sábado, 8 de outubro de 2011

Os Cinco Estágios de Luto

Passava pouco das nove da manhã. Miguel olhava pela janela para a rua iluminada por um branco matinal, típico do sol de uma manhã de Outubro. A luz penetrava pela janela semi-aberta do escritório, realçando o sofá onde Miguel aguardava pela consulta. Um homem observava-o na penumbra oposta do outro lado da sala. Os dois trocaram um olhar enquanto Miguel saboreava os últimos momentos do cigarro que segurava entre os dedos.

“Aqui tem”, disse o homem oferecendo-lhe um cinzeiro.

Miguel expirou lentamente deixando o fumo desvanecer-se pelo ar com a leveza de uma clara neblina. Enquanto esmagava as cinzas na base do cinzeiro, o seu olhar voltou a desviar-se para o homem do outro lado da sala. Um silêncio de antecipação abateu-se pelo escritório.

Miguel foi o primeiro a falar.

“Por onde quer que comece?”, perguntou.

“Não existe qualquer regra estabelecida, mas como na maioria das histórias, pode sempre começar pelo início.”

“Permita-me então que contrarie a norma e que comece pelo fim.”

“Como desejar.”

“Há cinco estágios de luto…”

“De morte”, interrompeu o homem.

“Ambos dependem da perspectiva, do sujeito que a vive. Embora se tratem de dois estados diferentes, têm ambos o mesmo objectivo. Seguir em frente, e aceitar a necessidade de o fazer.”

“Podemos colocar as coisas dessa forma, mas não se esqueça que são dois tipos distintos de aceitação.”

“Talvez, mas não concorda que no fundo ambos os percursos procuram apenas ensinar-nos a conviver com a inevitabilidade do nosso destino?”

O homem ponderou por um momento e assentiu.

“Como estava a dizer, há cinco estágios de luto. O primeiro é a negação.”

“O estágio em que actualmente se encontra?”

Sem se aperceber, Miguel brincava com o seu isqueiro por entre os dedos. Observou este acto involuntário das suas mãos por alguns instantes, antes de se dirigir novamente ao homem.

“Acho que parte dos motivos que me trouxeram aqui hoje, foi o senhor ajudar-me a descobrir em que estágio me encontro.”

“De facto posso ajudá-lo, mas preciso de mais informação.”

Miguel retomou a sua história.

“Negação. Talvez seja esta a melhor fase. Mantemos a esperança de que as coisas possam ainda melhorar. Sair da cama faz-nos pensar que o novo dia pode trazer algo melhor. Que tudo não passou de um pesadelo. Mas como o próprio nome indica, tudo isso não passa de uma doce mentira que contamos a nós próprios para que a dor não seja tão forte.”

A sua expressão manteve-se séria, inalterável. O homem observava-o, incentivando-o a continuar.

“É só uma fase, vai passar. Os seus níveis hormonais estão desregulados. Afinal a página da Wikipédia dizia que paranóia era um dos sintomas mais comuns. O Verão nunca foi uma boa estação para mim, quando regressar o Outono voltaremos a ser felizes. A minha sensibilidade à luz faz com que me veja obrigado a semicerrar os olhos o que me torna menos atraente. Afinal o amor supera tudo, não é? Quando se ama alguém é para sempre e nada pode mudar isso. A mulher por quem me apaixonei continua lá, algures. Ela voltará a ser a mesma.”

Miguel falava para o vazio, ignorando a presença do homem.

“Pequenas mentiras racionais que contamos a nós próprios para fazer com que tudo fique melhor. Mas não fica. A dor continua lá e o passar do tempo apenas alimenta esse sofrimento.”

“Como está a lidar com esse sofrimento?”

Miguel respirou fundo, pensando em silêncio. O seu olhar desviado para a janela do escritório. Segurava o isqueiro na sua mão direita, acendendo-o durante curtos intervalos.

“Às vezes gosto de pensar que saltei a negação, fodi todos os outros estágios e mantive-me na raiva, deixando-a apoderar-se de mim até que cada centímetro do meu corpo se tornasse dormente”, responde, deixando sair um riso irónico.

“Descreva-me essa raiva.”

“Raiva. Segundo estágio. Ódio. Frustração. Sentimento de impotência para com tudo. Como se atreve a questionar os meus sentimentos por ela? Porque é que se limita a pegar em ridículos e insignificantes pormenores? Como pode alguém se esquecer de todos os momentos bons que passámos, de como éramos felizes e apenas insistir em dois ou três episódios maus que podiam ser tão facilmente apagados por uma fracção dos dias em que fomos felizes? Porque tenho que levar com esta barreira irracional que a impede de ver a simples verdade do nosso amor?”

Sem se ter apercebido, Miguel lançou o isqueiro para o outro lado da sala. As suas mãos, agora nuas, seguravam a sua face, impedindo em esforço, como uma frágil barragem, o fluxo de lágrimas que os seus olhos pareciam ameaçar.

O homem continuava a observá-lo serenamente.

“Quer contar-me o que se passou?”, perguntou.

“Não. Certas histórias precisam do momento certo para serem contadas.”

“Este não é o momento certo?”

Miguel compôs-se e voltou a fitar o vazio por alguns instantes. “Não”, respondeu, finalmente.

O homem assentiu, enquanto anotava algo no seu bloco de notas.

“Suponho que queira falar sobre a negociação.”

“Pensava que já tinha acordado o preço com a sua secretária.”

O homem sorriu, surpreso pela breve centelha de humor. “Continue.”

“Terceiro estágio. Negociação. Talvez o mais humilhante. Tão útil como lançar uma garrafa de oxigénio para uma casa em chamas na esperança de as apagar.”

Miguel pausou por alguns segundos antes de continuar. O homem ofereceu-lhe um copo de água que ele aceitou com gratidão.

“Pensei para mim próprio”, continuou. “Talvez se eu mudasse, talvez se ela me desse mais uma oportunidade de lhe provar como podemos voltar a ser felizes. Basta estarmos juntos, ela vai voltar a senti-lo. Se eu implorar, se eu bradar aos céus o que sinto por ela, talvez aí…”

Hesitou, inseguro sobre o que estava prestes a revelar.

“Uma noite cheguei mesmo a rezar, a pedir que ela desse ouvidos ao seu coração e que de alguma forma encontrasse a calma de espírito necessária para quebrar a sua lógica destrutiva e voltar a ser feliz comigo. Um último acto de desespero…”

O homem observou Miguel pensativamente antes de falar.

“Recorrer a uma entidade superior quando nos sentimos impotentes e nada mais temos onde nos apoiar, faz parte da condição humana. Não é algo do qual deva ter vergonha.”

Miguel anuiu.

“Foi nesse momento que percebi que nada mais havia a fazer. Por mais que me quisesse convencer do contrário, por mais que me quisesse agarrar a uma réstia de esperança, nada mais podia fazer.”

“Quarto estágio”, disse o homem.

“Depressão”, respondeu.

“Por mais romântico que fosse, por mais poemas que escrevesse, por mais canções que lhe cantasse, nada iria mudar. Embora não tivesse feito nada de mal…”, parou, hesitante.

“Aliás, embora tenha errado em certos aspectos, quando não se comete um ‘crime’ específico, algo objectivo que seja capaz de ser remediado, que seja capaz de ser perdoado, nada há a fazer. Nada há a fazer, quando o problema és tu, a forma como te vês, como és, como sentes, como vives. Quando o teu único erro é a tua maneira de estar, e de ver o mundo, nada podes fazer. Nada podes fazer a não ser…”

As primeiras lágrimas escorriam pelo seu rosto enquanto ele voltava a olhar através da janela semi-cerrada.

“A não ser?”, perguntou o homem.

Miguel limpou as lágrimas dos seus olhos, calmamente dirigindo o seu olhar para o homem.

“Aceitar.”

“Quinto e último estágio”, respondeu.

“Já estive em baixo, antes. Normalmente dormia durante horas a fundo sem qualquer vontade de me levantar da cama, mas não agora. Mal consigo dormir. Embora tenha alguma facilidade em adormecer, acordo muito antes da minha hora habitual e levanto-me quase de seguida. Apesar das poucas horas de sono, é raro sentir-me exausto ao fim do dia. Para ser sincero, é raro sentir seja o que for.”

“Acha que ainda se encontra no quarto estágio?”

“Sim. Não estou preparado para seguir em frente, não sou capaz de aceitar a ideia de que a perdi para sempre. De esquecer todos os planos que tínhamos, todas as coisas que não fizemos. De apagar toda a imagem de um futuro juntos. Tenho saudades dela, do seu olhar, do seu sorriso, do seu cheiro, do seu toque… Tenho saudades do seu amor. Tenho saudades da nossa felicidade.”

Miguel rompeu em lágrimas e deixou-se cair no chão do escritório. O homem aproximou-se para o consolar, oferecendo um lenço de papel. Durante alguns minutos, ficaram ambos ali. O silêncio da sala era apenas interrompido pela respiração ofegante de Miguel.

“Estes ataques de ansiedade são-lhe frequentes?”

“Uma vez por dia, pelo menos”.

O homem assentiu anotando no bloco de notas.

“Parece-me que compreende perfeitamente qual o próximo passo a tomar.”

“Seguir em frente.”

O homem esboçou um sorriso de concordância.

“É bem mais fácil dizer que fazer”, responde.

“Por mais que eu queira que a dor acabe. Sinto a necessidade de compreender o que se passou, de saber porque é que tudo isto aconteceu. Éramos tão felizes, tudo parecia tão certo.”

O homem ponderou por alguns segundos antes de responder.

“A palavra-chave nesse frase é ‘parecia’. Talvez tenha razão. Talvez apenas se tenha tratado de algo que aconteceu de um dia para o outro, talvez ela apenas não se tenha sentido à vontade para partilhar consigo o que se estava a passar. Independentemente disso, o que é importante para si neste momento não é procurar as razões que o trouxeram aqui, mas sim redescobrir a sua autoconfiança, aceitar que ela o magoou e sentir-se capaz de seguir em frente para encontrar alguém que seja capaz de o amar por quem é, sem que sinta a necessidade de mudar. O seu futuro passa por alguém que o aceite, e com quem se sinta à vontade para ser real a si próprio.”

Sentindo-se melhor, Miguel compôs-se e sorriu.

O homem olhou para o relógio, já passava da hora que tinham combinado.

“Muito obrigado”, disse Miguel enquanto se despedia do homem.

“Nunca subestime o poder do respeito por si próprio. Ser capaz de aceitar tudo aquilo que faz de si alguém único, é o primeiro passo para a aceitação do seu próprio destino.”

Miguel esboçou um último sorriso antes de sair.

“Quinto estágio”, disse, enquanto saía do escritório para regressar a casa. O sol outonal ainda brilhava com intensidade, iluminando um novo dia cheio de oportunidades escondidas ao virar de cada esquina.

Miguel respirou fundo e regressou a casa com um sentimento de paz lentamente a apoderar-se do seu corpo, consolando, a cada passo, a dor que pesava no seu coração.

Publicado em 8 de Setembro de 2013

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

A Morte do Herói

Enquanto o Sol se escondia sob a penumbra de um céu enegrecido pelas chamas que queimavam os últimos centímetros de atmosfera, em fúteis tentativas de travar o eminente juízo final que se abatia sobre a Terra, apenas um homem inutilmente se impunha na zona de impacto. Miguel contava os segundos para o fim. Rodeado por uma imensidão de nada os seus últimos pensamentos iam para ela e para a simples claridade de uma única certeza: estava verdadeiramente só.

Os seus olhos disparavam em todas as direcções, em busca de um vulto, de qualquer sinal de movimento, agarrando-se à mais ínfima réstia de esperança, à fé nas palavras de uma velha promessa. Mas nada. As próprias árvores pareciam preparar-se para esta inevitável conclusão. Nada se movia naquela clareira além dos gestos de antecipação deste imprudente rapaz. A solidão deu lugar a breves lágrimas, supridas pela inquietação de uma calma aterradora, típica de alguém refém do seu próprio destino.

Miguel fechou os olhos saboreando o seu último fôlego. Virou a cabeça para cima e abriu-os. Nestes seus últimos segundos, não deixou de se admirar com a irónica beleza da visão que assolava este céu infernal. Ao preparar-se para o choque, viu, por uma última vez, a única memória que ainda lhe restava de um tempo em que era feliz. “Sara…”, com um suspiro largou a sua derradeira palavra, espelho das recordações de uma vida que agora termina. Cerrou novamente os olhos para não mais os abrir.

Ao acordar no chão daquele velho terraço, Miguel levantou-se em um sobressalto. Impulsionado pela chuva que ardia na sua face. Cada gota como uma gélida facada penetrante. Viu-se forçado a cambalear até ao parapeito mais próximo, ainda atordoado pelo choque da queda.

Ele ainda estava ali, o mesmo vulto negro que o tinha espancado até um ponto de quase inconsciência. Agarrava Sara nos seus braços com a arma apontada à sua cabeça. As forças escapavam a Miguel mas tinha que fazer alguma coisa. Não a podia deixar morrer, não ali, não agora, não pelas mãos daquele monstro.

O vulto parecia gabar-se pela vitória alcançada. A rebentação de um relâmpago no horizonte ilumina por breves momentos o breu da noite. Miguel consegue ver com clareza a cara do seu rival. Um sorriso histérico de compreensão, banhado por lágrimas de ódio, ocupa agora a sua face.

“O que pensas que estás a fazer”, grita.

O negro vulto vira-se para ele, espantado por este ainda ter energia para falar.

“Faço aquilo que tem que ser feito. Algo além da tua compreensão”, responde em tom condescendente como se falasse para uma criança irreverente.

A raiva cresce à medida que o coração de Miguel acelera. O vulto coloca o dedo no gatilho e prepara-se para disparar.

“Adeus.”

Num acto mecânico e inconsciente, Miguel reúne todas as suas forças e ataca o vulto antes deste disparar. A adrenalina que toma agora conta do seu sangue deu-lhe energia para percorrer os metros que os separavam em meros segundos. A força do embate foi tão grande que Sara saiu disparada contra o parapeito, enquanto os dois se lançavam para o vazio.

Miguel conseguiu agarrar-se a uma laje. O seu braço cambaleava com o peso do seu corpo. O vulto negro tinha desaparecido na escuridão da noite. Também Miguel começava a escorregar.

Sara acorda combalida pelo choque. Aproxima-se do parapeito onde Miguel se encontrava.

“Como sei que és tu e não ele?”, pergunta-lhe.

“Deixa o teu coração dar-te a resposta”, responde.

Sara estica os braços para tentar puxar Miguel. A distância entre o parapeito e a laje deixa-a a meros centímetros de o poder ajudar. Mesmo assim, Sara tenta, incapaz de aceitar este desfecho.

“Aguenta, eu vou buscar ajuda”, diz-lhe em desespero.

“Não, não vale a pena, não aguento muito mais”. Ditas estas palavras o seu braço começa a ceder, o esforço inumano de suportar todo o seu peso, aliado ao desgaste do choque com o seu rival são mazelas fatais para a tarefa agora apresentada.

“Sara, eu…”, o esforço força-o a largar antes de concluir a frase. A rebentação dos relâmpagos como que lhe oferecem uma breve benesse, ao iluminar a face de Sara por uma última vez.

Ao cair em direcção ao vazio, Miguel guarda em si uma última certeza. Nunca esteve tão calmo, nunca esteve tão em paz, nunca foi tão feliz. “Sara, agora irei voar”.

O avião preparava-se para descer em direcção ao aeroporto. A viagem já ia longa. Miguel contemplava o céu coberto por um mar de nuvens do mais branco que já tinha visto, prolongando-se ao longo do horizonte.

À medida que o avião atravessava a camada de nuvens, Miguel começou a aperceber-se da precipitação que se acumulava na janela de uma das saídas de emergência sobre a asa, mesmo ao lado de onde ele se encontrava.

Nada fora do normal, não fossem algumas gotas terem começado a escorrer através da janela. A porta estava a perder a sua pressurização.

Miguel tenta chamar a assistente de bordo em vão. O sinal de apertar os cintos de segurança já estava ligado, o avião estava prestes a aterrar e nada mais podia ser feito.

Quando o solo surgiu por entre a espessa camada de nuvens, já a porta tinha começado a ceder. O avião descaía sobre o seu lado esquerdo, descendo a alta velocidade em direcção ao aeroporto. Uma turbulência anormal realçava o ar de apreensão na face dos passageiros.

A própria voz do piloto tremia de nervosismo ao anunciar a aproximação da aterragem. Miguel continuava a olhar pela janela como se não quisesse perder um único pormenor da catástrofe iminente. O avião roçava a copa das árvores, sem diminuir a velocidade.

Já se desenhava a silhueta do aeroporto no horizonte quando a porta rebentou, a pressão de ar puxava Miguel para fora. Preso apenas pelo cinto de segurança, Miguel era testemunha de uma dança de revistas, malas, papéis e canetas a passar rente à sua cara, sugados para o vazio onde ainda há instantes estava uma porta de emergência.

O avião aterrou na pista sobre o lado esquerdo, a asa raspou na pista e partiu-se a meio. A electricidade estática provocada pelo choque fez com que o combustível da asa se incendiasse. O avião derrapou ao longo da pista sem controlo. Miguel manteve-se no seu lugar, evitando os fumos tóxicos que invadiam a cabine.

Sob gritos de morte, fechou os olhos e deixou-se cair na inconsciente graciosidade das suas memórias. Sentiu o seu toque, cheirou o seu cabelo, no seu derradeiro momento de existência viu-a por uma última vez. Chamou-a para os seus braços e deixou-se perder no seu calor.

Sara observava o desastre na gare. Quando o avião finalmente parou a poucos metros da pista de embarque, deixou-se cair em lágrimas assolada por uma terrífica incredulidade. Por um instante sentiu uma mão familiar a confortá-la e aceitou o seu abraço. Quando voltou a abrir os olhos, o avião continuava a arder. Estava só. Apenas só.

Passava pouco das onze da noite. Miguel aguardava no esporão há cerca de duas horas. “Estarei lá. No mesmo local onde fizemos aquela promessa”, já perdia as contas às vezes que tinha lido a última mensagem de Sara.

As horas passavam sem qualquer sinal dela. Miguel aproximou-se da ponta do esporão. “Só mais um pouco”, disse.

Fechou os olhos. O vento envolvia-o num abraço ameno, típica brisa outonal que trazia consigo ainda algum resquício do calor de Verão.

O céu límpido era apenas perturbado por uma ocasional estrela cadente. O desejo, esse, era sempre o mesmo. Apenas mais um momento com ela, poder voltar a segurá-la nos seus braços. Só mais uma oportunidade de mostrar o amor que sente por ela, de o dizer abertamente, sem hesitações, sem mais barreiras ou restrições. Uma última oportunidade de serem apenas um.

Meia-noite. Miguel abriu finalmente os olhos. Suspirou uma última vez antes de olhar em seu redor. Nada. Despiu o casaco, descalçou os sapatos e as meias. Pousou o telemóvel ao seu lado. Nas mãos guardava uma foto de Sara com ele. “Parece ter sido noutra vida”, pensou.

Segurou a foto próxima do seu coração e deixou-se cair.

No ecrã do seu telemóvel reluzia ainda a última mensagem que Sara enviou. A data era de há um ano atrás. Antes do acidente, antes da sua morte. Quando Miguel e Sara ainda eram felizes.

Publicado em 3 de Setembro de 2013

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

XXI

Medo
Palavra escrita nas entrelinhas,
De diálogos ensaiados por estranhos desconhecidos.
Escuridão de ignorância,
Banhada em ouro derretido pela podridão.

Medo
Sentimento negro de aventura,
No breu de uma estrada coberta pela noite.
Terríveis grunhidos de loucura,
Rodeados por árvores caducas de maldição.

Medo
Incertezas de amanhãs,
Emergidas em lama visceral.
Gritos de morte,
Sob silêncios assolados por um nada temeroso.

Medo
Carnívoras intenções,
Auto-flageladas por desejos nervosos.
Escondidos do mais simples olhar,
Em segredos restritos de violações.

Medo
Amor descoberto,
Por uma entrega divinal.
Racionalidades fictícias de certezas incoerentes,
Perdidas em ansiedades de desejos mortais.

Medo
Do futuro, do passado,
De um presente de felicidade.
Receio pelo belo, pela verdade,
Apreensão de amar, apreensão de errar.

Medo
Palavra que nada faz,
Que existe e apenas o é.
Sentimento bloqueador, por entre amarras de calor,
Cuja dor de nada vale, de nada é.

Publicado em 11 de Setembro de 2013

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

XX

Imagem apagada, de um caminho deserto,
Ancestrais pegadas, perdidas no vento.
Espaços vazios. Nada.

Realidade imaginária, nunca questionada,
Sopros de silêncio, pela noite abafados.
Viagens por partir. Nada.

Cidades escuras, de idiomas ausentes,
Carentes ruínas, ainda por escrever.
Tempos perdidos. Nada.

Sonetos antigos, sem palavras, nem verbo,
Desenhos gastos, por livros encobertos.
Sonhos esquecidos. Nada.

Mortes insípidas, vazias de dor,
Vidas corridas, cegas por amor.
Histórias em branco. Nada.

Nomes deixados, algures no horizonte,
Passados vencidos, derrotas sem sabor.
Saberes desleixados. Nada.

Cansaço eterno, por saúdes prometidas,
Mentes adormecidas, sem onda, nem valor.
Projectos parados. Nada.

Esperança contínua, sem sentido de razão,
Preces ouvidas, sem pedido, ou decisão.
Águas retraídas. Nada.

Tudo, em um todo, apenas,
Paradoxos eloquentes, de parágrafos roubados.
Poemas iletrados. Nada.

Certezas antes vistas, no incerto do destino,
Runas indecisas, por um fado caótico.
Letras encobertas. Nada.

Sentimentos guardados, na ânsia do porvir,
Futuros inesperados, no limite de desistir.
Corações partidos. Nada.

Doces Novembros, há muito vividos,
Nunca esquecidos, hoje partilhados.
Amor por viver. Dias por receber.
Nada, é tão simples.
Nada, que tudo é. Tudo.

Publicado em 9 de Setembro de 2013

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Decisões

“Todos os dias somos confrontados com pequenas decisões, momentos que definem a direcção do nosso caminho.” Um telefonema, uma breve conversa e quatro anos volvidos, hoje é um dia diferente.

Os primeiros raios de sol abrem caminho pelas persianas, envolvendo o meu quarto aos poucos numa suava carícia de calor matinal. Acordo pouco antes da hora que programei no despertador. Enquanto aguardo que este desperte mergulho na fantasia de um dia diferente. Um dia como hoje.

A mesma hora, a mesma música. “Talvez esteja na hora de mudar a estação de rádio, já há uns tempos que não consigo apanhar o ‘Café da Manhã’”, penso. O mesmo banho, as mesmas roupas, o mesmo pequeno-almoço. As rotinas dão-me conforto, são seguras e estáveis. Aconteça o que acontecer posso sempre contar com elas.

Pego no meu telemóvel, nada de novo. Questiono-me se devia continuar a adiar a compra de um novo, ter a caixa de mensagens sempre cheia já começa a irritar. Saio de casa. A mesma porta, as mesmas chaves, o mesmo carro. Talvez não o mesmo, a cor é diferente. Mantém ainda o tom original, um verde-água sinónimo da sua experiência, marcado pelos longos quilómetros de estrada já percorridos. Hoje tem ainda mais alguns para fazer.

É bom estar de regresso a casa. Após estes últimos anos em constante viagem é bom ter um lugar para guardar as malas, dormir numa cama já bem familiar e fazer-me à estrada sem precisar de um mapa.

A viagem, essa, indispensável desde o meu regresso, é já ela mais um mero percurso rotineiro que, não fosse pela imprevisibilidade do trânsito, faria de olhos fechados.

Chego a Arouca pouco antes das nove e meia. Cidade diferente. Entro no café do costume onde a vejo a tomar o pequeno-almoço. Um croissant e uma meia de leite, também ela criatura de rotinas. “Se apenas esse leite fosse de soja podias ser perfeita”, digo-lhe com um sorriso. Ela limita-se a olhar-me de relance fingindo ignorar-me. Sento-me ao seu lado a aguardar a sua reacção. “De todos os cafés em todo o Mundo, tinhas que entrar no meu”, acaba por dizer. Beijamo-nos. Um beijo, também ele rotina, não fosse pela constante novidade de emoções que este momento desperta. Cada vez, único.

O seu nome é Sofia. Conheci-a há anos. Partilhávamos o mesmo sonho. Tomámos a mesma decisão, mas em cidades diferentes. Eu no Porto, ela em Lisboa. Lugar-comum nestas histórias. Nada de novo. Há dois anos, o destino, ou talvez uma mera coincidência entre duas pessoas que escolheram o mesmo ano para fazer Erasmus, ditou que nos encontrássemos em Madrid.

Conhecemo-nos quando já nos tínhamos esquecido um do outro. Conhecemo-nos no momento certo. “Assim estava escrito”, disse-lhe pouco após o nosso primeiro beijo. Ela sorriu. O mesmo sorriso.

“Vamos chegar atrasados”, disse. “Deixa-os esperar, a maioria deles prefere continuar na camioneta a dormir em vez de nos ouvir”, respondi. Ela concordou. Com alguma relutância deixámos aquele lugar.

Cabia a nós fazer a visita guiada ao Museu de Arouca. Uma breve lufada de ar fresco nos exaustivos dias de trabalho de campo. O grupo de hoje era uma turma de uma escola básica da região. A maioria das crianças distrai-se com facilidade e acaba por prestar pouca atenção às nossas apresentações. Acabamos por passar metade do tempo a avisar para não tocarem nas exibições. A minha única esperança é que, entre as poucas dezenas de alunos, haja pelo menos um interessado, sem medo de nos pôr à prova.

A turma de hoje parecia mais calma que as anteriores. Como era habitual gastámos algum tempo a explicar a origem das pedras parideiras e a mostrar-lhes alguns dos exemplares que pareciam maravilhar por breves instantes as suas jovens mentes. Enquanto ela os levava para a sala com os fósseis de trilobites, fui preparar o anfiteatro para a projecção de um pequeno documentário sobre os nossos estudos de campo.

Um rapaz franzino seguiu-me para colocar algumas questões. Já tinha reparado nele, era o que parecia mais atento do grupo. Perguntou-me sobre o que fazia, sobre o meu curso, também ele queria seguir as minhas pisadas. Sugeri alguns sites onde ele se podia informar e, antes de o levar para junto do resto da turma, disse: “Se o teu sonho for algo que te traga verdadeira felicidade, não desistas antes de o concretizares.”

Ao aperceber-me do forte impacto que teria na vida daquele rapaz, deixei-me envolver por um agradável sentimento de realização. São simples momentos como este que mudam o tom de qualquer dia.

Durante o filme, sentei-me ao lado da Sofia no fundo da sala. Contei-lhe a conversa que tive com aquele rapaz enquanto recordávamos alguns dos momentos passados durante as filmagens. “Não és um pouco novo para ser o mentor de alguém?” perguntou. “Talvez. Duvido que aquele rapaz se lembre de mim ou daquilo que lhe disse, mas quem sabe, talvez um dia ele nos venha a citar na sua tese de doutoramento.”

“A mim talvez, já tu, é outra história”, respondeu fixando o olhar na tela de projecção enquanto esboçava um expressivo gesto de contentamento. Fingi ignorá-la e imitei o seu recém-descoberto interesse pelo vídeo. Estava na parte em que explicava o processo da separação do fóssil da placa de xisto. Lembro-me bem daquela tarde. Cansados e cheios de pó após um longo dia de trabalho, acabámos por dar um mergulho numa das várias cataratas da Serra da Freita. Uma tarde diferente.

Passava pouco do meio-dia quando nos despedimos da turma. Almoçámos no centro, um pequeno restaurante com esplanada perto do convento. “Temos que aproveitar estes últimos dias de calor”, foi a desculpa que ela usou para me convencer a almoçar ali. Talvez um dia tenha que aprender a dizer não, mas hoje não é esse dia.

A mesma comida, o mesmo atendimento. “Estou a pensar levar umas fatias de pão-de-ló”, disse. “Prefiro o de Ovar”, respondeu. Diferente lugar, mas algumas coisas não mudam.

Chegámos ao centro museológico do Geoparque de Arouca pouco antes das duas da tarde. O resto da equipa já estava à nossa espera. A Sofia é do sul de Aveiro, desde pequena que teve uma forte paixão pela paleontologia. Terminada a licenciatura na Universidade de Lisboa, iniciou agora o doutoramento em parceria com a universidade de Madrid onde nos conhecemos. O estudo dela foca os vestígios paleozóicos do centro de Portugal.

É curioso como, embora tivéssemos passado grande parte das nossas vidas próximos um do outro, foi necessário ir para outro país de forma a, por fim, nos encontrarmos.

Passei as últimas semanas a ajudá-la com os trabalhos de campo. Já nos verões anteriores fizemos o mesmo em preparação das nossas teses. Daqui a um mês irei para a Lourinhã juntar-me ao Octávio Mateus e a mais um grupo de jovens investigadores. Também fui aceite no mesmo programa doutoral que ela, mas decidi seguir uma linha diferente de estudo. Durante os próximos meses irei assistir à recolha dos fósseis de uma nova espécie de saurópode similar ao Lourinhasaurus. Ela acabará por se juntar a mim, mas não podemos escapar a algumas semanas de separação. Dias como este são, assim, muito importantes.

Separámo-nos do resto do grupo em busca de novas áreas ainda por explorar. Recolhemos algumas amostras promissoras e preparávamo-nos já para regressar quando sugeri que fizéssemos uma pausa. Preparei um pequeno piquenique com alguns dos seus doces preferidos. Aguardámos durante horas, que na verdade não passaram de meros minutos, a fitar as belas paisagens da serra. Uma ligeira brisa acariciava o seu rosto. Com a sua face encostada sobre o meu peito, sentia as fortes batidas do meu coração, sinónimo de uma ligação mais profunda do que alguma vez podia ter imaginado.

Por um instante era como se o próprio tempo tivesse cedido à nossa vontade. O resto do mundo parecia não mais importar enquanto nos perdíamos um no outro.

Não tardou a regressarmos à realidade daquele dia. Regressámos para junto do grupo e continuámos o nosso trabalho. Ao fim do dia jantámos todos juntos novamente no centro da cidade. O mesmo jantar, pessoas diferentes.

Levei-a até casa. Pelo caminho mergulhámos num profundo oceano de milhares de conversas, todas elas a esconder simples palavras que ambos reconhecíamos no olhar um do outro. Ao despedir-me dela, fiquei para trás a observá-la enquanto se dirigia para a sua porta. Ela olhou para trás e sorriu. Senti uma forte necessidade de lhe dizer o que sentia, mas mesmo que as palavras ficassem por ser ditas, ela era capaz de as ler naquele simples gesto. Assim como eu as li no seu último relance antes de entrar.

Não era uma despedida. Amanhã voltaria a vê-la. Amanhã.

Regressei a casa. A mesma estrada, o mesmo carro, a mesma rotina. Deitei-me. A mesma noite, a mesma cama, um dia diferente, um pensamento diferente. Deixei-me adormecer, envolto na felicidade daquele dia, foi para ela o meu último pensamento. Mal podia esperar para acordar, para a ver, para voltar àquele lugar. Mal podia esperar para ver este sonho concretizado. Mal podia esperar.

O mesmo eu, um dia diferente, um mundo diferente, uma escolha diferente.

São simples os momentos que nos definem. Podem surgir por entre as linhas de um bom livro, na equação dos acordes de uma boa música, ou nas palavras de uma pessoa querida. Para mim foi um telefonema, dois minutos de conversa e um comum formulário.

Hoje, não é um dia diferente.

Publicado em 30 de Setembro de 2014