segunda-feira, 16 de setembro de 2013

XXII

Todas as luzes no céu são estrelas (título original)

Um sentimento de Fogo cresce.
Dentro de mim,
Uma chama acesa,
Solitária, luta contra a escuridão.

Fogo. Que se alimenta de emoções,
Não de Ira, Raiva, Amor ou Paixão.
Mas de uma voz, uma voz que grita,
Que anseia por Resolução.
Por se fazer ouvir,
Por Determinação.

Chama que consome.
Envolve a penumbra,
Ilumina o Universo,
E cresce.

Cresce, consome.
Aquece tudo em seu redor,
Penetra pelas paredes, da sua própria existência.
Arrebata as redes da sua Negação,
Propaga o seu alcance,
Até ao extremo do seu lar.

Ultrapassa-se a si própria.
Liberta-se das amarras.
Amarras que a detém,
Nós cegos, por si feitos.
Feitos, assim. E por si, enfim Desfeitos.

Chama interior,
Nascida estrela,
Vive, olvidada, envolta em escuridão.
Sonho, desperto.
Fome de Motivação.
Fogo descoberto,
Não mais encoberto.

Dúvida, Incerta.
Certeza, dúbia.
Insignificantes palavras,
Frente tão bela e luzia, esperança.
Hoje desperta,
Não mais dormente.

Todas as luzes no céu são estrelas,
Como é, tão bem, estrela esta luz.
Todas as chamas são fogos,
Fogos amigos, que a estrelas ambicionam.
Que dia, após dia, sonham,
Com a luz, que assim se concretiza,
E com a estrela, que enfim, neste dia desperta.

Covilhã, 19 de Julho de 2013

quarta-feira, 29 de maio de 2013

L’Heure Bleue

“A hora mais fria da noite faz-se sentir no momento que antecede o amanhecer. A sua escuridão envolve-nos. Sentimo-nos sós, e, nesse momento, nada é mais assustador que a solidão”. Estava frio. A noite mágica começava a dar lugar a uma nova manhã de terça-feira de Carnaval. Miguel sentia o frio nos ossos. Frio apenas amenizado pelo cansaço, pelas horas não dormidas e pelos excessos da noite anterior. 

Disfarçado de Rambo, Miguel arrependia-se de não ter trazido um casaco, ou vestido algo mais quente por baixo do fato. Frio. O sol já começara a nascer mas naquele preciso momento estava mais frio do que na hora mais escura da noite. A maioria dos seus amigos, também eles fantasiados da mesma forma, já tinha partido com destino incerto. Um grupo de oito, desfeito antes mesmo de a noite terminar. Além de Miguel, apenas restavam dois. 

Encontravam-se em frente ao Rio Cáster, sob o abrigo da escadaria do velho Clube de Vídeo. Miguel ainda guardava na sua mão a fartura que por gulosice, ou por simples desejo, os três se lembraram de comprar. 

“Não vais acabar de comer?”, perguntou-lhe Tiago. 

Embora fora sua a ideia, Miguel não estava com fome. Algo o preocupava. Algo o fazia mover. Algo lhe dizia que não devia estar ali.

“Como pelo caminho”, responde. “Já é tarde. Ou melhor, cedo demais”.

“Sim, também acho que já está na hora de voltarmos para casa.” Após dizer isto, o Tiago combinou com o Rui o melhor caminho para regressarem. Os três despediram-se, e Miguel seguiu pela rua acima.

Atravessou a ponte pelo meio da estrada. Apesar da hora, as ruas ainda continuavam fechadas. Ouvia-se música à distância vinda da tenda que, naqueles dias, ocupava o parque de estacionamento da biblioteca. Várias pessoas vagueavam pelas ruas. Menos ou mais alcoolizadas. Vestidas com as mais diversas fantasias, algumas já destruídas pelas peripécias da noite anterior. Grupos animados. Casais, novos, velhos e acabados de se formar, dividiam-se entre discussões e abraços amorosos. Alguns, inconscientes ou com mau aspecto, eram ajudados por voluntários e dirigidos para os postos de socorro. Miguel ignorava tudo isto.

Perdido no caos silencioso dos seus pensamentos, Miguel segue sem objectivo. O frio e o cansaço tomavam conta do seu corpo mas ainda lhe restavam energias suficientes para percorrer o caminho até casa. 

O primeiro obstáculo não tardou a surgir. A subida do Calvário. Subida que dava jus ao seu nome. Tão fácil de ultrapassar num dia normal, mais complicada após uma longa viagem de bicicleta, hoje, impossível. 

Calmamente, Miguel subiu. Passara já a Capela quando, ao longe, começavam finalmente a surgir os primeiros raios de sol. A aurora dava lugar à manhã e o frio que tanto o atormentava começava a ceder. 

Sentada na paragem de autocarro estava uma rapariga vestida de anjo. De profundos olhos verdes, feições belas e um calmo sorriso. Os tons de avelã do seu cabelo reluziam na ténue luz do amanhecer. Não havia autocarros, não àquela hora, não naquele lugar. Ela olhava tranquilamente em redor, como se aguardasse por algo ou por alguém. Uma boleia, um encontro marcado, uma amiga atrasada. Talvez nenhum dos três, talvez apenas teria escolhido aquele banco para descansar antes de, também ela, regressar a casa.

Miguel viu-a. Trocaram um olhar por breves momentos. Breves, pois nem mesmo a sua beleza era capaz de o desviar dos seus pensamentos. Miguel caminhava com um propósito. Fosse ele qual fosse, motivava-o a continuar. 

“É sempre mais escuro antes do amanhecer”, disse a rapariga pouco depois de Miguel passar por ela. Parou. Olhou para ela. Confuso, sem pensar, apenas perguntou: “Fã de Florence and The Machine?” 

A rapariga levantou-se, caminhou para junto de Miguel e parou à sua frente. As asas da sua fantasia moviam-se com uma graciosidade quase divina. As plumas deslizavam ao sabor da brisa matinal. Pareciam maiores agora do que na primeira vez que as viu de relance. O seu vestido era branco, discreto, delineava as formas do seu corpo como se fosse feito à medida. Não usava nenhuma auréola, como seria de esperar num fato deste género, apenas uma coroa de flores brancas. Miguel sabia o seu nome. Sabia, mas não o recordava.

“Não sabes que é rude deixar uma senhora sozinha numa manhã tão fria?”

Miguel, sem resposta, regressava aos poucos à realidade. Perdido na contemplação desta estranha conhecida que tinha agora pela frente, não foi capaz de dizer nada além do seu olhar de confusão e estranheza.

Ela sorriu e pegou-o pelo braço. “Importas-te que te acompanhe? Vejo que seguimos o mesmo caminho.”

“De todo. Eu vivo perto de...” Com um gesto suave ela coloca um dedo sob os seus lábios, interrompendo-o. “Seguimos o mesmo caminho”, sorriu. “Não estragues a surpresa. Eu acompanho-te.”

Perplexo por aquele gesto, Miguel retribuiu o seu sorriso. Já não sentia o cansaço. Também o frio não era agora mais do que uma velha memória prestes a desvanecer nos confins da sua mente.

Caminharam juntos em silêncio durante algum tempo. Miguel era envolvido por um pensamento de certeza. Aquele algo que o motivara a continuar, permanecia no seu consciente, como que a gritar de felicidade por este ter encontrado o seu destino. 

“Algo te preocupa”, disse ela, pondo fim ao vazio de palavras.

“Esperava que isso não fosse tão óbvio”, respondeu.

“Não o é para mim.”

Miguel hesitou, procurando pela melhor forma de contar aquilo que o atormentava. Por fim disse, “Sinto-me oco. Como se o meu poço de inspiração e de imaginação tivesse há muito secado. Falta-me um propósito. Um destino. Algo pelo qual valha a pena lutar. Uma... Uma...”

“Uma história que valha a pena contar”, completou ela com um tom sério de determinação.

“Sim, uma história”, anuiu. Cumplicidade. Sentimento estranho para partilhar com alguém que tinha acabado de conhecer.

“Porque não começas pela base? Pelo básico, pelo princípio?”

“Não consigo começar a contar algo sem saber como termina. Como posso unir as acções dos protagonistas sem uma linha, sem uma continuidade, sem uma história?”

Passavam agora o largo onde em tempos se erguia um quiosque em madeira. Há alguns anos substituíram-no por uma estátua em homenagem a um desportista de quem poucos se recordam. 

Miguel lembra-se das manhãs passadas ali em criança, a caminho da escola. Por vezes parava para comprar uns rebuçados ou uns cromos. Hoje, desse quiosque, apenas restam as suas memórias. Suas, e das árvores que ainda permanecem naquele local, despreocupadas, incólumes e ignorantes dos eventos que por ali foram passando.  

Não sabia explicar como, ou porquê, mas Miguel percebia que ela tinha lido os seus pensamentos.

“Essa é uma história bonita. Triste, mas bonita. O rapaz que tem saudades da sua infância, a criança que chora com a destruição dos seus lugares preferidos. Uma história com início, meio e fim. Uma história que conheces bem.”

“Uma história que poucos quererão ouvir”, respondeu.

“Talvez. Depende de como a contares.”

Miguel hesitou e fechou-se por um instante nos seus pensamentos. “Uma história minha. Apenas uma velha memória. Por mais poética que a tente tornar, há algo que falta a um conto tão simples.”

“Se simples não é algo que procuras, porque não contas uma história mais arrojada? Algo que envolva, mistério, risco e um futuro incerto?”

“Bons ingredientes, difíceis de encontrar.”

Ela parou novamente e virou-se para o encarar. “Estão mesmo à tua frente.”

Sorriu. “Queres que conte a história do dia em que encontrei um anjo só, numa paragem de autocarro?”

“Não, quero que contes a tua história. O teu mistério, os teus riscos, o teu futuro.”

“O meu futuro?”, Miguel retomou o seu caminho, ponderando sobre as palavras que ela lhe acabara de dizer. Pesavam-lhe como se algo se estivesse a abrir dentro dele. Memórias que ele ainda não tinha vivido. Sentimentos de um passado esquecido que ficara por se concretizar. 

Enfim falou. “Em tempos tentei fazê-lo.” Estavam agora a poucos metros da casa de Miguel. Ambos pararam. Ela para o ouvir. Ele para lho dizer.

“Sentei-me dias a fio a contemplar o horizonte. Escrevi. Escrevi. Escrevi. Folhas de papel, amarrotadas pelo vento. Gastei a minha caneta. Mas desapareceram. Todas.” 

“Noites a fio imaginei a minha história, reescrevi as personagens, coloquei-as nas mais variadas situações. Mas nenhuma valeu a pena. Nenhum falou mais alto até àquele dia.” 

“Até aquela tarde em que não a reconheci quando passou ao meu lado. Até aquela tarde em que ela me chamou e nada mais pareceu importar. Até aquela tarde em que folha por folha, cada uma se deixou lavar pelo mar. Cada uma afogada no eterno oceano daquela história que não consegui completar. Que não quis completar. Que não mais voltei a ler. A pensar, ou a escrever. Uma história que acabou sem que eu nunca a tivesse podido contar.”

Lágrimas correram pelo rosto de Miguel. Embora mantivesse a seriedade das suas palavras, as emoções das mesmas assolavam-no e dificultavam a sua respiração. 

A estranha rapariga vestida de anjo que o acompanhara neste longo caminho, não conseguia esconder a sua empatia após tão pesada e crua confissão. Abraçou-o. Envolveu-o nos seus braços. O tempo parou. Nada mais sentiam que não o calor dos seus corpos. Nada mais ouviam que não o bater dos seus corações.

A pouco e pouco, Miguel recuperou o seu fôlego. A tormenta em que se encontrava parecia ter acalmado. As nuvens cinzentas do seu pensamento deram lugar a um céu azul, vivo como aquele que é banhado pelo sol primaveril. O seu poço encheu-se. Sentia-se vivo. Desperto. Tinha encontrado a sua história.

Ela olhou-o nos olhos. As faces de ambos reflectiam uma rara felicidade, indistinta para qualquer um, mas que os ligava profundamente num laço, numa linguagem, que apenas os dois podiam compreender. 

“Estás perto de casa...”, disse ela.

“...e perto de ti”, respondeu.

Sorriu. As suas asas pareciam agora reluzir intensamente, como se uma nova vida tivesse nascido por entre as plumas que as enfeitam. Como se ganhassem novamente vontade para voar. Esperança. Sim. Tudo parecia possível. Naquele momento. Naquele lugar.

“Por agora seguimos um caminho diferente. A noite foi longa. Precisamos de dormir.”

Palavras que o empurraram de regresso à realidade daquele dia que, por momentos, não parecera ser mais que um sonho.

Miguel queria pedir-lhe para ficar. Para falarem. Para que aquele momento não acabasse por ali. 

Não o fez. Compreendia. Voltara a sentir o seu cansaço. O sono. O frio. Anuiu.

“Posso acompanhar-te até tua casa”, disse.

“Esse caminho apenas eu o posso fazer. Não te preocupes. Ver-nos-emos em breve”, sorriu.

Miguel sabia que o que ela dizia era verdade. Sabia que esta história não ia terminar desta forma.

Despediram-se. Miguel dirigiu-se para casa. Mas, enquanto procurava as suas chaves, voltou para trás para a chamar.

“Não me disseste o teu nome.”

“Sara. Da próxima vez não te esqueças de trazer o teu casaco, Miguel. O cavalheirismo demanda que o ofereças a uma senhora a morrer de frio numa manhã como estas.”

Ambos se riram com aquela despedida. Miguel não questionou o facto dela saber o seu nome. No fundo ele sempre soubera o dela. 

Sara, ecoava na sua mente, como uma boa memória há muito guardada no seu coração, como uma recordação de um futuro ainda por viver que, finamente, ressurgia após um longo período de escuridão.

Miguel estava finalmente em casa. É mais escuro antes do amanhecer. A hora azul. A hora mais fria da noite. O prólogo mais quente de uma história que é sua. De uma história que ele não podia imaginar. De uma manhã mágica que o despertou para o caminho que tinha agora que seguir.

“Sara, nome tão simples, mas tão belo. Estou em casa, mas, hoje, estou tão perto de ti.”


Publicado em 15 de Setembro de 2013

segunda-feira, 13 de maio de 2013

O Regresso

Foi em finais de 2004 que comecei a dar os primeiros passos no universo da blogosfera. Blue Dove. Assim se chamava o meu primeiro blogue. Alocado na velha plataforma de blogues do Sapo, Blue Dove foi até ao início de 2006 o espaço predilecto para partilhar os meus pensamentos, as minhas histórias, as minhas ideias, a minha arte, mas, acima de tudo, a minha voz.

No dia 17 de Janeiro de 2006 decidi dar um novo rumo à minha aventura como blogger e criei o meu blogue actual, o No Sense of Reason. Deixei o Sapo para trás e juntei-me à comunidade do Blogspot. Embora o No Sense seja o único blogue que actualizo com alguma regularidade, ao longo dos anos fui criando novas plataformas por necessidade de me dedicar a temas e linguagens mais específicos.

Janeiro de 2007 viu nascer o Story Writer, um blogue que durante alguns anos mantive secreto. Dedicado apenas à divulgação dos meus contos originais e de capítulos de histórias maiores, Story Writer era o espaço onde eu acumulava e arquivava todos os contos que escrevi e que publiquei na blogosfera desde os inícios do Blue Dove. Eventualmente comecei a produzir conteúdos únicos para este blogue, contudo o meu perpétuo writer’s block impediu-me de o manter actualizado de forma regular. 

Nesse mesmo ano, em Julho, criei a Antologia do Eu, um blogue que tinha como único objectivo divulgar a minha escrita lírica. Tal como o Story Writer, este blogue também continha poemas que já tinham sido publicados noutros blogues e alguns inéditos que eu mantinha guardados nas minhas gavetas. Antologia do Eu tem a particularidade de a maioria dos seus poemas não terem título, sendo numerados consoante a data de publicação em numeração romana. 

Dois mil e sete foi mesmo um ano rico para a expansão da minha blogosfera pessoal. Por motivos académicos criei um blogue com o nome 25 de Julho. Alusão ao feriado e dia da cidade da minha terra natal, Ovar. Criado em Março desse ano, ao longo dos anos usei-o como uma espécie de portfólio onde divulgava alguns trabalhos académicos. Posteriormente transformei-o num blogue noticioso dedicado ao arquivo das notícias e reportagens que escrevi para o jornal Praça Pública. 

Foi preciso esperar até 2009 para que a minha blogosfera ganhasse uma nova face e um novo membro. Em Janeiro de 2009, em comemoração do terceiro aniversário do No Sense of Reason remodelei o seu design, actualizei o template e redistribui as ordens de publicação da minha blogosfera pessoal. Também por motivos académicos criei o Mercúrio do Porto, blogue que mantenho ainda hoje para divulgar notícias que escrevi nas entidades onde trabalhei, assim como alguns projectos que desenvolvi ao longo do meu Mestrado. 

Vi-me assim com cinco blogues por entre as mãos e sem tempo para dedicar a todos eles. Acabei por privilegiar o No Sense of Reason em detrimento dos restantes. Volta e meia actualizo o Mercúrio do Porto, ainda hoje mantendo-se como um blogue de apoio ao meu portfólio. Já os restantes dependem muito da minha inspiração e desbloqueamento criativo. 

Para meu desgosto, descobri há alguns meses que o meu velhinho Blue Dove foi deitado abaixo pela Sapo sem qualquer aviso prévio. Embora já não o actualizasse há oito anos, agradava-me saber que ele continuava ali como registo dos meus primeiros devaneios na arte da escrita e do pensamento criativo. Volta e meia encontrava-me a ler um ou outro dos meus velhos artigos. Emocionava-me com as recordações que eles traziam e usava algumas das suas frases como inspiração para os meus projectos futuros.

Vê-lo ficar offline após tanto tempo foi um duro golpe que me fez perder toda e qualquer confiança na Sapo. Senti um profundo vazio como se parte de mim tivesse sido apagada para todo o sempre. Felizmente mantive um arquivo digital de todos os artigos que publiquei naquele blogue. 

Há já algum tempo que tenho vindo a pensar sobre uma forma de voltar a repor estes meus pedaços de identidade online. Inicialmente ponderei simplesmente publicá-los, um a um, no No Sense. Contudo, isto criaria uma anormalidade de cinquenta e muitas publicações num único mês. Para não falar de uma eventual confusão ideológica entre o actual estilo do No Sense of Reason e a emoção em bruto do Blue Dove. 

Aliado a isto tinha também o problema dos outros blogues que nos últimos anos têm estado relativamente inactivos. Juntando o útil ao agradável, cheguei à conclusão de que a única forma de resolver este problema seria criar uma nova plataforma dedicada ao arquivo do antigo Blue Dove e dos restantes membros da minha blogosfera. 

Sob o domínio A Flock of Blue Doves, nasce assim o novo membro do universo No Sense. De cara lavada, a nova reencarnação do Blue Dove vai inicialmente funcionar como um arquivo. Diariamente de Domingo a Quinta-feira serão publicados os velhos artigos do primeiro Blue Dove. Cada um deles será reeditado com o objectivo de corrigir eventuais erros ortográficos ou de sintaxe, contudo não irei alterar qualquer aspecto do seu conteúdo. 

Terminada a reposição de todos os artigos do Blue Dove serão também publicados e reeditados os arquivos de Story Writer, Antologia do Eu e 25 de Julho

Após esta fase o blogue continuará a funcionar no mesmo âmbito que os restantes funcionam. Embora os meus artigos de opinião continuem a ser publicados no No Sense of Reason, assim como as minhas notícias, press releases e textos afins vão continuar a ser publicados no Mercúrio do Porto, todos os meus contos e poemas vão passar a ser divulgados neste blogue. 

Não pretendo com isto pôr a baixo nenhum dos blogues que vão deixar de ser actualizados. O Story Writer, o Antologia do Eu e o 25 de Julho vão permanecer online por tempo indefinido com o objectivo de salvaguardar as datas de publicação do seu conteúdo e também para servirem como memorabilia do meu passado como blogger. 

Os fãs do No Sense of Reason não precisam de se preocupar, esse continuará a ser actualizado com a frequência do costume.

Hoje dou um passo decisivo na restauração da minha memória online. No espírito do velho Blue Dove: Believe in me and I’ll believe in you!

sexta-feira, 16 de março de 2012

Nas Pegadas de Fátima

A antiga Pedreira do Galinha revelou um rico sítio paleontológico
Lugar de peregrinação para milhões de fiéis devotos em todo o Mundo, Fátima esconde segredos naturais que vão além do seu Santuário. Edificada no vale da Serra de Aire em 1568, a cidade de Fátima está rodeada por algum do mais importante património geológico da Península Ibérica. As Grutas de Mira de Aire, e o Monumento Natural das Pegadas de Dinossauros, são os principais atractivos desta região.

Maravilhas do novo milénio

As Grutas da Serra d’Aire são uma das 7 Maravilhas Naturais de Portugal
Recentemente classificadas como uma das 7 Maravilhas Naturais de Portugal as Grutas de Mira de Aire são as maiores grutas turísticas de Portugal. A sua extensão atinge já os 11 kms, mas apenas 600 metros são abertos ao público. Descobertas por mero acaso por locais, as grutas serviram em tempos como uma segunda casa para os pastores da região se abrigarem do forte calor que se faz sentir durante o Verão ribatejano.

Além das habituais estalagmites e estalactites, os visitantes têm a oportunidade de observar um espectáculo de cores subterrâneo sob o brilho das cataratas e cursos de água interiores. Para aqueles mais supersticiosos, convém levar alguns trocos para lançarem os vossos desejos numa das pequenas fontes da gruta. Inauguradas em 1974, as Grutas de Mira de Aire já receberam mais de 6 milhões de visitantes. 

Bairro do Jurássico

No detalhe do solo, a pegada deixada há 175 milhões de anos por um dinossauro
Localizado na pequena vila de Bairro, concelho de Ourém, o Monumento Natural das Pegadas de Dinossauros é o mais emblemático espólio paleontológico português. Descobertas a 4 de Julho de 1994 na antiga Pedreira do Galinha, as Pegadas da Serra de Aire são compostas por 20 trilhos, considerados os maiores e os mais antigos trilhos de saurópodes (dinossauros de pescoço comprido) de que há conhecimento, mas também, dos mais bem conservados, sendo compostos por mais de 1000 pegadas.

Formadas há 175 milhões de anos, durante o Jurássico Médio, estas pegadas são um tesouro recém-descoberto do passado da Terra, quando a Europa ainda se encontrava ligada à América do Norte, onde entre a Península Ibérica e o actual Canadá, existia um mar pouco profundo de águas límpidas e quentes. Este ambiente proporcionou as condições ideais para a boa preservação destes vestígios fósseis.

Representação de um saurópode similar aos que habitaram esta região
Além das pegadas, os visitantes têm ainda ao seu dispor um trilho de natureza com informação sobre a história geológica da Serra de Aire, um jardim Jurássico que figura algumas das plantas abundantes na altura, além de uma área de animação, um Centro de Educação Ambiental, um parque de merendas e um grande painel ilustrativo da evolução da vida na Terra.

Estrelas de Fátima: O segredo está no doce

O melhor da pastelaria portuguesa (com reflexo na vitrine)
Antes de partirem em viagem, aconselho que dêem um salto à Pastelaria Milano, mesmo à saída do Santuário de Fátima. A sua especialidade são uns pequenos doces chamados Estrelas de Fátima. Feitos com ovos-moles, açúcar e noz, estas pequenas iguarias estão garantidas para elevar o vosso paladar ao mais alto dos êxtases gastronómicos. Exclusivas das Pastelaria Milano, são paragem obrigatória, especialmente depois de uma tarde de caminhadas em volta da Serra de Aire.

Publicado em 16 de Março de 2012 no Blogue Vontade de Viajar
Reeditado em 12 de Setembro de 2013

sábado, 8 de outubro de 2011

Os Cinco Estágios de Luto

Passava pouco das nove da manhã. Miguel olhava pela janela para a rua iluminada por um branco matinal, típico do sol de uma manhã de Outubro. A luz penetrava pela janela semi-aberta do escritório, realçando o sofá onde Miguel aguardava pela consulta. Um homem observava-o na penumbra oposta do outro lado da sala. Os dois trocaram um olhar enquanto Miguel saboreava os últimos momentos do cigarro que segurava entre os dedos.

“Aqui tem”, disse o homem oferecendo-lhe um cinzeiro.

Miguel expirou lentamente deixando o fumo desvanecer-se pelo ar com a leveza de uma clara neblina. Enquanto esmagava as cinzas na base do cinzeiro, o seu olhar voltou a desviar-se para o homem do outro lado da sala. Um silêncio de antecipação abateu-se pelo escritório.

Miguel foi o primeiro a falar.

“Por onde quer que comece?”, perguntou.

“Não existe qualquer regra estabelecida, mas como na maioria das histórias, pode sempre começar pelo início.”

“Permita-me então que contrarie a norma e que comece pelo fim.”

“Como desejar.”

“Há cinco estágios de luto…”

“De morte”, interrompeu o homem.

“Ambos dependem da perspectiva, do sujeito que a vive. Embora se tratem de dois estados diferentes, têm ambos o mesmo objectivo. Seguir em frente, e aceitar a necessidade de o fazer.”

“Podemos colocar as coisas dessa forma, mas não se esqueça que são dois tipos distintos de aceitação.”

“Talvez, mas não concorda que no fundo ambos os percursos procuram apenas ensinar-nos a conviver com a inevitabilidade do nosso destino?”

O homem ponderou por um momento e assentiu.

“Como estava a dizer, há cinco estágios de luto. O primeiro é a negação.”

“O estágio em que actualmente se encontra?”

Sem se aperceber, Miguel brincava com o seu isqueiro por entre os dedos. Observou este acto involuntário das suas mãos por alguns instantes, antes de se dirigir novamente ao homem.

“Acho que parte dos motivos que me trouxeram aqui hoje, foi o senhor ajudar-me a descobrir em que estágio me encontro.”

“De facto posso ajudá-lo, mas preciso de mais informação.”

Miguel retomou a sua história.

“Negação. Talvez seja esta a melhor fase. Mantemos a esperança de que as coisas possam ainda melhorar. Sair da cama faz-nos pensar que o novo dia pode trazer algo melhor. Que tudo não passou de um pesadelo. Mas como o próprio nome indica, tudo isso não passa de uma doce mentira que contamos a nós próprios para que a dor não seja tão forte.”

A sua expressão manteve-se séria, inalterável. O homem observava-o, incentivando-o a continuar.

“É só uma fase, vai passar. Os seus níveis hormonais estão desregulados. Afinal a página da Wikipédia dizia que paranóia era um dos sintomas mais comuns. O Verão nunca foi uma boa estação para mim, quando regressar o Outono voltaremos a ser felizes. A minha sensibilidade à luz faz com que me veja obrigado a semicerrar os olhos o que me torna menos atraente. Afinal o amor supera tudo, não é? Quando se ama alguém é para sempre e nada pode mudar isso. A mulher por quem me apaixonei continua lá, algures. Ela voltará a ser a mesma.”

Miguel falava para o vazio, ignorando a presença do homem.

“Pequenas mentiras racionais que contamos a nós próprios para fazer com que tudo fique melhor. Mas não fica. A dor continua lá e o passar do tempo apenas alimenta esse sofrimento.”

“Como está a lidar com esse sofrimento?”

Miguel respirou fundo, pensando em silêncio. O seu olhar desviado para a janela do escritório. Segurava o isqueiro na sua mão direita, acendendo-o durante curtos intervalos.

“Às vezes gosto de pensar que saltei a negação, fodi todos os outros estágios e mantive-me na raiva, deixando-a apoderar-se de mim até que cada centímetro do meu corpo se tornasse dormente”, responde, deixando sair um riso irónico.

“Descreva-me essa raiva.”

“Raiva. Segundo estágio. Ódio. Frustração. Sentimento de impotência para com tudo. Como se atreve a questionar os meus sentimentos por ela? Porque é que se limita a pegar em ridículos e insignificantes pormenores? Como pode alguém se esquecer de todos os momentos bons que passámos, de como éramos felizes e apenas insistir em dois ou três episódios maus que podiam ser tão facilmente apagados por uma fracção dos dias em que fomos felizes? Porque tenho que levar com esta barreira irracional que a impede de ver a simples verdade do nosso amor?”

Sem se ter apercebido, Miguel lançou o isqueiro para o outro lado da sala. As suas mãos, agora nuas, seguravam a sua face, impedindo em esforço, como uma frágil barragem, o fluxo de lágrimas que os seus olhos pareciam ameaçar.

O homem continuava a observá-lo serenamente.

“Quer contar-me o que se passou?”, perguntou.

“Não. Certas histórias precisam do momento certo para serem contadas.”

“Este não é o momento certo?”

Miguel compôs-se e voltou a fitar o vazio por alguns instantes. “Não”, respondeu, finalmente.

O homem assentiu, enquanto anotava algo no seu bloco de notas.

“Suponho que queira falar sobre a negociação.”

“Pensava que já tinha acordado o preço com a sua secretária.”

O homem sorriu, surpreso pela breve centelha de humor. “Continue.”

“Terceiro estágio. Negociação. Talvez o mais humilhante. Tão útil como lançar uma garrafa de oxigénio para uma casa em chamas na esperança de as apagar.”

Miguel pausou por alguns segundos antes de continuar. O homem ofereceu-lhe um copo de água que ele aceitou com gratidão.

“Pensei para mim próprio”, continuou. “Talvez se eu mudasse, talvez se ela me desse mais uma oportunidade de lhe provar como podemos voltar a ser felizes. Basta estarmos juntos, ela vai voltar a senti-lo. Se eu implorar, se eu bradar aos céus o que sinto por ela, talvez aí…”

Hesitou, inseguro sobre o que estava prestes a revelar.

“Uma noite cheguei mesmo a rezar, a pedir que ela desse ouvidos ao seu coração e que de alguma forma encontrasse a calma de espírito necessária para quebrar a sua lógica destrutiva e voltar a ser feliz comigo. Um último acto de desespero…”

O homem observou Miguel pensativamente antes de falar.

“Recorrer a uma entidade superior quando nos sentimos impotentes e nada mais temos onde nos apoiar, faz parte da condição humana. Não é algo do qual deva ter vergonha.”

Miguel anuiu.

“Foi nesse momento que percebi que nada mais havia a fazer. Por mais que me quisesse convencer do contrário, por mais que me quisesse agarrar a uma réstia de esperança, nada mais podia fazer.”

“Quarto estágio”, disse o homem.

“Depressão”, respondeu.

“Por mais romântico que fosse, por mais poemas que escrevesse, por mais canções que lhe cantasse, nada iria mudar. Embora não tivesse feito nada de mal…”, parou, hesitante.

“Aliás, embora tenha errado em certos aspectos, quando não se comete um ‘crime’ específico, algo objectivo que seja capaz de ser remediado, que seja capaz de ser perdoado, nada há a fazer. Nada há a fazer, quando o problema és tu, a forma como te vês, como és, como sentes, como vives. Quando o teu único erro é a tua maneira de estar, e de ver o mundo, nada podes fazer. Nada podes fazer a não ser…”

As primeiras lágrimas escorriam pelo seu rosto enquanto ele voltava a olhar através da janela semi-cerrada.

“A não ser?”, perguntou o homem.

Miguel limpou as lágrimas dos seus olhos, calmamente dirigindo o seu olhar para o homem.

“Aceitar.”

“Quinto e último estágio”, respondeu.

“Já estive em baixo, antes. Normalmente dormia durante horas a fundo sem qualquer vontade de me levantar da cama, mas não agora. Mal consigo dormir. Embora tenha alguma facilidade em adormecer, acordo muito antes da minha hora habitual e levanto-me quase de seguida. Apesar das poucas horas de sono, é raro sentir-me exausto ao fim do dia. Para ser sincero, é raro sentir seja o que for.”

“Acha que ainda se encontra no quarto estágio?”

“Sim. Não estou preparado para seguir em frente, não sou capaz de aceitar a ideia de que a perdi para sempre. De esquecer todos os planos que tínhamos, todas as coisas que não fizemos. De apagar toda a imagem de um futuro juntos. Tenho saudades dela, do seu olhar, do seu sorriso, do seu cheiro, do seu toque… Tenho saudades do seu amor. Tenho saudades da nossa felicidade.”

Miguel rompeu em lágrimas e deixou-se cair no chão do escritório. O homem aproximou-se para o consolar, oferecendo um lenço de papel. Durante alguns minutos, ficaram ambos ali. O silêncio da sala era apenas interrompido pela respiração ofegante de Miguel.

“Estes ataques de ansiedade são-lhe frequentes?”

“Uma vez por dia, pelo menos”.

O homem assentiu anotando no bloco de notas.

“Parece-me que compreende perfeitamente qual o próximo passo a tomar.”

“Seguir em frente.”

O homem esboçou um sorriso de concordância.

“É bem mais fácil dizer que fazer”, responde.

“Por mais que eu queira que a dor acabe. Sinto a necessidade de compreender o que se passou, de saber porque é que tudo isto aconteceu. Éramos tão felizes, tudo parecia tão certo.”

O homem ponderou por alguns segundos antes de responder.

“A palavra-chave nesse frase é ‘parecia’. Talvez tenha razão. Talvez apenas se tenha tratado de algo que aconteceu de um dia para o outro, talvez ela apenas não se tenha sentido à vontade para partilhar consigo o que se estava a passar. Independentemente disso, o que é importante para si neste momento não é procurar as razões que o trouxeram aqui, mas sim redescobrir a sua autoconfiança, aceitar que ela o magoou e sentir-se capaz de seguir em frente para encontrar alguém que seja capaz de o amar por quem é, sem que sinta a necessidade de mudar. O seu futuro passa por alguém que o aceite, e com quem se sinta à vontade para ser real a si próprio.”

Sentindo-se melhor, Miguel compôs-se e sorriu.

O homem olhou para o relógio, já passava da hora que tinham combinado.

“Muito obrigado”, disse Miguel enquanto se despedia do homem.

“Nunca subestime o poder do respeito por si próprio. Ser capaz de aceitar tudo aquilo que faz de si alguém único, é o primeiro passo para a aceitação do seu próprio destino.”

Miguel esboçou um último sorriso antes de sair.

“Quinto estágio”, disse, enquanto saía do escritório para regressar a casa. O sol outonal ainda brilhava com intensidade, iluminando um novo dia cheio de oportunidades escondidas ao virar de cada esquina.

Miguel respirou fundo e regressou a casa com um sentimento de paz lentamente a apoderar-se do seu corpo, consolando, a cada passo, a dor que pesava no seu coração.

Publicado em 8 de Setembro de 2013