sábado, 27 de fevereiro de 2010

Numa tarde

Três da tarde. “Dizem que a cor do mar não é a mesma em todo o lado, de facto, tudo neste dia é diferente”. O sol raiava por entre as nuvens de um dos últimos céus de Inverno que Março ainda tinha para oferecer. Miguel aguardava pensativo numa modesta esplanada à beira-rio. 

Este lugar não guardava nada de extraordinário para qualquer simples viajante que por ali passasse. Embora a vista para o estuário, e a sua consequente ligação ao mar, motivassem uma breve contemplação sobre o sentido da nossa própria existência, quando comparada com a imensidão do horizonte, nada diferenciava este lugar de tantos outros espalhados ao longo das margens. Talvez assim fosse para qualquer simples viajante, mas não para Miguel. Na verdade, há já vários anos que ele sonhava com este lugar. Com este momento.

“Deseja alguma coisa?” A interrupção do empregado retira Miguel das profundezas dos seus pensamentos, e força-o a emergir na realidade do momento. 

“Não, obrigado. Estou à espera de alguém”, responde. 

“Muito bem”, o empregado volta as costas à sua mesa e já regressava para o interior da esplanada quando ouve Miguel a chamá-lo. 

“Desculpe, ouvi dizer que os vossos pastéis de nata são dos melhores da zona, sempre é verdade?” 

“Imagino que todos os cafés se gabem do mesmo, mas posso garantir-lhe que os nossos são cinco estrelas. Quer que lhe traga um para provar?” 

“Não, prefiro aguardar. Acarta com as responsabilidades se o que me disse acabar por não ser verdade?” 

Perplexo com a pergunta, o empregado esboça um sorriso. “Com todo o gosto. Vou certificar-me que lhes são servidos os melhores pastéis de nata que temos hoje”. 

“Não lhe pedia tanto, mas obrigado”, Miguel responde com outro sorriso. Ambos despedem-se por agora. O empregado apreçasse a atender um casal que tinha chegado no entretanto à esplanada, enquanto Miguel regressa à sua contemplação do infinito horizonte. 

Prestes a reimergir no interior da sua mente, Miguel é interrompido por duas mãos que suavemente acariciam os seus olhos, e lentamente transformam o dia em noite, num instante mais breve que qualquer eclipse. 

“Não devias perguntar ‘quem é’?” 

Ele sente a face desta nova personagem aproximar-se do seu ouvido. Com um sussurro quase inaudível, responde: “Não.” 

Miguel sorri. A partir desta simples palavra é impossível decifrar a quem pertence a voz que a enunciou. Contudo, ele reconhece-a, não pela voz, mas pelo gesto, pelo cheiro, pelo seu toque, mas, acima de tudo, pela forma como o seu coração acelera na sua presença. 

Delicadamente, Miguel retira as mãos dela e, mantendo os olhos fechados, vira-se na sua direcção. “Olá Sara.” Abre os olhos. 

“Olá”, responde. 

Ambos trocam olhares por breves segundos. Segundos que, para cada um, representam a eterna ansiedade pelo momento que ambos desejam que se siga, mas que ambos são forçados a negar. 

“Queres-te sentar?” Miguel pergunta, pondo fim ao impasse. 

Sara afasta os seus negros cabelos num suave movimento de uma indescritível beleza que deixa Miguel incapaz de desviar o olhar, e de contemplar este momento como se o próprio tempo tivesse abrandado, e fixa o seu olhar no horizonte. 

“Escolheste um bom sítio”, diz. 

“Ainda bem que gostas. O empregado até se deu ao trabalho de nos guardar os melhores pastéis de nata que eles aqui têm.” 

Sara sorri e volta a observá-lo por instantes. “Então é melhor que o chames, quero ver se são tão bons como dizem”. 

Miguel oferece-se para a ajudar a sentar-se, gesto raro nos dias de hoje. O seu cavalheirismo sempre foi algo que Sara apreciou nele, mesmo que, por vezes, lhe dê algum embaraço aceitar tão simples gestos de delicadeza. Mas não hoje, não aqui. 

O empregado pede dois minutos em resposta ao aceno de Miguel. 

“Desculpa o atraso, não conheço muito bem esta zona”, diz ela. 

“Não faz mal, sou dotado de uma eterna paciência, principalmente quando aguardo por algo que vale a pena a espera”, responde, expectante pela sua reacção. 

Sara sorri-lhe, não um simples sorriso, mas aquele que guarda apenas para ele.

“Já querem pedir?” Regressa o empregado, interrompendo friamente o momento. 

“Bom, pode trazer os famosos pastéis.” 

“Muito bem, e para beber?” 

“Dois cafés”, Sara responde. 

“É para já”. O empregado afasta-se e regressa pouco tempo depois. 

“Espero que esteja tudo de agrado.” Sara e Miguel provam os pastéis de nata e perdem-se momentaneamente num êxtase simultâneo de sabores medievais. 

Entreolham-se, surpreendidos com a deliciosa simplicidade gastronómica que a combinação da canela com as natas proporciona. 

Ambos agradecem ao empregado, e este despede-se com uma expressão de dever cumprido. 

Durante alguns minutos, Sara e Miguel não conseguem falar de outra coisa além desta deliciosa surpresa protagonizada por umas simples natas. 

“Temos que começar a vir cá mais vezes”, diz ela. 

“Eu gostava”, responde. Um silêncio instala-se entre ambos. Não o típico silêncio de alguém que disse algo de errado, mas o silêncio de duas pessoas que não precisam de palavras para descrever o que ambos pensam. 

Miguel suspira e inicia a conversa que os trouxe ali. “Eu não tenho medo.” 

“Medo?”, Sara pergunta, confusa perante esta inesperada afirmação. 

“De nós. De arriscar”, ele responde com uma certeza sincera presente no seu olhar. 

Sara desvia o olhar e contempla o horizonte por breves momentos. 

“Não é assim tão simples”, responde. 

“Sara, eu…” Miguel é interrompido pelo suave toque da mão dela na sua. 

Sara fixa o seu olhar no dele. Os seus olhos castanhos penetram-no profundamente e atingem-lhe o coração, paralisando-o. 

“Eu também”, responde com aquele sorriso que guarda apenas para ele. “Tu sabes. Mas não é assim tão simples”. 

Miguel liberta-se momentaneamente do feitiço que a profundidade penetrante dos olhos de Sara lhe impõe e esboça um ligeiro “Porquê?” 

“Porque não te quero perder. Porque há tantas coisas contra nós. Porque connosco tem que ser perfeito. Porque eu…”

“Porque tu…?” Miguel liberta-se por completo do laço mental em que Sara o mantinha. 

“Porque eu…”, Sara quer dizê-lo, o seu coração força-a a gritar as palavras que há muito tenta conter, mas a sua voz trai-a no último instante. 

Motivada pela frustração do momento, levanta-se e vai-se encostar ao muro que separa o passadiço do rio, fixando o olhar na margem distante. 

Lentamente, Miguel vai ao seu encontro e coloca suavemente as suas mãos sob os ombros dela. 

Algumas lágrimas escorrem pelo rosto de Sara. Não são lágrimas de dor ou tristeza, mas de pesar por um amor impossível que a ilude sempre que se aproxima dele. Porque não basta desejá-lo, porque não basta amá-lo, porque é que não podemos ser felizes um com o outro como qualquer outro casal? São as questões que passam pela sua mente enquanto o toque de Miguel a atira para um transe de sentimentos e desejos proibidos. 

O sol da tarde reflecte nas suas lágrimas, iluminando o seu rosto com um universo de cores, criando uma imagem digna de qualquer um dos grandes pintores. Fosse ela hoje retratada, sobreviveria ao teste do tempo, imortalizada para sempre na eterna beleza de uma tela, que todas as galerias do mundo desejariam exibir. 

Miguel coloca as mãos sob o seu rosto e limpa-lhe as lágrimas. Sara não resiste, os seus olhos fixam-se nos dele, presos na ansiedade de concretização de um desejo, por ambos, há muito procurado. 

Ambos fecham lentamente os olhos e deixam que os seus lábios se encontrem. 

Uma música suave faz-se ouvir no fundo enquanto ambos se beijam. Embora não possam ter a certeza, ambos sabem que ela é real, e que tanto Miguel como Sara partilham neste momento uma melodia unicamente reservada para o seu amor, que já mais alguém para além deles irá ouvir. 

Miguel toma Sara pela mão. Ambos trocam olhares como se se vissem pela primeira vez. De certa forma, estavam a ver-se pela primeira vez. Já não eram Miguel e Sara, eram algo novo. 

Começam a andar em direcção ao horizonte sem desviar o olhar um do outro. As suas silhuetas confundem-se uma com a outra, culminando na final representação de um amor ao qual nenhum deles é capaz de resistir. 

Neste dia, neste momento, Miguel e Sara deixaram de existir. 

“Agora somos dois”. 

Publicado em 26 de Agosto de 2013

domingo, 27 de dezembro de 2009

Momentos

“Não me lembro de uma manhã de Novembro tão fria como esta”. Passavam alguns minutos das dez da manhã. Estava sol, mas a temperatura não ia além dos sete graus. Miguel estava na plataforma a olhar para o horizonte, expectante pelo comboio que deve chegar em breve. Ele aguardava por este dia há apenas algumas semanas, mas o tempo não era relevante. Na verdade, Miguel ansiara toda a sua vida pela chegada deste dia.

O relógio já se aproximava das onze quando o som familiar de toneladas de metal a ranger nos carris começou a fazer-se ouvir. Embora ele já tivesse presenciado esta agonia sonora inúmeras vezes, hoje soava de forma diferente, como uma suave melodia tocada por um mestre do violino. O comboio rapidamente surgiu na linha do horizonte, e num mero instante já estava a parar à sua frente. Quando as portas se abriram e a multidão de passageiros começou a sair, Miguel sentiu o seu coração acelerar. Era difícil decifrar alguém no meio deste mar de faces desconhecidas. Mas, num breve relance ele vê-a. “Sara”, chama. Ela acena na sua direcção, e ele responde com o mesmo gesto. 

Várias pessoas os rodeavam, apressadas na azáfama típica de uma manhã de Novembro, mas naquele momento eram apenas eles os dois, tudo o resto desvanecia num fundo que ambos ignoravam. Naquele cruzar de olhares, Miguel sentiu o seu coração a parar, enquanto se deslocavam em direcção um ao outro, era como se o tempo tivesse abrandado. Quando finalmente se encontraram frente a frente, tudo regressou ao normal. 

“Olá”, diz ela com o seu belo sorriso. “Olá”, responde, esboçando um sorriso que revela mais do que ele pretendia. 

Apesar do frio que se fazia sentir, naquele instante Miguel viu-se envolvido por um calor primaveril, que não se lembra de alguma vez ter sentido. 

“Vamos?” Ela consente, e descem as escadas para saírem da estação. 

Enquanto se deslocam, conversam sobre temas banais que naquele instante parecem ser muito importantes. Ambos perdem-se nas palavras um do outro, e o tempo passa com uma naturalidade inesperada. 

Após o almoço, encontram uma modesta esplanada numa pequena rua coberta de calçada. 

“Pode ser aqui?”, ele pergunta. 

“Sim, vou lá dentro pedir, o que queres?” 

“Nada, eu tenho de ir ali, dás-me cinco minutos?” 

“Sim, claro.” Sara responde, estranhando este súbito pedido. 

Miguel atravessa a rua e desaparece da sua linha de visão. Sara decide aguardar que ele chegue e procura uma mesa com vista para a cidade. Escolhe uma com um pequeno vaso vazio, sem nenhuma justificação para este se encontrar ali. Uma voz interior dizia-lhe que esta era a mesa certa, embora ela não o soubesse porquê. 

Passados cinco minutos, tal como prometido, Miguel aparece. Sara não se apercebe da sua chegada, e apesar de a sua face mostrar surpresa, esta não é provocada pela chegada de Miguel, mas sim por aquilo que ele traz consigo. Um ramo de Amores Perfeitos. Não, Miguel não escolheu estas flores por estas revelarem algum sentido subtil, mas sim por serem as preferidas dela. 

“Não pude resistir, vi-os na montra no caminho para aqui”, diz. 

“Lembraste-te… Obrigado.” Sara levanta-se e beija-o levemente na face. 

Ela coloca-as no vaso, embora não possa ter a certeza, acredita que, de alguma forma, é ele o responsável pela presença do vaso. 

Ambos sorriem enquanto trocam olhares, num momento de silêncio em que não são precisas palavras. 

Não tardam a retomar o ritmo da conversa anterior, contudo há algo diferente, ambos o sentem, mas o momento ainda não é o certo. 

À medida que o dia se aproximava do fim, Sara e Miguel sentiam a noite a aproximar-se. Ambos sabiam o que isso significava. 

Miguel levou-a a um jardim, o sol já começara a pôr-se. Um corredor de velhas árvores reluzia em tons de dourado, enquanto os últimos raios do sol outonal brilhavam sob os castanhos, laranjas e amarelos das folhas que ocupavam as copas e preenchiam o céu. No chão, a relva verdejante cintilava de vida. Escolheram um pequeno banco mesmo no fim deste corredor onde se sentaram a contemplar o último hino à beleza natural, que o sol deste dia estava disposto a celebrar. 

“Lindo, não é?” Sara diz. 

Miguel, que estava a contemplar o horizonte, vira o olhar para ela e responde: “Sim.” 

Silêncio. Desta vez Sara não sorri, desvia o olhar para as suas mãos e o seu coração acelera, como que banhado por uma torrente de realização. 

“Miguel, eu…” Mas antes que ela possa dizer algo, ele toma a sua mão direita e acaricia-a levemente. Ela volta a cruzar os seus olhos com os dele. Algo impele-a a falar, mas ele abana ligeiramente a cabeça. Não. Não assim. 

A noite cai sobre o jardim outrora dourado. Está na hora de se despedirem. Ela agarra nas suas flores e aperta-as fortemente contra o seu peito. Ambos atravessam novamente o corredor, agora apenas iluminado pelas luzes dos candeeiros de rua. Lado a lado, apenas os dois. 

Chegaram à estação pouco antes da hora de partida. O comboio já aguardava na sua plataforma. Alguns passageiros começavam a embarcar. 

“Acho que tenho de ir…”, Sara diz, olhando para uma das portas da carruagem. 

Miguel aproxima-se dela e envolve-a num abraço profundo. Sara encosta a sua face ao seu peito. O tempo pára, desta vez, na sua totalidade. Naquele momento ambos conseguem sentir o coração um do outro, ambos batem em uníssono, gritando pelas palavras negadas durante todo o dia. 

Sara afasta-se ligeiramente do seu abraço e olha-o intensamente. 

“Miguel, eu…”

“Eu também”, interrompe. Estas duas palavras dispersam qualquer sombra de dúvida que pudesse ainda existir. Apenas uma palavra é capaz de descrever aquilo que sentem um pelo outro, e mesmo ela parece insignificante perante um sentimento tão intenso como aquele que ambos partilham. Amor. 

O comboio apita para a última chamada de embarque, e fá-los regressar friamente à realidade. Sara liberta-se do seu abraço. Enquanto se afastam um do outro, os braços de ambos atravessam-se suavemente, como que tentando impedir que o outro seguisse o seu caminho. Quando os seus dedos se cruzam, sentem pela última vez o calor do seu amor. Sara agarra fortemente o ramo de Amores Perfeitos junto ao seu peito e dirige-se para a porta. Miguel ouve através deste gesto aquilo que ambos quiseram dizer. 

Ao subir para a carruagem, ela detém-se por momentos nas escadas e olha-o por uma última vez antes de partir. Sara sorri, aquele sorriso que ela reserva apenas para ele, e Miguel contempla-o por uma última vez. 

Ela entra na carruagem. Como se tivesse que compensar pelos momentos em que esteve parado, o tempo acelera e tão depressa como chegou, o comboio desaparece de vista. Miguel permanece no mesmo lugar a fitar o horizonte, como tinha feito hoje de manhã. Foram apenas algumas horas, mas para ele foi como se uma vida inteira tivesse passado, nos breves momentos que Sara partilhou com ele. 

Publicado em 21 de Agosto de 2013

domingo, 15 de novembro de 2009

XIX

Guardo em mim, segredos,
Revelados sob o teu olhar,
Certezas de um significado,
Impossível de aceitar.

Palavras indiscretas,
Sem um fundo de verdade.
Mesmo em mentes abertas,
Soam como erradas consequências,
Sem sentido, nem idade.

Guardo em mim, segredos,
Proibidos entre nós,
Caminhos já confirmados,
Por uma distância atroz.

Calo em mim, vozes,
Repetidas em protesto.
Impedidas de ouvir,
Sentimentos certos.

Guardamos nós, segredos,
Entre dias, horas, momentos,
Silêncios eternos daquilo que escondemos:
Duas palavras, um segredo,
Uma incerta constante,
Deste ténue caminho,
Assim, por nós escolhido.

Guardo em mim, segredos,
Por ti, já revelados.
Guardamos nós, incertezas,
Improváveis de se desvendar.
Se apenas sob o teu olhar,
Guardamos nós, assim,
Um momento, um dia, uma hora,
Que ainda está por passar.

Guardamos nós, segredos.

Publicado em 4 de Setembro de 2013

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Na Esquina de Uma Vida

Chamem-me o nome que acharem que encaixa melhor na imagem que têm de mim, seja ela qual for, é tudo, menos quem eu sou.

O giz tocava o quadro deixando o típico rastro de linhas brancas que, há distância, formavam alguma equação, alguma frase, no fundo, meros elementos de um todo, reconhecível apenas por aqueles capazes de decifrar o código criado pela personagem que tomava o posto de liderança na frente da sala.

Quarta carteira a contar da direita, do lado da janela. Sim, sou eu o tipo a olhar para lá da janela, só, numa sala com vinte pessoas, a pensar num lugar distante, num mundo diferente. Sinto um ligeiro toque no braço, é o Tiago a avisar-me que a professora me está a chamar.

“Está bom tempo lá fora, não está?” O sarcasmo natural de uma das raras pessoas pelas quais nutro um certo respeito mútuo, e com a qual sinto-me à vontade para responder de igual modo.

“Não sei, acho que tenho de ir averiguar se está tão bom como parece”, mal as palavras saíram da minha boca, questionei-me sobre a extraordinária naturalidade com que elas surgiram. Como consigo ser tão eloquente em momentos como este, e um completo pateta em situações importantes? Ainda hoje não encontrei resposta para essa pergunta.

“Concentra-te no que se está a passar deste lado, já falta pouco para o descobrires”, disse, entre o seu já habitual sorriso e olhar sério de alguém que encara o seu emprego não como um ofício, mas como uma vocação.
 
Voltei a minha atenção para o centro da sala, mas os meus pensamentos não tardaram a desviar-se da matéria, fosse ela qual fosse, que estava em foco naquele momento. Não, bastou por os olhos nela, sentada na primeira fila, mesmo no centro, do lado esquerdo da sua carteira. Na verdade, o meu olhar já tinha caído sobre ela mal me dirigi para a professora e a vi a olhar na minha direcção. Libertei um triste, inaudível suspiro e concentrei-me em escrever algo no meu caderno, enquanto resistia à estranha tentação de empilhar caixas de minas uma em cima das outras.

Olhei para o meu pulso, maldito hábito que ao fim de tanto tempo ainda não consegui perder. Há já uns tempos tinha deixado o meu velho Casio amarelo guardado nalguma gaveta de minha casa. Ainda experimentei trocá-lo por um Swatch branco, mas logo no primeiro dia que o usei, a corrente arrebentou-se e com ela a minha vontade de controlar o tempo, ou de ser controlado por ele. Mas talvez algum sentido de identificação temporal ainda permanecesse vivo dentro de mim, um resquício primitivo de tempos há muito perdidos, pois mal repus a manga na sua devida posição, o toque surgiu. O seu eco ao atravessar pelas paredes do velho liceu, despertava uma autêntica romaria de cadeiras a arrastarem-se, portas a abrirem-se, e pessoas a falar.

“Finalmente fim-de-semana”, disse para o Tiago.

“Já não era sem tempo! Vou ver o Sporting a Aveiro, queres vir?”

“Era uma boa ideia, logo combinamos melhor”, toquei-lhe ligeiramente no ombro e dirigi-me na direcção dela.

“Vamos?” Por um momento perdi-me no seu olhar e esqueci tudo o que me rodeava.

“Sim.” O momento foi curto.

Pelos estreitos corredores, agora cheios de alunos apressados e desejosos de ir para casa saborear a doce liberdade do fim-de-semana, outras pessoas se juntaram a nós. Outro Tiago, o Acosta, o Policarpo, a Verónica e a Inês. Concentrámo-nos em frente ao portão da saída à espera daqueles que se atrasaram na conversa com outras pessoas. Uma vez juntos, e feitas as despedidas àqueles que daquele ponto para a frente não mais nos acompanhavam, seguimos caminho pela velha estrada de empedrado que nos levava até ao nosso destino, por entre ruas quase desertas.

O caminho era relativamente curto, num dia normal demorava 10 minutos a percorrê-lo, mas eu sabia que nunca chegaria a casa em menos de uma hora. A Inês era a primeira a deixar-nos, depois o Tiago, o Acosta, e finalmente o Policarpo e a Verónica acompanhavam-nos até à eterna intercepção, que, como uma verdadeira literalidade metafórica, separava o meu caminho do dela.

Geralmente ambos acompanhavam-nos em longas conversas triviais que chegavam a durar até à hora de jantar, mas que ali nos mantinham presos às palavras e experiências de cada um. Mas hoje seria diferente, por um motivo ou outro, tanto o Policarpo como a Verónica nos deixaram a sós, e seguiram os seus caminhos de regresso a casa. Ele pegou na sua bicicleta e rapidamente desapareceu no horizonte em direcção aos prédios para lá da linha de comboio. Ela apanhou a velhinha Feirense em direcção a São Vicente. Só restámos nós os dois.

Muitas eram as palavras que pairavam sobre o ar, muitas eram as conversas que ambos desejávamos e que ao mesmo tempo esperávamos nunca vir a ter.

Segurava o velho sinal de Stop que marcava o lugar do nosso encontro. Aqui éramos apenas nós, e nada mais. Eu sabia que podíamos perder horas ali a falar sobre qualquer assunto, era esse o poder da nossa amizade. Pois, infelizmente, era esse o único sentimento que ela via em mim.

Enquanto ela falava, apesar de a ouvir com a máxima atenção possível de se exigir a qualquer ser humano, absorvendo cada uma das suas palavras, perdia-me na observação dos seus gestos, dos seus profundos olhos castanhos, das leves ondas do seu cabelo, do seu querido nariz, e dos sentidos movimentos dos seus lábios.

O meu único desejo era pegar-lhe pela mão e dizer-lhe, ali, tudo aquilo que eu sentia, tudo aquilo que eu queria para nós. Dizer-lhe que a amava, que ela era o único motivo que me fazia levantar todas as manhãs, que ao vê-la sentia o meu coração a bater como se despertasse de um longo sono dormente, que ela era tudo, que só por ela valia a pena entregar todo o meu ser.

“Bom, tenho de ir ajudar a minha mãe a fazer o jantar.” Com esta frase a realidade fez regressar os meus pensamentos ao aqui e agora que não estava a prestar atenção.

“Já?” Nada mais me ocorreu.

“Tem que ser…”

“Oh. Até segunda, então?”

“Sim, até segunda”, respondeu com o seu típico sorriso que me deixava incapaz de reagir de qualquer maneira para além de simplesmente o retribuir, deixando-me perder nos seus olhos.

Ela preparava-se para atravessar quando as palavras saíram sem qualquer aviso.

“Espera”, disse.

“Sim?”

Contive-me, incapaz de forçar a honestidade de sentimentos que há muito guardo só para mim, embora no fundo sempre soubesse que ela já se tinha apercebido deles.

“Tem um bom fim-de-semana”, respondi.

“Tu também.” E com um último sorriso atravessou para o outro lado.

Fiquei a vê-la ir-se embora até a sua sombra se perder por entre as casas da velha rua de S. Miguel. “Um dia…”, disse a mim próprio, como sempre o fazia.

Continuei pelo rio da minha vida, cujo destino daquele dia desaguava às portas de minha casa. Hoje, continuamos a seguir caminhos distintos, próximos um do outro, mas mais distantes do que alguma vez conseguiria imaginar.

Publicado online em 22 de Maio de 2009
Publicado na Revista 9paginas em Outubro de 2009
Reeditado em 18 de Agosto de 2013

sábado, 21 de março de 2009

XVIII

Letras, palavras,
Elementos de um todo,
De infinitos sentidos,
Libertos de penosos destinos.

Fados de sentimentos,
Líricas de dor,
Fingimentos de realidades,
De tão desejadas, a nunca vividas.

O lirismo, o poder do verso,
Da palavra, do lápis, do papel.
A métrica, a harmonia,
Tão diferente da prosa, mas tão interligada...

Parágrafos, frases, linhas,
Elementos verticais.
Presos sobre a horizontalidade,
Da sua própria existência.

Dom do canto, da expressão,
do romance, dos sentimentos.
Versos soltos de uma vida,
de um todo, de um mundo.

Nada é mais fácil, que a existência de um poeta.
Que o exprimir das reacções que orientam o seu dia.
Nada é tão simples, nada é tão difícil.
Vertical, horizontal, isto não é poesia.
Isto é nada, e é tudo.

Poesia é vida, é a lírica do ser,
Poesia é viva, é o pulsar do saber,
Isto não é poesia.

Publicado em 1 de Setembro de 2013