. Preparei um pequeno piquenique com alguns dos seus doces preferidos. Aguardámos durante horas, que na verdade não passaram de meros minutos, a fitar as belas paisagens da serra. Uma ligeira brisa acariciava o seu rosto. Com a sua face encostada sobre o meu peito, sentia as fortes batidas do meu coração, sinónimo de uma ligação mais profunda do que alguma vez podia ter imaginado.

Por um instante era como se o próprio tempo tivesse cedido à nossa vontade. O resto do mundo parecia não mais importar enquanto nos perdíamos um no outro.

Não tardou a regressarmos à realidade daquele dia. Regressámos para junto do grupo e continuámos o nosso trabalho. Ao fim do dia jantámos todos juntos novamente no centro da cidade. O mesmo jantar, pessoas diferentes.

Levei-a até casa. Pelo caminho mergulhámos num profundo oceano de milhares de conversas, todas elas a esconder simples palavras que ambos reconhecíamos no olhar um do outro. Ao despedir-me dela, fiquei para trás a observá-la enquanto se dirigia para a sua porta. Ela olhou para trás e sorriu. Senti uma forte necessidade de lhe dizer o que sentia, mas mesmo que as palavras ficassem por ser ditas, ela era capaz de as ler naquele simples gesto. Assim como eu as li no seu último relance antes de entrar.

Não era uma despedida. Amanhã voltaria a vê-la. Amanhã.

Regressei a casa. A mesma estrada, o mesmo carro, a mesma rotina. Deitei-me. A mesma noite, a mesma cama, um dia diferente, um pensamento diferente. Deixei-me adormecer, envolto na felicidade daquele dia, foi para ela o meu último pensamento. Mal podia esperar para acordar, para a ver, para voltar àquele lugar. Mal podia esperar para ver este sonho concretizado. Mal podia esperar.

O mesmo eu, um dia diferente, um mundo diferente, uma escolha diferente.

São simples os momentos que nos definem. Podem surgir por entre as linhas de um bom livro, na equação dos acordes de uma boa música, ou nas palavras de uma pessoa querida. Para mim foi um telefonema, dois minutos de conversa e um comum formulário.

Hoje, não é um dia diferente.

Publicado em 30 de Setembro de 2014

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Infinito

“Estou muito perto de casa, mas tão longe de ti”. Faltava pouco para o anoitecer, apenas o suave e contínuo ressoar das ondas do mar perturbava o silêncio daquela tarde. O cinzento das nuvens ameaçava chover e, apesar do tardar da hora, o sol não tinha ainda iniciado a sua descida até ao mais profundo dos horizontes. Miguel fitava o infinito, a sua face coberta por um vazio de expressão. Na sua mão um papel, branco, acariciado por uma ligeira brisa que teimosamente o tentava libertar do gentil aperto que ali o mantinha.

“Um simples papel é inútil até que alguém escreva nele”, pensava. Miguel procurou no bolso do seu casaco, lá aguardava uma caneta que há muito ansiava por usar. “Qualquer amor é inútil se ambos não estiverem dispostos a arriscar”, escreveu.

“Ontem estivemos próximos um do outro, podia sentir-te e sabia que estavas ali, mas não conseguia ver-te. Embora os nossos olhos nunca se tenham cruzado, hoje sei que também me sentiste. Pode apenas um dia, um simples momento, uma mera palavra, definir a nossa história?” Miguel escrevia, procurava nas suas palavras uma resposta a algo que não lhe cabia perguntar. Enquanto os seus dedos guiavam a caneta ao longo do papel, na sua mente permanecia apenas uma recordação.

“É tarde, não devo estar aqui”, dizia Sara, dirigindo-se mais para si própria do que para ele. Era uma noite como qualquer outra, após um longo dia juntos, encontravam-se agora sentados nas escadas do apartamento de Miguel. Falavam há horas sem nada dizer.

“Nem sempre o que devemos fazer é aquilo que temos de fazer”, respondeu ele. Sara esboçou um ligeiro sorriso enquanto os seus olhos calmamente se desviavam à procura dos de Miguel. Ele respondeu de igual forma, mas o seu sorriso rapidamente deu lugar a uma face de preocupação, na expectativa da conversa que se iria seguir.

“Porque não pode isto ser mais simples?”, perguntou.

“Por mais que eu queira… Por mais que queiramos que seja, simplesmente, não o é”, respondeu Sara sem um mero sinal de hesitação.

“Eu quero dizer-to, e ouvir-te a dizê-lo”.

“Eu também.”

“Parece-me bastante simples”, por um momento a voz de Miguel ameaçou falhar, enquanto os seus olhos se fixavam nos dela.

Aproximaram os seus lábios em antecipação do momento que ambos desejavam. Horas podiam ter passado enquanto os dois se deixavam afundar na ilusão de um amor impossível.

De regresso à fria realidade daquela noite, Miguel e Sara trocavam olhares como se estivessem envoltos numa longa conversa sem palavras. Para alguém que por ali passasse seria tão fácil identificar o diálogo inexistente entre estes dois, que não estranharia a falta de qualquer tipo de som.

Mas por mais que algumas coisas sejam, desde logo, entendidas por ambos, é necessário dizê-las com algo mais que um olhar.

“Não podemos continuar assim”, disse Sara quebrando o silêncio.

“Qualquer outra alternativa… É algo que eu não quero”, respondeu Miguel.

“Mas não estaremos os dois a enganar-nos com promessas vãs de algo que não pode acontecer?”

“Porque não pode acontecer?”

Sara suspirou, desviando o olhar para as suas mãos em busca das palavras que podiam tornar aquele momento menos doloroso. Não as encontrou.

“Porque apenas vivemos de momentos. Dias, horas, meros instantes que ocupam uma percentagem ínfima das nossas vidas”.

“Isso não é uma resposta, muito menos uma razão.”

“Amanhã não estaremos juntos, regressamos às nossas vidas, a realidades onde não existimos”.

“Tu existes na minha realidade, e eu na tua. Estamos juntos, aqui e agora, e amanhã podemos voltar a estar. De que vale deixarmo-nos definir por barreiras auto-impostas que apenas nos impedem de viver aquilo que mais desejamos?”

“Mas isto é tudo tão irreal… Tão platónico”, ela soluçou, reduzindo a sua voz a um mero suspiro.

“Como pode algo tão intenso ser apenas platónico? Como pode algo tão real não passar de uma mera ilusão?”

“Não sei, simplesmente, é”.

Sara continuava concentrada nas suas mãos, como se nelas guardasse a resposta. Embora algo dormente pela frieza das últimas palavras, Miguel prosseguiu com a discussão.

“Sara…”, dizer o nome dela sempre foi tarefa difícil, pois cada sílaba, cada letra, formava mais do que uma mera palavra, dizer o seu nome, dizê-lo ali, era, para Miguel, quase como dizer “amo-te” pela primeira vez. “Nós somos tão reais como tu, como eu, como estes degraus, como a noite que nos envolve, e por mais ilusórios que sejam os nossos desejos, são parte daquilo que nós somos”.

Suavemente colocou a sua mão sobre a dela, e encostou-a ao seu peito.

Cada batida do coração de Miguel era como um impulso que puxava para fora as palavras, a verdade que há muito reservava no interior do seu próprio coração.

Antes que Sara o pudesse dizer, antes que deixasse escapar aquilo que outras promessas a impediam de proferir, Miguel beijou-a.

Unidos, inseparáveis pelo mais intenso dos abraços, eram agora um só, partes iguais de um todo que não mais queriam ver desfeito.

Por mais perfeito que um momento seja, por mais que o desejo de ambos o prolongue, tudo tem o seu fim.

Sara agarrou com força o casaco de Miguel, e encostou a sua face ao seu peito. Embaraçada por esta falha para com as suas obrigações, deixou-se envolver por uma raiva incontrolável, largou-o e levantou-se, virando-lhe as costas.

Miguel já esperava esta reacção. Aguardou um pouco antes de a tentar acalmar.

“Não podemos continuar assim. Não posso continuar a fazer isto, não posso”, disse ela.

Sem hesitação, ele repostou: “Sim, amanhã tens que regressar à ilusão que preferes, em vez desta realidade”.

“Dizes isso com tamanha facilidade, falas em ligações, em destinos, em verdade. A verdade é que não me conheces, nem eu a ti”, respondeu Sara.

“Eu conheço-te, e tu a mim.”

“Dizes conhecer-me, mas não sabes as coisas mais simples sobre mim”, ripostou em tom de desafio.

“Posso não saber qual a tua bebida preferida, como tomas o teu café, posso não saber o nome do teu perfume, mas conheço-te de uma forma bem mais profunda. Sei que há dois lados em ti e que são ambos excelentes. O teu lado selvagem que usas como máscara para o resto do mundo, onde guardas os teus desejos, a tua vontade por uma vida intensa sob a égide do carpe diem, e o teu lado moderado que reserva uma rapariga doce e ao mesmo tempo pragmática, que acredita no amor mas com medo de se entregar a sério a alguém. Sei do teu passado, do lado escuro onde temes um dia regressar. Em verdade, és para mim um livro que tanto encontro aberto como fechado, guardas em ti os teus, os nossos segredos, e partilhas cada um sem o mínimo arrependimento.”

“Conheço-te Sara, e amo cada pormenor que faz de ti a mulher que hoje vejo à minha frente.”

Abalada pela sinceridade de Miguel, Sara teve que recorrer ao máximo das suas forças para conter o desejo de correr para os seus braços.

“Disseste-o”, finalmente, disse.

Ainda a recuperar o fôlego após esta confissão, Miguel respondeu simplesmente: “Sim.”

Nem ele podia adivinhar o que ia acontecer a seguir.

Sara fixou o seu olhar no dele, por uma última vez. Naquele momento, cientes do que tinham para dizer, falaram sem uma única palavra. Sara voltou-se, e desapareceu na escuridão da noite.

Miguel ainda demorou alguns minutos até se aperceber que estava agora sozinho em frente ao seu apartamento. Os degraus onde ainda há pouco ambos se tinham sentado a partilhar os pormenores mais íntimos dos seus corações, estavam agora tão vazios como aquela gélida noite primaveril.

A folha em que Miguel escrevia não era suficiente para tudo aquilo que ele tinha para dizer, mas por agora teria que servir.

Letra após letra, palavra após palavra, Miguel depressa chegou à última linha do papel que guardava entre os dedos. Embora para ele todo aquele processo tivesse demorado apenas breves instantes, foram na verdade horas que separaram a primeira da última palavra daquele texto tão precocemente criado.

Leu-o uma, duas, vezes suficientes até lhes perder a conta. O sol ainda se punha no horizonte, a noite timidamente relutante em tomar conta dos céus, quando Miguel guardou o papel e a caneta no bolso do casaco. Ali se manteve por mais alguns minutos, quieto, vazio de pensamento, a fitar o infinito.

Ao levantar-se para regressar a casa, reparou numa ténue figura ao longe na entrada da praia. Estaria ali a fitá-lo há horas, pensou. Talvez tivesse apenas agora chegado e com a curiosidade típica de qualquer um, estranhado a presença de alguém tão afastado do resto do mundo, numa hora como esta.

Miguel começou a andar. A figura mantinha-se estática como que presa aos seus movimentos. Quando finalmente a alcançou, fitou-a de igual modo, e não a reconheceu, passou ao lado, determinado a partir quando a voz daquela figura o deteve.

“Ontem não te vi, mas sabia que estavas lá.”

Ele permaneceu parado. Ambos de costas um para o outro com o olhar fixo no horizonte.

“Na outra noite, estava errada, pois tu conheces-me, e eu a ti.”

Miguel serrou as mãos impedindo-se, a custo, de revelar qualquer emoção.

“Tu também tens dois lados, que ambos adoro. O teu lado desinteressado que vê a vida como uma contínua rotina de coisas desnecessárias, animada por esporádicos momentos como aqueles que partilhamos. O lado que não tem medo de arriscar tudo por aquilo que acreditas como sendo verdade. E o teu lado emocional, que se reserva por detrás de um receio de te entregares e saíres magoado, mas que ao mesmo tempo alimenta uma forte crença no amor, num amor capaz de destroçar qualquer barreira por mais irracional que tal tarefa aparente ser. Ambos partilhamos o lado escuro, com origens diferentes, é certo, mas onde a luz igualmente não brilha. Temes cair nesse poço tanto ou mais como eu. Somos diferentes e ao mesmo tempo iguais. Conheço-te Miguel, e é por tudo isto, por ti, por nós, que eu também te amo.”

Sem saberem ao certo como ali chegaram, tão depressa estavam separados como agora se encontravam unidos em mais um abraço profundo. Enquanto lágrimas de alegria escorrem pelos olhos de ambos, Miguel e Sara trocam um sorriso que dá por terminada a longa tempestade que os assombrou nos últimos tempos.

Como que à espera deste encontro, o Sol surge finalmente por entre as nuvens, pintando de laranja o céu tardio.

Abençoados por esta surpresa divina, perdem um momento a contemplar o reluzir do mar sob a luz do final de tarde. Miguel limpa as lágrimas da face de Sara e beija-a. O primeiro beijo do resto das suas vidas.

E o texto que Miguel guardava no bolso do casaco? Larga-o agora, livre na brisa vespertina. Palavras soltas ao vento, com destino incerto, para sempre ilustradas no eterno amor que ambos agora partilham.

Publicado em 29 de Agosto de 2013